Amazonas Covid-19

Crise do oxigênio em Manaus: a cronologia da tragédia

Passados quase seis meses da tragédia, o Vocativo reuniu em ordem cronológica as principais informações publicadas antes, durante e depois dos acontecimentos daqueles dias sombrios

No dia 14 de janeiro de 2021, Manaus viveu provavelmente o dia mais sombrio da sua história. Devido ao número exponencial de casos de Covid-19, cerca de 30 pessoas (o número não é exato) acometidos pela doença morreram por asfixia mecânica em hospitais da capital do Amazonas porque o fornecimento de oxigênio da rede não deu conta do atendimento e entrou em colapso. Ainda não há uma linha de investigação por autoridades do estado a respeito da tragédia, mas para tentar entender o que aconteceu, o Vocativo reuniu as principais informações que conseguiu apurar no período.

Julho de 2020

Conforme o Vocativo apurou, a empresa White Martins, fornecedora de oxigênio para o Amazonas, avisou o governo do Estado em duas oportunidades sobre o aumento no consumo do oxigênio no estado. A primeira delas foi em julho, provavelmente ainda resultado do final da primeira onda da pandemia, ocorrida entre abril e maio, somada ao retorno de atendimentos de outras doenças na rede de saúde.

O segundo aviso da White Martins aconteceu em setembro de 2020. Dessa vez, o aumento já era reflexo das internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), constatado em boletim produzido pela Fiocruz. Devido ao baixo número de testes feitos no Amazonas e a estarmos com um vírus prevalente, no caso o novo coronavírus, esse aumento de SRAG’s era a segunda onda se aproximando.

11 de setembro de 2020

Não foi apenas a Fioruz quem viu sinais de perigo em setembro de 2020. No dia 11 de setembro, em pronunciamento feito pelas redes sociais do governo do estado, a diretora presidente da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), Rosemary Pinto, confirmou aumento de casos. No mesmo pronunciamento, foi confirmado o cancelamento do Festival Folclórico de Parintins 2020. Rosemary Pinto morreria da Covid-19 em janeiro deste ano.

27 de dezembro de 2020

Mesmo admitindo aumento de casos de Covid-19, o governo do Amazonas não manteve as atividades econômicas no estado normalmente pelos meses seguintes, ao mesmo tempo em que a situação se deteriorava. No dia 27 de dezembro, com 88% dos leitos de UTI tomados e em situação crítica, o governador Wilson Lima determinou o fechamento das atividades não essenciais, mas recuou ao ser pressionado por empresários locais. O estado só teve restrições por ordem judicial, cinco dias depois.

07 de janeiro de 2021

Com a situação já crítica, o fornecimento de oxigênio entrava em colapso. A Secretaria de Estado da Comunicação (Secom) afirma que no dia 7 de janeiro de 2021, a empresa White Martins relatou à Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) dificuldades logísticas para suprir a demanda de oxigênio da rede e solicitando ajuda para o problema. Nesse mesmo dia, a pasta afirma que o secretário Marcellus Campêlo, ligou para o ministro Eduardo Pazuello informando a situação.

8 de janeiro de 2021

A informação repassada ao Vocativo pela SES-AM foi confirmada também pela própria Advocacia-Geral da União (AGU) ao atender determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) no inquérito que apura a tragédia. De acordo com a AGU, o Ministério da Saúde teve conhecimento da escassez no estoque de oxigênio no estado no dia 08 de janeiro de 2021. Ou seja, com um dia de diferença da versão da SES-AM.

10 de janeiro de 2021

No dia 10 de janeiro deste ano, o governador Wilson Lima anunciou uma força-tarefa para ampliar o abastecimento de oxigênio na rede estadual de saúde. Entre as medidas, estava o apoio das Forças Armadas no transporte do insumo de outros estados para o Amazonas, além da preparação de um chamamento público para implantação de miniusinas de oxigênio. Era tarde demais…

12 de janeiro de 2021

Mesmo o apoio no exército não foi capaz de evitar a catástrofe. A demanda por oxigênio hospitalar em estabelecimentos públicos de saúde do Amazonas no dia 12 de janeiro aumentou mais de onze vezes. Em média, eram 5 mil metros cúbicos por dia. Nesse dia, foram consumidos 58 mil metros cúbicos, algo impossível de suprir sem planejamento prévio. O mais provável é que essa demanda já estivesse perto dos 70 mil metros cúbicos diários.

14 de janeiro de 2021

E então chegou o dia do colapso. Sem planejamento prévio tanto de autoridades do estado quanto da União, sem responder a demanda da White Martins por duas vezes e sem medidas restritivas quando era possível segurar os casos, a catástrofe aconteceu. Cerca de 30 pessoas morreram por asfixia mecânica em hospitais da capital porque o fornecimento de oxigênio da rede não deu conta do atendimento e entrou em colapso. A cidade viveu seus piores dias.

Em desespero, parentes procuravam as redes sociais para tentar encher cilindros de oxigênio na tentativa de salvar seus familiares. Pacientes internados no Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto tiveram o nível de oxigênio reduzido devido à falta do insumo. Outros mantinham pacientes vivos por ventilação mecânica à mão mesmo. Alguns conseguiram na justiça a transferência, mas morreram antes disso.

19 de janeiro de 2021

A falta de oxigênio na rede hospitalar não matou apenas em Manaus. Sete pacientes internados no Hospital Regional de Coari, a 360 km de Manaus, morreram por falta de oxigênio. A denúncia foi feita em nota enviada pela prefeitura do município no dia 19 de janeiro. Não foram divulgados mais detalhes sobre os pacientes.

O que esperar?

O número de vítimas dessa tragédia pode ser maior, principalmente no interior do estado. Não se sabe ao certo. É provável que nem todas estivessem acometidas pela Covid-19. Não se sabe quais poderiam ter sido salvas se o oxigênio não tivesse acabado. Não há qualquer investigação em âmbito estadual para apurar responsabilidades. A Assembleia Legislativa do Amazonas não se pronunciou até hoje, quase seis meses depois. O inquérito aberto junto ao STF ainda não foi concluído.

Foto: Márcio James / Amazônia Real

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