Amazonas Covid-19

Um ano depois, tragédia de Manaus tem vítimas sem rosto e culpados ainda impunes

Esta sexta-feira (14/01/22) marca um ano da maior tragédia da história de Manaus. Em janeiro de 2021, após uma explosão de casos de Covid-19, a rede pública de saúde não suportou a quantidade de pacientes internados e entrou em colapso. Com isso, cerca de 30 pessoas morreram por asfixia mecânica em unidades espalhadas pela capital do Amazonas. E mesmo com imagens que chocaram o mundo, desde então, pouco se fala no assunto entre as autoridades do estado.

O maior número de mortes foi registrado no SPA e Policlínica Dr. José Lins, com sete óbitos. Outras sete pessoas morreram no SPA e policlínica dr. Danilo Corrêa. Outas três mortes aconteceram no SPA Alvorada, mais quatro no Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV) e três na Fundação de Medicina Tropical.

Conforme o Vocativo apurou, a empresa White Martins, fornecedora de oxigênio para o Amazonas, avisou o governo do Estado em duas oportunidades sobre o aumento no consumo do oxigênio no estado. A primeira delas foi em julho e a segunda em setembro de 2020. Dessa vez, o aumento já era reflexo das internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), constatado em boletim produzido pela Fiocruz. 

Desconhecidos

O dado mais cruel dessa tragédia é a falta de rostos e identidades das vítimas. É difícil até encontrar personagens para essa matéria porque é difícil distinguir, entre tantos mortes que aconteceram no mês de janeiro de 2021 por Covid-19 quem morreu pelo colapso e quem morreu exclusivamente pela doença. As próprias autoridades de saúde parecem não saber quem são.

Até hoje, está curso o Procedimento para Apuração de Dano Coletivo (Padac) instaurado pela Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) para apurar prejuízo à coletividade decorrente do desabastecimento de oxigênio hospitalar na rede pública de saúde. Mas fora isso, não há respostas. Algumas pessoas foram apontadas por colegas da imprensa como parentes das vítimas, mas não retornaram contato do site.

A nota enviada ao Vocativo pela DPE-AM é extremamente genérica a respeito tanto do procedimento quanto das vítimas. “O objetivo do Padac é averiguar os prejuízos à sociedade e este prevê possível ajuizamento de uma ação coletiva na responsabilização dos agentes públicos e privados envolvidos, caso necessário. Como o Padac está em curso, não há mais detalhes que possam ser informados no momento, bem como informações sobre a mensuração do número de mortes decorrente da falta de oxigênio. Tão logo os desdobramentos do procedimento sejam finalizados, estaremos à disposição para divulgar o trabalho realizado” finaliza o órgão.

Impunidade

Apesar de ainda repercutir na mídia do Brasil e do mundo, entre os políticos e órgãos de controle do estado, o assunto é tratado como tabu. O Ministério Público do Amazonas (MPAM) não retornou os contatos do Vocativo e não tem qualquer investigação anunciada sobre o caso. O Ministério Público Federal (MPF-AM), por sua vez, processou o ex-ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello e o ex-secretário de Saúde do Amazonas, Marcellus Campêlo por responsabilidade na crise.

Os chefes do poder executivo estadual, o governador Wilson Lima (sem partido) e o presidente Jair Bolsonaro (PL) seguem com prestígio entre a comunidade política local. Embora o governo federal tenha sido acusado pela CPI da Pandemia no Senado de descaso em face da situação trágica de Manaus, o presidente recebeu o título de cidadão amazonense em julho de 2021.

O governador Wilson Lima, por sua vez, mesmo tendo sido indiciado por corrupção e formação de quadrilha no Superior Tribunal de Justiça (STJ) por conta dos acontecimentos da Operação Sangria, da Polícia Federal, não sofre qualquer pressão na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam). Os poucos deputados de oposição do parlamento tentaram criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a tragédia, mas ela simplesmente nem chegou a sair do papel.

Esquecidos

Embora tenha alardeado que 2021 foi “o ano legislativo com o maior volume de matérias legislativas deliberadas e aprovadas ao logo da sua história”, a Câmara Municipal de Manaus (CMM) destinou um total de zero projetos que fazem menção à tragédia.

Famosa por passar mais tempo distribuindo medalhas e aumentando gastos do que criando leis de utilidade pública, os vereadores não mencionam a tragédia nem sequer em suas redes sociais. O mesmo acontece com prefeitura, governo do estado e legislativo estadual.

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