Opinião

Pela pandemia e Zona Franca, Bolsonaro jamais poderia ser bem-vindo em Manaus

Após nove ataques contra a Zona Franca de Manaus e a tragédia da pandemia no estado, que tem sua assinatura e de seus cúmplices, Jair Bolsonaro está novamente em Manaus para fazer a única coisa que sabe: ser bajulado e ameaçar a democracia

O presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido) está em Manaus, desta vez para inaugurar uma obra do chamado Cidadão Manauara 2, um projeto iniciado no antigo Minha Casa, Minha Vida, do governo do PT. E como sempre, contará com a bajulação do prefeito David Almeida (Avante) e do governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC) a tiracolo. O que é uma vergonha, pois se tem um lugar no Brasil onde Bolsonaro não poderia ser bem-vindo é o Amazonas.

Em pelo menos nove oportunidades desde o início do seu mandato, o governo Bolsonaro atacou ou tentou aprovar medidas que prejudicariam a Zona Franca de Manaus. E não podemos deixar de lembrar, é claro, a tragédia da pandemia no Amazonas tem a assinatura direta do presidente.

Zona Franca de Manaus

Em junho de 2019, o governo anunciou que pretendia reduzir de 16% para 4% a alíquota de imposto sobre a importação de produtos de tecnologia da informação, como celulares e computadores. As empresas que atuam no Pólo Industrial de Manaus deixariam de ter as vantagens comparativas, o que custaria milhares de empregos.

Em fevereiro de 2020, o presidente da República quase decretou o fim do polo de concentrados da Zona Franca. Com a publicação do decreto 10.254, de 20 de fevereiro de 2020, no diário oficial da União, a alíquota do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) dos chamados concentrados sobe de 4 para 8%, mas apenas entre 1º de junho a 30 de novembro de 2020.

Em fevereiro de 2021, Bolsonaro anunciou redução de 35% para 20% a alíquota do imposto de importação de bicicletas no Brasil até o final do ano. A medida acertaria em cheio a Zona Franca de Manaus e poderia ter causado a demissão de 5 mil trabalhadores de fábricas da capital do Amazonas.

Em março de 2021, o ministro da economia, Paulo Guedes reduziu em 10% a alíquota do imposto para importação de eletroeletrônicos, máquinas e equipamentos, o que segundo políticos do estado prejudica a Zona Franca de Manaus. A redução foi anunciada logo após o Governo Federal atender a um pleito da bancada do Amazonas e recuar da decisão de reduzir o imposto de importação de bicicletas.

Em abril deste ano, uma manobra do governo Bolsonaro quase prejudicou a Zona Franca mais uma vez. Em reunião do Conselho de Administração da Suframa (CAS) ocorrida nesta quarta-feira (28/04), o secretário de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia, Carlos Da Costa retirou de pauta um projeto de R$ 325 milhões da LG para a ZFM, o que só foi revertido mais tarde, mais uma vez com ação da bancada do governo no Senado e da oposição na Câmara.

Em transmissão pelas redes sociais em maio, Bolsonaro fez uma ameaça direta contra a Zona Franca de Manaus. Ao indagar os dois senadores do Amazonas e membros da CPI da Pandemia, Omar Aziz (PSD) e Eduardo Braga (MDB), sobre como seria o estado e Manaus sem o parque industrial.

Em julho, novamente o ministro da Economia, Paulo Guedes, propôs uma redução de incentivos fiscais no polo de bebidas do modelo em função do plano de redução do Imposto de Renda de Pessoa jurídica (IRPJ). A mudança funcionaria como uma forma de compensação da proposta na segunda fase da reforma tributária. No entanto, se aprovada, ela prejudicaria o Polo Industrial de Manaus (PIM).

Vale lembrar que a situação da pandemia no Brasil, causada pela condução do governo Bolsonaro, também custou as fábricas em Manaus. Empresários, especialistas e políticos são taxativos ao apontar que os impactos da pandemia no Polo Industrial de Manaus (PIM) são negativos e marcam a pior crise já registrada pelo principal modelo econômico do Estado, desde sua criação na década de 1960. Isso também custou empregos com o fechamento das fábricas da Sony, Canon e da Panasonic.

Pandemia

A atuação do governo Bolsonaro não custou apenas empregos ao Amazonas, mas principalmente vidas. Um estudo publicado por cientistas do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) encontrou relação direta entre apoio eleitoral ao presidente Jair Bolsonaro e a aceleração da mortalidade por Covid-19 em 2021.

Ao contrário de outros líderes mundiais, Bolsonaro atuou a favor do vírus. Para isso ele boicotou medidas de proteção, como distanciamento, máscaras e vacinas, além de incentivar a exposição da população ao contágio, prometendo a cura mentirosa da doença com o chamado tratamento precoce, completamente ineficaz contra a Covid-19. Isso sem contar a completa falta de coordenação, que resultou em quatro ministros da saúde em um ano, além da recusa e suspeitas de corrupção na compra de vacinas. O resultado está aí: 570 mil mortes, sendo mais de 13 mil no Amazonas, além da maior média de mortes por milhão de habitantes do país.

O fortemente alinhamento da população Manaus com o discurso do presidente, que deu 65% dos votos para ele em 2018, foi decisivo para esta tragédia. Como boa parte da população segue influenciada pelo seu discurso, ela adotou um comportamento de risco. E de quebra, elegeu uma leva de políticos bolsonaristas que contribuiram para o caos, a começar pelo atual governador, Wilson Lima e o novo prefeito, David Almeida.

Wilson Lima não adota o mesmo comportamento negacionista do presidente no discurso, mas faz isso na prática, com desprezo total pela ciência. O governador não adotou lockdown nas duas vezes em que Manaus precisava (assim como o então prefeito de Manaus em 2020, Arthur Virgílio Neto), além de permitir a circulação do vírus, o que gerou uma das piores variantes do coronavírus, a Gama.

A cronologia dos fatos que levaram ao colapso no fornecimento de oxigênio na capital em janeiro, também mostra a participação direta de Wilson Lima, além do ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, no episódio. Uma série de ações negligentes e atrapalhadas causaram a morte atroz de dezenas de pessoas por asfixia mecânica na cidade.

O prefeito de Manaus, David Almeida – talvez o mais bolsonarista de todos – não fica atrás. A sua primeira medida em janeiro deveria ter sido a decretação de lockdown na cidade. Ao invés disso, prometeu a distribuição de tratamento precoce em dezembro de 2020 e resolveu comprar, sem licitação, R$ 360,4 mil em comprimidos de ivermectina e dexametasona em junho.

Inadmissível

Só houve gente morrendo por asfixia mecânica em janeiro porque temos um presidente que trabalha pela disseminação do coronavírus. Só tivemos uma gestão vergonhosa no governo do Estado porque não temos governo federal capaz de decretar intervenção e de atuar para salvar vidas, ao invés de distribuir medicamentos ineficazes.

A gestão de Bolsonaro não tem absolutamente nenhum beneficio para o Amazonas e para Manaus. Em quase três anos de governo, a capital só foi destaque por duas coisas: ataques contra a Zona Franca e mortes. Em qualquer lugar sério do planeta, Bolsonaro já estaria preso.

É uma vergonha que venha para Manaus e seja recebido com festa, ao invés de um par de algemas. Em qualquer lugar cujos governantes tenham o mínimo de vergonha na cara, ele seria ignorado. Infelizmente para nós, não temos nenhuma das duas situações.

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