Opinião

Obrigado, Dra. Rosemary

São 01h50. Eu não consigo dormir. Achei melhor vir escrever. Achei que esse relato seria dado em outro momento. Sinceramente não achei que seria agora. E nessa circunstância.

Quando os números de Manaus “melhoraram” em julho do ano passado, achei que seria importante ouvir a pessoa que melhor acompanhou todo esse processo. Se alguém teria respostas, seria a dra. Rosemary Pinto, diretora-presidente da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), que a Covid-19 matou nesta sexta-feira (22/01).

Fala mansa e serena, Rosemary atuava há 22 anos como representante do Amazonas na Câmara Técnica de Vigilância em Saúde do Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde (Conass). Tinha experiência no controle de surtos, epidemias e situações inusitadas, trabalhando ativamente em todos os surtos registrados no estado ao longo dos últimos 25 anos.

Quando entrei em contato com a assessoria da FVS, pedi uma entrevista. Poderia ser por telefone mesmo (afinal, pandemia, né?). Ela insistiu que fosse presencialmente. Estranhei, mas fui até lá, no dia 11 de julho, com muitas perguntas na cabeça.

Conversamos por quase duas horas. O que era uma entrevista, que me rendeu boas pautas, acabou virando uma conversa quase informal. Percebi o real motivo dela querer minha presença ali. Era como se precisasse falar olhando nos olhos de alguém. O sentimento que percebi nela foi um só: resignação.

“Não retomamos as atividades porque podíamos. Retomamos porque precisávamos”. Foi uma das suas primeiras frases. Nunca mais saiu da minha cabeça. Narrou com revolta e indignação o episódio onde o governo do estado tentou desesperadamente fechar os portos do interior na tentativa de conter o coronavírus em Manaus, mas foi impedido pela Advocacia Geral da União (AGU), que permitiu as viagens, levando o vírus aos ribeirinhos. Ficou muito claro que os profissionais de saúde, personificados ali por ela, não enfrentaram só o SARS-COV-2, enfrentaram também as atitudes irresponsáveis dos gestores públicos do país.

Em dado momento, ela se tornou mais pessoal. Ela me contou do medo de levar o vírus para casa. Familiares, jovens e idosos, com comorbidades e do grupo de risco. Dos dias voltando para casa às 03h. Do cansaço. Do peso da responsabilidade.

Pediu também para que nós, jornalistas, contássemos as histórias dos profissionais de saúde que dão seu sangue na linha de frente de uma guerra cruel e implacável, onde lutam praticamente sozinhos, diante do negacionismo inclusive de muitos daqueles que tentam salvar e dos nossos governantes. Eu pretendo fazer isso e espero que os colegas façam o mesmo. Por isso também escrevo esse texto.

Também não sai da minha cabeça o fato de que quando Rosemary contraiu a Covid-19 (05 de janeiro), já haviam vacinas aprovadas no mundo. Os números do Amazonas já eram graves o suficiente um mês antes para justificar um lockdown. Fica a pergunta: foi realmente o coronavírus que a matou? Ela, novamente, personifica milhares de nós, que poderiam e deveriam ter sido salvos e não foram.

No decorrer da entrevista, pensei em quantas vezes nós, que temos de lidar com tarefas simples do cotidiano enquanto sentimos medo do futuro por causa dessa doença, nos deixamos vencer pelo cansaço. Enquanto isso, aquela senhora frágil estava ali. Tendo de lidar com o perigo enquanto o peso da vigilância de um estado massacrado estava sob seus ombros. Me senti pequeno, fraco, egoísta. Ainda viriam acusações irresponsáveis e levianas de manipulação de dados.

Ao final, me veio uma dúvida: será que alguém já parou e simplesmente agradeceu a essa mulher pelo esforço? Pelas vidas que seu trabalho salvou? Pelo tempo e dedicação? Pedi licença para dizer: “Dra. Rose, se alguém não lhe disse isso até hoje, quero lhe dizer obrigado. Por tudo”. Ela aceitou timidamente. Foi a última vez que nos vimos.

Eu espero sinceramente que ela tenha acreditado, porque foi de coração. Faço votos que sua alma descanse em paz, sabendo que fez um grande trabalho. Que lutou bravamente no momento mais trágico do Amazonas. E quando sua perda nos faz sentir pequenos, vazios e tristes, só me resta dizer mais uma vez: Obrigado, dra. Rose.

Fred Santana

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