Amazonas

Apesar de tudo, elas resistem

Além da ameaça do coronavírus, elas precisam enfrentar também uma sociedade que se mantém machista mesmo quando suas vozes são fundamentais na luta contra a Covid-19

A pandemia multiplicou o peso das dificuldades da vida de qualquer ser humano. Isolamento, desemprego, medo, morte. Para as mulheres em especial, além da ameaça do coronavírus, é preciso enfrentar também uma sociedade que se mantém machista mesmo quando elas são fundamentais na própria luta contra a Covid-19. Apesar disso, elas resistem.

O Vocativo ouviu mulheres que ao longo desse quase um ano de pandemia, tiveram de conciliar a própria sobrevivência com os desafios do cotidiano – algumas inclusive atuando na linha de frente – ao mesmo tempo em que enfrentam a desigualdade de gênero gritante no Brasil. Infelizmente, nem todas que deveriam dar um depoimento sobre esse dia puderam fazê-lo.

Algumas porque neste exato momento estão exauridas tentando salvar vidas em hospitais e UTI’s, seja porque estão assustadas com a perseguição política após publicação de trabalhos e opiniões nas redes sociais, seja porque simplesmente não conseguiram chegar vivas a este 8 de março.

Ferida aberta

Era de se esperar que uma condição tão dramática como uma pandemia piorasse as situações de machismo explícito que as mulheres já enfrentam no dia a dia. A maior surpresa, no entanto, é constatar que para as personagens ouvidas pelo Vocativo, a nova realidade apenas deixou mais explícito algo que já estava aqui o tempo todo.

“Durante a pandemia, tive alguns momentos em que atitudes machistas foram tomadas comigo. Seja a partir de uma resposta que buscava me desqualificar em alguma postagem minha que contrariasse alguma opinião, nas redes sociais, seja em momentos, reuniões ou discussões em que oportunidades para expor ideias, dados ou opiniões não foram dadas” relata a biomédica Mellanie Fontes-Dutra, coordenadora da Rede Análise Covid-19.

“Acredito que a pandemia apenas escancarou algo que ficava velado, por isso achamos que piorou, mas na verdade sempre existiu nós que não conseguimos ver tão claramente”, opina a infectologista Mayla Borba, que foi diretora-técnica do hospital Delphina Aziz, em Manaus, entre abril de 2019 e agosto de 2020. O hospital é referência no combate à Covid-19 no estado.

“Com a pandemia, notei comentários do tipo ‘tu é mulher, devia ficar em casa’. Ouvi isso de ouvinte, por exemplo, quando pedia no AR pra ficarem em casa. De certa forma, ter uma mulher ali, em atividade em plena pandemia, incomodou muitos homens que foram forçados a ficar em casa. Eu não acho que piorou, pelo contrário, evidenciou a rotina de ser mulher nesse país em que nem o ‘chefe’ tem respeito pela nação”, diz a jornalista Larissa Balieiro, da Rádio Difusora, de Manaus.

“No meio acadêmico, mulheres com filhos têm relatado um acúmulo muito maior de responsabildades domésticas, o que interfere negativamente em seu desempenho profissional e produtivo. Mas, sinceramente, não vi muita diferença do machismo nosso de cada dia”, alerta a patologista Monique Freire, pesquisadora da Fundação Centro de Oncologia do Estado (FCecon).

“A pandemia explicitou o quão vulnerável é a condição sócio-econômica da mulher. Vimos a mortalidade materna aumentar assustadoramente e pouco tem sido feito para mudar isso, por governos ou sociedade civil. Mulheres são mais impactadas economicamente e estão mais vulneráveis quanto maior for a dependência financeira masculina”, explica Monique, que vivenciou essa realidade visitando bairros pobres da periferia pelo serviço SOS Funeral, da prefeitura de Manaus.

Uma luz na escuridão

Apesar dos desafios que esse momento traz para todas elas, é inegável que o destaque que muitas estão tendo também é, de certa forma, uma maneira de incentivo e reconhecimento. Diante de um cenário de tantas dúvidas, a competência acaba se impondo sobre o sexismo. Por conta disso, apesar do óbvio cansaço, elas buscam manter as forças e seguir em frente.

“Eu destaco o reconhecimento de tanta contribuição que as mulheres estão dando. No passado, muitas não tiveram reconhecimento em seu tempo. Hoje, muitas ações estão em andamento voltadas para meninas na ciência, trazendo representatividade com exemplos de mulheres incríveis que vem ganhando destaque na ciência”, alegra-se Mellanie Fontes-Dutra.

“Assim como milhares de brasileiros, vivenciar o isolamento social é algo bem desafiador em uma época de tanto sofrimento coletivo. Quando a dor do outro também é a sua, ao não conseguir compartilhar isso através da presença física, isso nos faz reinventarmos a forma de demostrar afeto”, ensina Mayla Borba.

“Quero aproveitar só o agora. A carga emocional triplicou. Então, a única coisa que faço por mim hoje em dia é ver minhas séries e fazer o futebol, que amo muito. Preciso confiar em Deus. E continuar fazendo minha parte. A gente tem que sair diferente de tudo isso”, afirma Larissa Balieiro.

Em memória

Uma das figuras que certamente mereceria uma menção nesta data seria a Dra. Rosemary Pinto, epidemiologista e diretora-presidente da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), que faleceu em janeiro, vítima da Covid-19. “Só tive tempo de chorar por tudo isso quando a dra. Rose morreu. Ali eu desabei”, desabafa Larissa Balieiro.

“Rosemary Pinto era uma gigante de 1,60. Uma mulher incansável, que dedicou sua vida à FVS, da qual foi fundadora e primeira presidente. Idosa e cheia de comorbidades, ela jamais se ausentou, dedicando 14 horas por dia à esta instituição”, afirma Maíra Pessoa, jornalista e assessora de comunicação da FVS-AM, companheira de trabalho que acompanhou a diretora durante toda a pandemia.

Segundo Maíra Pessoa, Rosemary tinha como uma das características antecipar soluções. Já imaginando as dificuldades logísticas para as vacinas contra a Covid-19, a diretora chegou a desenhar modelos de contêineres que poderiam armazenar os imunizantes. Infelizmente, ela não chegou a ver o fruto do seu trabalho. Rosemary, aliás, nem ao menos consegue ver chegarem ao Amazonas as vacinas que poderiam ter salvo sua vida.

No dia 18 de janeiro, data em que chega ao estado o primeiro lote de vacinas, ela é intubada, falecendo no dia 22, uma sexta-feira. Ela é sepultada no dia 23 de janeiro, mesmo dia em que chega o segundo lote. “Ela foi um exemplo de dedicação e amor ao trabalho. Dra. Rose foi minha bússola profissional”, diz, emocionada, Tatyana Amorim, diretora-técnica da FVS-AM.

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