Territórios

Amazonas dobra focos de queimadas em 2026 e Manaus lidera poluição entre capitais

Poluição corresponde a 8,5 vezes o limite máximo anual de exposição recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS)

Manaus, 08 de outubro de 2026 – Manaus voltou a liderar, nesta quinta-feira, 8, o ranking das cidades mais poluídas do Brasil, com 181 pontos no Índice de Qualidade do Ar (US AQI⁺), classificação considerada insalubre. O registro ocorreu enquanto o Amazonas acumulou 6.901 focos de queimada em 2026, alta de 95,11% em relação ao mesmo período de 2025, e a fumaça avançou sobre a capital. Entre 20 de agosto e 8 de outubro, a cidade teve sete registros de poluição acima da faixa considerada segura, segundo os dados reunidos no levantamento.

Às 8h desta quinta-feira, a concentração de PM2.5, partículas muito pequenas produzidas, entre outras fontes, pela queima de vegetação, chegou a 98,3 microgramas por metro cúbico (µg/m³) em Manaus, segundo a plataforma IQAir. O valor equivale a 19 vezes a diretriz anual de 5 µg/m³ da Organização Mundial da Saúde (OMS), enquanto estações instaladas em diferentes pontos da cidade registraram níveis ainda mais altos de poluição.

Queimadas avançaram pelo Amazonas em 2026, com maior concentração de focos no Sul do Estado. Foto: Ipaam
Queimadas avançam no Amazonas

Os 6.901 focos de queimada registrados no Amazonas até 8 de outubro estão concentrados principalmente no Sul do Estado e na Região Metropolitana de Manaus (RMM). Juntas, as duas áreas responderam por 74,5% das ocorrências, com 3.485 focos no Sul e 1.655 na Região Metropolitana, segundo dados do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM).

Entre os municípios com maior número de ocorrências estão Apuí, com 980 focos; Novo Aripuanã, com 797; Lábrea, com 665; e Autazes, com 386. O avanço ocorre em uma área marcada pela expansão da fronteira agrícola e pelos eixos das rodovias BR-230, a Transamazônica, e BR-319.

O mapeamento do IPAAM indica ainda que 79% dos focos ocorreram em assentamentos rurais e terras públicas não destinadas. O Projeto de Assentamento Rio Juma aparece com 544 focos de calor, o maior volume entre as unidades territoriais identificadas no levantamento.

O aumento das queimadas acompanha a piora da qualidade do ar na capital. Os registros reunidos entre 9 de setembro e 8 de outubro mostram episódios sucessivos de concentração elevada de poluentes, com Manaus aparecendo cinco vezes no primeiro lugar do ranking nacional de cidades mais poluídas: foram 106 pontos em 9 de setembro, 261 em 23 de setembro, 118 em 6 de outubro, 129 em 7 de outubro e 181 nesta quinta-feira.

Fumaça segue pelo eixo da BR-319

Um estudo publicado em 2025 na revista Discover Sustainability relacionou o transporte da fumaça que atinge Manaus a queimadas e focos de desmatamento ao longo do corredor formado pelas rodovias BR-319 e AM-254, abrangendo municípios como Careiro, Autazes, Manaquiri e Novo Aripuanã.

A pesquisa analisou a direção dos ventos e as medições realizadas por estações localizadas a leste de Manaus, entre elas a torre do Projeto ATTO, em Uatumã, e a estação de controle em Itacoatiara. Esses pontos registraram concentrações de partículas inferiores às observadas em Manaus e no Careiro da Várzea, dinâmica que, segundo o estudo, não correspondia à hipótese de que a principal origem da fumaça estivesse nas queimadas do Pará.

A análise relacionou a pluma que chega à capital às áreas de queimadas e desmatamento existentes ao longo dos corredores rodoviários. Os municípios de Careiro e Autazes, próximos a Manaus, também apareceram nos registros de focos ativos acompanhados pelos sistemas de monitoramento em tempo real durante setembro e outubro.

A deterioração da qualidade do ar ocorreu, portanto, paralelamente ao avanço dos focos de queimadas no Estado. Os dados de monitoramento mostram que os episódios de maior concentração de partículas coincidiram com períodos em que a fumaça estava presente sobre a área urbana da capital.

Fumaça e material particulado permaneceram sobre Manaus em períodos de ventos fracos e temperaturas elevadas. Foto: Reprodução / IQAir
Poluição chega a nível perigoso

O episódio mais grave do período ocorreu em 24 de setembro, quando o sensor SEMA_DCAM_05, da rede comunitária PurpleAir, registrou 314 pontos no índice de poluição por PM2.5. A marca foi classificada como “Perigoso”, a faixa mais grave da escala utilizada pelo sistema.

No dia anterior, 23 de setembro, Manaus havia atingido 261 pontos no indicador consolidado por cidades, o maior registro identificado no conjunto de dados analisado. Naquele momento, a concentração de PM2.5 chegou a 124,5 µg/m³, equivalente a 24,9 vezes a diretriz anual de 5 µg/m³ estabelecida pela OMS.

A sequência de episódios acima de 100 pontos ocorreu nos dias 9, 17 e 23 de setembro, 24 de setembro, 6, 7 e 8 de outubro. Em seis dessas sete datas, houve registros superiores a 150 pontos, faixa que inclui as classificações insalubre, muito insalubre e perigoso.

Nesta quinta-feira, o registro mais elevado entre as estações de monitoramento foi identificado no Centro de Manaus, com 219 pontos no US AQI⁺, classificação muito insalubre. No Parque Dez de Novembro, o índice chegou a 197, enquanto a estação da Fundação Amazonas Sustentável (FAS) registrou 177, ambos classificados como insalubres.

A concentração de PM2.5 também apresentou forte variação ao longo do período. Em 20 de agosto, Manaus registrava 11,7 µg/m³, com AQI 56, na categoria moderada; em 23 de setembro, a concentração chegou a 124,5 µg/m³, aumento de 964,1% em relação ao registro de agosto.

Calor mantém condições para a poluição

Na manhã desta quinta-feira, Manaus registrava 31°C, ventos de 16 km/h e umidade relativa do ar de 37%, segundo os dados reunidos no relatório. A previsão indicava temperatura máxima de 39°C entre 13h e 14h, com redução da umidade para 24%. No mesmo período, o sistema de monitoramento do programa europeu Copernicus, exibido pela plataforma Windy, identificou alta concentração de monóxido de carbono sobre Manaus. O gás é produzido principalmente pela queima de vegetação e foi identificado sobre a mesma área em que a capital apresentava níveis elevados de fumaça e material particulado.

O cenário de poluição ocorre durante a configuração do El Niño 2026/2027. O Boletim Oficial nº 03 do Painel El Niño, elaborado por INMET, INPE, CEMADEN, ANA, SGB, SEDEC e CENSIPAM, confirmou o estabelecimento do fenômeno em junho de 2026 e apontou 69% de probabilidade de ocorrência de um evento de intensidade muito forte.

Segundo o documento, o fenômeno provocou atraso na consolidação da estação chuvosa na Amazônia Central e redução da precipitação, condições que aumentam o risco de queimadas e de ondas de calor. No período de maior concentração de poluentes em Manaus, as temperaturas elevadas e a presença de fumaça ocorreram simultaneamente ao avanço dos focos registrados no Estado.

O PM2.5 é formado por partículas com diâmetro inferior a 2,5 micrômetros, pequenas o suficiente para alcançar regiões profundas dos pulmões. Estudos citados no levantamento, entre eles trabalhos de Ng et al. (2025), Zhong et al. (2025) e Romanello et al. (2025), relacionam a exposição a esse tipo de material particulado ao aumento da mortalidade prematura por doenças cardiorrespiratórias.

Em 8 de outubro, enquanto o Amazonas acumulava 6.901 focos de queimadas, Manaus registrava 181 pontos no índice de qualidade do ar e concentração de 98,3 µg/m³ de PM2.5. O episódio ocorreu após uma sequência de registros elevados desde setembro, em um cenário de avanço das queimadas no Estado e presença de fumaça sobre a capital.


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