Manaus, 09 de outubro de 2026 – O Governo Federal destinou mais de R$ 329,6 milhões em recursos, créditos extraordinários e contratos relacionados à prevenção e ao combate às queimadas no Amazonas em 2026, segundo levantamento do Vocativo em registros do Diário Oficial da União (DOU) e informações do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O conjunto de medidas inclui apoio aéreo, mobilização de brigadistas, fiscalização ambiental e investimentos na estrutura do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Amazonas (CBMAM), que também teve R$ 45 milhões aprovados pelo Fundo Amazônia para o projeto ProAmazon.
Os registros contrastam com a declaração do comandante-geral do CBMAM, coronel Orleilso Muniz, de que o Governo Federal negou apoio aéreo para combater os incêndios florestais no Estado. Em entrevista à Rede Amazônica nesta sexta-feira (09/10/2026), o oficial afirmou que uma solicitação de quatro aeronaves, feita em setembro, recebeu resposta negativa. No mesmo dia, o Ibama anunciou o envio de dois aviões e um helicóptero, além de 40 brigadistas para reforçar as equipes federais que já atuam no Amazonas.
O levantamento do Vocativo também identificou contratos para aquisição de equipamentos, medidas de monitoramento por satélite, autorização para atuação da Força Nacional e recursos destinados a brigadas municipais. Os valores incluem instrumentos de alcance nacional e iniciativas diretamente relacionadas ao Amazonas; por isso, nem todo o montante corresponde a repasses exclusivos ao Estado ou a dinheiro já pago. A documentação reúne medidas adotadas ao longo do ano, antes do anúncio do novo reforço aéreo desta sexta-feira.

Pedido de aeronaves e resposta federal
As declarações de Muniz foram dadas em meio ao avanço das queimadas e à piora da qualidade do ar em Manaus. “Nós já tivemos um retorno negativo, de que não seria possível apoiar. Reforço e apelo, mais uma vez, que o Estado do Amazonas precisa somar esforços com o governo federal para fazer um enfrentamento qualificado”, afirmou o comandante. Ele também destacou a importância dos meios aéreos para alcançar áreas de difícil acesso. “Certamente, toda ajuda, principalmente através de aeronaves, seria e é muito importante nesse momento”, declarou.
Em resposta, o superintendente do Ibama no Amazonas, Joel Araújo, informou que o órgão enviaria três aeronaves — dois aviões e um helicóptero — e mais 40 brigadistas de outras regiões do País. O reforço se soma aos 250 profissionais do Ibama e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) que, segundo o órgão federal, já atuam no Estado.
O MMA informou que, em 23 de setembro, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) solicitou apoio ao Centro Integrado Multiagência de Coordenação Operacional Federal (Ciman Federal). Na ocasião, foram disponibilizados um helicóptero do projeto Pegasus e combatentes do projeto Respad, ambos vinculados ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. Segundo a pasta, não houve novo acionamento do Ciman Federal pelas autoridades estaduais desde aquela solicitação.
O Ibama também informou que mantém equipes em municípios como Humaitá, Lábrea, Manicoré, Apuí, Autazes, Nova Olinda do Norte e Barreirinha. Brigadistas foram mobilizados ainda para Careiro da Várzea e Parintins, após solicitações das prefeituras. De acordo com o balanço federal, as equipes atuavam no combate a 20 incêndios e haviam contribuído para extinguir outros 211.
Além das aeronaves anunciadas, o Governo Federal informou ter disponibilizado ao governo estadual contratos já licitados para a aquisição de equipamentos de combate ao fogo e a contratação de aviões para lançamento de água. A existência desses instrumentos, somada às operações e aos mecanismos de cooperação já acionados, integra o conjunto de medidas federais registradas pelo levantamento do Vocativo.

Recursos, brigadas e planejamento contra incêndios
Entre os investimentos diretamente relacionados ao Amazonas está o projeto ProAmazon, para o qual o Fundo Amazônia aprovou R$ 45 milhões destinados ao fortalecimento do CBMAM. A iniciativa prevê ampliar a frota, adquirir equipamentos e estruturar bases para ações de prevenção e combate aos incêndios florestais. O projeto foi apresentado pela própria corporação estadual e integra as iniciativas federais voltadas à ampliação da capacidade operacional no Estado.
A aprovação dos R$ 45 milhões não significa que o valor tenha sido integralmente transferido ou esteja imediatamente disponível para uma operação específica. O investimento, porém, consta dos registros federais como apoio destinado à estrutura do Corpo de Bombeiros, responsável por atuar no combate aos incêndios em articulação com os demais órgãos estaduais e federais.
O levantamento identificou ainda R$ 2,02 milhões em contrato do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), relacionado à contratação de pessoal para ações de prevenção e combate a incêndios em Manaus, com vigência de 20 de julho de 2026 a 20 de julho de 2031. Também constam R$ 362.195,73 descentralizados pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente para a brigada municipal de Apuí e uma dotação de R$ 100 mil para prevenção e controle de incêndios em áreas federais prioritárias no Amazonas.
Somados aos R$ 45 milhões do ProAmazon, esses três instrumentos representam R$ 47.482.195,73 em valores diretamente relacionados a iniciativas no Amazonas. O total reúne projeto aprovado, contrato e dotação orçamentária, modalidades diferentes que não podem ser tratadas como pagamentos já realizados.
Os atos publicados no DOU também registram medidas federais de organização das brigadas. A Portaria Ibama nº 64 autorizou a formação de brigadas federais de grande porte em Apuí, Autazes e Humaitá, além da contratação de agentes de informação e supervisores estaduais. Em âmbito nacional, um contrato de R$ 34.971.410,67 prevê a aquisição de equipamentos de proteção individual para brigadistas do Prevfogo.
Na área da segurança pública, a Portaria MJSP nº 1.247 autorizou o emprego da Força Nacional na Amazônia Legal, com sede operacional em Manaus, para combater crimes ambientais. A Sema também assinou o Acordo de Cooperação Técnica nº 26/2026 para integrar a RedeMAIS, com acesso gratuito e diário a imagens de satélite óptico de alta resolução para identificar alterações no território e subsidiar ações de fiscalização.
Em escala nacional, os registros federais apontam R$ 292.340.528 em créditos extraordinários para ações de prevenção e controle de incêndios em áreas federais prioritárias e de fiscalização ambiental. Desse montante, R$ 149.274.818 foram destinados à prevenção e ao controle de incêndios em áreas federais prioritárias, enquanto R$ 143.065.710 foram direcionados à fiscalização ambiental e à prevenção e ao combate ao fogo.
Outro contrato nacional, de R$ 29.894.469,60, prevê fretamento e apoio de aeronaves, incluindo fornecimento, manutenção e transporte, com vigência de 31 de julho de 2026 a 31 de julho de 2031. Como esses contratos e créditos têm abrangência nacional, seus valores não representam, necessariamente, recursos exclusivos para operações no Amazonas. O levantamento considera a existência dos instrumentos federais sem presumir que todo o montante tenha sido executado no Estado.

Queimadas no interior e poluição em Manaus
Os dados do Ipaam mostram que o Amazonas acumulou 6.901 focos de queimada até 8 de outubro, alta de 95,11% em relação ao mesmo período de 2025. As ocorrências estão concentradas sobretudo no Sul do Estado e na Região Metropolitana de Manaus, que, juntas, respondem por 74,5% dos registros. Os municípios com mais focos são Apuí, com 980; Novo Aripuanã, com 797; Lábrea, com 665; e Autazes, com 386.
O levantamento aponta que 79% dos focos ocorreram em assentamentos rurais e terras públicas não destinadas. O Projeto de Assentamento Rio Juma foi a unidade territorial mais atingida, com 544 registros. No campo da fiscalização, o Ibama notificou proprietários de áreas que abrangem mais de 122 mil hectares em municípios como Canutama, Manicoré e Boca do Acre, exigindo medidas de manejo integrado do fogo e aplicando embargos cautelares.
Em balanço de alcance nacional, o Ibama informou também ter notificado 421 propriedades rurais para que adotassem medidas de prevenção contra incêndios. O órgão afirmou que intensificou as fiscalizações presenciais para coibir novas ocorrências e apurar o uso irregular do fogo. Os registros se referem a medidas de prevenção e fiscalização, distintas da mobilização de aeronaves e brigadistas para combater incêndios ativos.
A fumaça proveniente das queimadas também elevou a poluição atmosférica na capital. Na quinta-feira (8), Manaus atingiu 181 pontos no Índice de Qualidade do Ar (US AQI⁺), nível classificado como insalubre, segundo os dados citados no levantamento. Entre 20 de agosto e 8 de outubro, a cidade registrou sete episódios de poluição acima da faixa considerada segura.
A plataforma IQAir registrou, às 8h de quinta-feira, concentração de 98,3 microgramas por metro cúbico (µg/m³) de PM2.5, material particulado fino associado à queima de biomassa. O valor corresponde a aproximadamente 19,7 vezes a diretriz anual de 5 µg/m³ estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
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