Engrenagens

Deputado mais votado do Amazonas tem 1 processo por homicídio e 0 leis individuais aprovadas

Com 212.432 votos, Sargento Salazar foi o deputado federal mais votado do Amazonas. A chegada à Câmara ocorre após mandato municipal sem nenhum projeto individual convertido em Lei Ordinária, patrimônio declarado 660,7% maior em dois anos e uma ação penal por homicídio em tramitação

Manaus, 06 de outubro de 2026 – O deputado federal mais votado do Amazonas nas Eleições de 2026, Sargento Salazar (PL), chega à Câmara dos Deputados com uma trajetória política marcada por uma particular combinação de 1 processo por homicídio e nenhum Projeto de Lei de autoria individual convertido em Lei Ordinária durante os quase dois anos de mandato na Câmara Municipal de Manaus (CMM). Alexandre da Silva Salazar recebeu 212.432 votos no primeiro turno.

No mesmo período, os registros eleitorais mostram que o patrimônio declarado pelo parlamentar passou de R$ 290 mil, em 2024, para R$ 2,206 milhões, em 2026. Salazar responde ainda a uma ação penal por homicídio simples relacionado a um caso ocorrido em Manaus, em 2019. A votação obtida pelo vereador representou mais de 10% dos votos válidos destinados aos candidatos a deputado federal no Estado e colocou Salazar à frente de parlamentares em exercício e de lideranças políticas consolidadas.

Sargento Salazar obteve 212.432 votos e foi o candidato a deputado federal mais votado do Amazonas em 2026 (Reprodução / TSE)
Projetos individuais não viraram leis

O desempenho eleitoral contrasta com o resultado de sua produção legislativa individual. Levantamento nos registros do Sistema de Apoio ao Processo Legislativo (SAPL) mostra que Salazar apresentou 44 projetos de lei como primeiro autor entre janeiro de 2025 e a segunda-feira (05/10/2026), mas nenhum deles havia sido convertido em Lei Ordinária. As leis ordinárias aprovadas com participação do vereador foram resultado de coautorias, e não de projetos de autoria exclusiva dele.

Parte dessas propostas permaneceu em tramitação nas comissões, enquanto outras receberam pareceres jurídicos contrários ou foram retiradas pelo próprio autor. Entre as matérias individuais que não avançaram estão o PL 80/2026, que propunha o programa “Patrulha Integrada Municipal”, o PL 440/2026, sobre advertência na primeira infração de radar, o PL 286/2025, relacionado ao programa “Buraco Zero”, e o PL 221/2026, que tratava de ressarcimento por danos em vias públicas. Os registros legislativos indicam que essas proposições permaneceram em fase de análise ou receberam manifestações contrárias dos órgãos técnicos da Casa.

Também houve projetos retirados por solicitação do próprio parlamentar. Entre eles estão o PL 446/2026, sobre conteúdo educativo no sistema Zona Azul, o PL 657/2025, relacionado ao incentivo a eletropostos, o PL 309/2025, sobre comércio ambulante e feiras, e o PL 213/2025, que tratava de placas em obras.

Projetos individuais apresentados por Salazar foram arquivados, retirados ou permaneceram sem aprovação (Reprodução / SAPL / CMM)

Em outros casos, os projetos receberam pareceres jurídicos contrários por questões relacionadas à constitucionalidade ou à iniciativa legislativa. É o caso do PL 426/2026, que previa o uso de mão de obra de apenados em obras públicas, e do PL 264/2025, que tratava da revisão de tarifa de esgoto.

Além dos projetos de lei, Salazar teve propostas aprovadas na forma de Decretos Legislativos, utilizados pela Câmara para concessão de honrarias. Os registros analisados apontam matérias destinadas à concessão da Medalha de Ouro Cidade de Manaus e de Diplomas de Cidadão de Manaus a autoridades e personalidades.

O vereador só teve projetos em coautoria convertidos em leis durante o mandato na Câmara de Manaus (Reprodução)
Patrimônio declarado aumentou 660%

Os dados das declarações de bens apresentadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram uma evolução patrimonial expressiva durante o período analisado. Em 2020, quando concorreu como suplente de vereador, Salazar declarou não possuir bens; em 2022 e 2024, informou patrimônio de R$ 290 mil, correspondente a um apartamento no bairro Flores.

Na declaração apresentada para as Eleições de 2026, o patrimônio informado passou para R$ 2.206.000,00. A diferença em relação aos R$ 290 mil declarados em 2024 é de R$ 1.916.000,00, equivalente a aproximadamente 660,7% de aumento em dois anos. Entre os bens declarados em 2026 está uma casa em condomínio de luxo, na Reserva dos Parques, avaliada em R$ 1.700.000,00. A declaração também registra três veículos que, somados, correspondem a R$ 191.000,00, além de participação societária em empresa.

Pela primeira vez, na declaração de 2026, Salazar informou possuir 25% das quotas da empresa Escudeiro Serviços Terceirizados Ltda., avaliadas em R$ 25.000,00. Os documentos analisados registram ainda que a participação societária passou a integrar sua declaração patrimonial nesse ciclo eleitoral. A evolução ocorreu durante o período em que Salazar passou a exercer mandato na Câmara Municipal de Manaus. A Lei nº 587/2024, utilizada no cruzamento documental, fixou em R$ 26.080,98 o subsídio mensal dos vereadores a partir de fevereiro de 2025, com direito ao décimo terceiro salário.

Patrimônio declarado por Salazar passou de R$ 290 mil em 2024 para R$ 2,206 milhões em 2026 (Reprodução)
Ação penal por homicídio segue em tramitação

Paralelamente à carreira política, Salazar responde à Ação Penal de Competência do Júri nº 0764987-18.2020.8.04.0001, relacionada à morte de Felipe Kevin de Oliveira Costa, ocorrida em 24 de junho de 2019, no bairro Colônia Terra Nova, em Manaus. Segundo a denúncia do Ministério Público do Estado do Amazonas (MPAM), Salazar estava de folga e à paisana quando teria presenciado um roubo praticado pela vítima e por um comparsa.

Ainda conforme a acusação, Salazar teria perseguido a motocicleta dos suspeitos, provocado uma colisão e, depois da queda dos ocupantes, seguido a vítima a pé e efetuado disparos. O processo registra divergência entre a quantidade de tiros considerada na decisão de primeiro grau e a apontada pelo laudo pericial utilizado pelo Ministério Público no recurso.

Salazar responde a ação penal relacionada à morte de Felipe Kevin de Oliveira Costa, em 2019 (Reprodução)

Em setembro de 2025, o juiz Fábio Lopes Alfaia concedeu absolvição sumária a Salazar, reconhecendo o estrito cumprimento do dever legal e registrando seis disparos de arma de fogo. O MPAM recorreu da decisão e sustentou, com base no laudo pericial necroscópico, que Felipe Kevin foi atingido por nove disparos, sendo dois na região da cabeça, na área temporal esquerda.

O Ministério Público sustentou no recurso a existência de excesso doloso, isto é, que os limites de uma atuação inicialmente considerada legítima teriam sido ultrapassados de forma deliberada. A acusação busca o prosseguimento da ação para que a questão seja submetida ao Tribunal do Júri.

O recurso de apelação apresentado pelo MPAM chegou a ser rejeitado inicialmente pelo juízo de origem sob alegação de ausência de dialeticidade. O Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), entretanto, determinou o prosseguimento da apelação.

Em 2026, a Vice-Presidência do TJAM não admitiu o Recurso Especial apresentado pela defesa de Salazar ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Com isso, permanece válida a tramitação do recurso do Ministério Público que busca levar a discussão sobre o homicídio ao Tribunal do Júri, sem que isso represente condenação do vereador.

TJAM rejeitou recurso apresentado pela defesa de Sargento Salazar para levar a discussão ao STJ (Reprodução/TJAM)
Atuação nas redes

A projeção de Salazar também foi construída fora da Câmara, a partir de uma presença intensa nas redes sociais marcada por confrontos e episódios que chegaram à Justiça. Em janeiro de 2025, a Folha de S.Paulo informou que o vereador havia sido citado como autor em ao menos 24 investigações ou ações judiciais desde 2009, envolvendo crimes militares, abuso de autoridade e pelo menos três homicídios. Segundo o levantamento do Tribunal de Justiça do Amazonas obtido pelo jornal, 17 desses casos já não tramitavam — quatro haviam prescrito, seis terminaram em absolvição e sete foram arquivados, sobretudo por falta de provas. Na época, a defesa afirmou que não havia condenação contra Salazar e que a quantidade de processos estaria relacionada à atuação policial nas ruas.

Em janeiro de 2026, a atuação do parlamentar nas redes voltou a provocar reação após um vídeo dirigido ao proprietário de um portal de notícias. Na gravação, Salazar respondeu a críticas com referências a confronto físico e uso de arma de fogo. O empresário Hugo Guimarães, proprietário do AM POST, registrou boletim de ocorrência na Delegacia Especializada em Repressão a Crimes Cibernéticos, relatando ter se sentido ameaçado. O episódio foi noticiado como possível intimidação contra profissional da imprensa e ocorreu durante uma disputa pública do vereador com veículos e agentes políticos adversários.

Meses depois, em julho, Salazar publicou vídeos produzidos com recursos de inteligência artificial nos quais aparecia armado diante de representações do governador Roberto Cidade, do ex-governador Wilson Lima e do ex-prefeito David Almeida. O Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas determinou a retirada das gravações e proibiu a republicação do material, sob pena de multa diária de R$ 5 mil, limitada inicialmente a R$ 100 mil. A decisão apontou indícios de manipulação digital e violência simulada e considerou o potencial de disseminação do conteúdo nas redes sociais. Em setembro, o TRE-AM manteve a punição por unanimidade.

Em agosto, outro vídeo publicado pelo vereador gerou críticas por envolver uma encenação com elementos associados às religiões de matriz africana. Na gravação, integrantes da equipe simularam uma incorporação para assustar o então candidato Kidson Maia, enquanto Salazar dizia que o assessor tinha “pavor de macumba”. Especialistas ouvidos pela imprensa classificaram o conteúdo como reforço de estigmas contra religiões afro-brasileiras e chegaram a descrevê-lo como exemplo de “racismo recreativo”.

Metodologia da matéria

A reportagem foi elaborada a partir do cruzamento dos dados de votação e das declarações de bens da Justiça Eleitoral com os registros do Sistema de Apoio ao Processo Legislativo da Câmara Municipal de Manaus e documentos referentes à ação penal, decisões do TJAM e legislação municipal. A análise considerou as proposições legislativas de Salazar registradas entre janeiro de 2025 e setembro de 2026, distinguindo matérias de autoria individual, coautoria e Decretos Legislativos, além da evolução patrimonial declarada entre 2020 e 2026.


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