Amazonas

Cheia histórica não precisa significar transtornos

O nível do Rio Negro atingiu nesse sábado (05/06/21) a maior marca já registrada em Manaus desde 1902, quando teve início o monitoramento do volume de água. Mais do que um fenômeno que altera a aparência da cidade, a cheia afeta diretamente a vida de milhares de moradores da cidade. E o poder público precisa fazer mais do que simplesmente construir pontes para lidar com ele.

Ruan Souza / Semcom

O nível do rio subiu mais 1 centímetro entre a última sexta-feira e sábado, atingindo 30 metros. Apesar da marca histórica, a tendência agora é de descida das águas. “Tudo indica que estamos passando por um processo de finalização de enchentes”, afirmou a pesquisadora do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), Luana Gripp Simões Alves.

Transtornos

No entanto, mesmo depois que o nível do Rio Negro começar a baixar, os efeitos da cheia ainda serão sentidos por algum tempo. “Os impactos não vão cessar de um dia para o outro. Ainda demorará várias semanas, pois, no primeiro momento, a velocidade [da vazão] será lenta.”

Márcio Melo / Semcom

E após a situação se normalizar, ainda existem problemas para os quais o poder público precisa ficar atento. “As cheias estão transformando o centro em ponto turístico, mas ninguém está se preocupando com vários fatores pós vazante. O principal deles são doenças e veiculação hídrica”, alerta a engenheira ambiental Janeth Fernandes, membro da Associação dos Engenheiros Ambientais do Amazonas (Aenabam) .

Os efeitos de uma cheia severa se fazem sentir sobretudo na capital, Manaus. De acordo com a prefeitura, mais de 4 mil famílias de 15 bairros foram diretamente afetadas pela subida do nível do rio, e mais de 10 mil metros de passarelas e pontes tiveram que ser improvisadas. Apesar do atendimento, ainda são dezenas de milhares de pessoas que tem sua rotina afetada.

Problemas podem ser evitados

As cheias são um fenômeno que acontece anualmente, podendo variar de intensidade devido a uma série de fatores. Mas a forma como ela afeta as nossas vidas varia de acordo com a estrutura da cidade. “A elevação do Rio Negro ocorre devido a chuvas constantes nas nascentes dos rios, fazendo com que haja represamento de seus afluentes. Quanto aos alagamentos causados pelas chuvas, a causa principal é a impermeabilização do solo, com a construção de calçadas, asfaltamento das vias, retirada da mata ciliar que serve como filtro do lençol freático”, explica o engenheiro ambiental Rubens Bentes, diretor da Aenabam.

Sidney Mendonça/Seminf

Todo ano, o CPRM emite alertas de como deverá ser a cheia na temporada. Isso significa que é possível saber se o volume de água será maior que os anos anteriores. Ou seja, todos os transtornos gerados pelo fenômeno podem ser evitados, desde que contem com o devido planejamento do poder público. No caso específico de Manaus, há uma necessidade urgente de investir em novos modelos de saneamento básico.

“Nossas galerias são do tempo dos ingleses. Uma maneira bem ecológica de fazer isso é diminuindo os alagamentos com o desassoreamento dos leitos, fazer o replantio das vegetações ao redor dos cursos d’água principalmente os nossos igarapés que estão quase todos assoreados. É preciso viver em harmonia com a natureza, não poluir, dar um destino correto ao lixo e diminuir o desmatamento pois é a vegetação que protege os cursos d´água, outro ponto seria o planejamento urbano, principalmente em areas próximas de rios é igarapé” orienta Janeth Fernandes.

Poluição nos igarapés

Um dos fatores que contribui para piorar o problema é justamente a poluição dos igarapés de Manaus. Diariamente, mais de 27 toneladas de lixos são retirados das águas, grande parte deste material – como garrafas pets,descartáveis e resíduos domésticos – poderiam ser reciclados. Somente neste ano, até o momento, mais de 1 mil toneladas de lixos já foram retirados,e com a chegada das cheias dos rios esse lixo aumenta e fica preso nas cabeceiras de pontes e encostas. No entanto, antes de criticar, o melhor a fazer é educar a população.

Valdo Leão/Semcom

“Isso é um trabalho que precisa ser feito em longo prazo, voltado para o sistema educacional, não somente por campanhas contra o despejo de resíduos sólidos. É preciso investir em educação ambiental não apenas na época de cheia ou vazante, mas ao longo de todo ano”, afirma o professor Valdir Soares, especialista em climatologia do curso de Geografia, da Escola Normal Superior da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

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