Contexto

Voto impresso – Parte 02: o que pode ser melhorado

Especialista afirma que dúvidas sobre o processo eleitoral são legítimas e devem ser respondidas com transparência. Até porque nenhum sistema é 100% infalível, mas todos podem ser melhorados

Dando continuidade ao material sobre a polêmica do voto impresso que começamos neste sábado (29/05), é hora de falar sobre o atual sistema eleitoral do Brasil. Apesar das suspeitas por trás das motivações do presidente Bolsonaro e seus seguidores, há pessoas que realmente possuem dúvidas sobre a segurança do processo eleitoral. O que é legítimo e merece uma resposta. Aliás, não deixe de conferir a primeira parte do material.

A primeira coisa a ser dita é: a urna onde você digita o seu voto é parte de um sistema maior. “As urnas são uma parte importante do sistema eleitoral, mas o sistema não é limitado a elas. Então quando discutimos coisas como o “comprovante de votação verificado pelo eleitor” que foi simplificado como “voto impresso” estamos indicando mudanças que impactariam no sistema como um todo, pois adicionaria uma segunda urna – essa física”, explica Lucas Lago, mestre em Engenharia da Computação pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e pesquisador no Centro de Estudos Sociedade e Tecnologia (CEST).

Outra coisa importante a ser levada em conta é que não há sistema 100% seguro e que mesmo as urnas atuais possuem pontos vulneráveis que podem ser explorados. “Nunca teremos um sistema que seja 100% a prova de ataques, mas eu me coloco num grupo que acredita na vulnerabilidade da urna – embora ache que a possibilidade dessas vulnerabilidades terem sido usadas para grandes ataques as eleições brasileira seja pequena”, afirma.

O que gera a desconfiança

Embora seja alimentada por teorias da conspiração, há uma razão lógica para essa dúvida. Lucas Lago afirma que a confiança da eleição brasileira, muito por conta da narrativa do próprio TSE depende da confiança na urna eletrônica. E justamente por existir uma limitação na compreensão do funcionamento de sistemas de computação em grande parte da população brasileira. E daí também podem partir ataques.

“Uma minoria de especialistas realmente compreende tudo que envolve um sistema complexo como o sistema eleitoral. Atacantes podem usar esse desconhecimento para minar a confiança nas instituições através de ataques que seriam incapazes de afetar de forma séria a instituição. E isso é a estratégia que imagino foi usada no ataque no primeiro turno das eleições de 2020”.

Durante o primeiro turno das eleições municipais do ano passado, o sistema de contabilização do TSE apresentou instabilidades e mesmo não sendo classificado como ataque “hacker”, foi aproveitado pela parte social do ataque. Os grupos que mais incentivaram postagens nas redes sociais questionando a credibilidade do pleito, não por acaso, foram de bolsonaristas.

O que pode melhorar?

De acordo com Lucas, a melhor forma do TSE aprimorar o sistema e ao mesmo tempo passar mais credibilidade ao cidadão é investir em transparência. “É importante que o Tribunal traga para próximo de si os especialistas que o criticam. A crítica técnica, pautada pela ciência tem objetivo de tornar o sistema eleitoral mais robusto”.

Segundo o pesquisador, existem vulnerabilidades específicas que foram apresentadas nos Testes Públicos de Segurança de 2020 e que devem ser analisadas com atenção. “Por se tratar de um sistema computacional complexo, não podemos afirmar que as vulnerabilidades que foram descobertas são todas as que existem”.

Mas as sugestões não param por aí. “O código-fonte da urna eletrônica não está disponível. Então interessados em analisar a segurança da urna não conseguem ter acesso ao código exceto no período limitado dos Testes Públicos”. Outro ponto importante é o diálogo com os críticos.

“A comunicação do TSE é bastante falha. Eles colocam no mesmo grupo quem aponta a vulnerabilidade da urna e quem inventa mentiras de fraudes eleitorais e isso acaba alienando os interessados em melhorar o sistema”, sugere. “Todos tem o interesse em melhorar a democracia brasileira”.

Foto: TSE

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