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Brasil pode sofrer colapso de medicamentos para intubação

Se um estado com população de pouco mais de quatro milhões de habitantes consumiu mais da metade da produção nacional de medicamentos de intubação em dois meses, o que acontecerá se outras regiões com população dezenas de vezes maior experimentarem situação igual?

No último dia 22 de fevereiro, o Jornal Nacional divulgou um vídeo onde pacientes com a Covid-19 estariam sendo amarrados às suas camas no Hospital Municipal Jofre Cohen, em Parintins, no interior do Amazonas. O motivo é estarrecedor: os medicamentos de sedação teriam acabado e essa foi única a alternativa encontrada para manter a ventilação mecânica invasiva (intubação) deles. O pior é que a cena, que chocou o país, poderá se tornar frequente em estados que estão entrando em colapso com a explosão de casos da doença.

O caos na saúde pública do Amazonas em janeiro ficou marcado pelo colapso no fornecimento de oxigênio para pacientes com a Covid-19, o que causou a morte de pelo menos 30 pessoas por asfixia. No entanto, por pouco não tivemos mais mortes pela falta de outro insumo básico: o besilato de atracúrio. Suspeita-se que a falta desse medicamento pode ter causado a cena de Parintins, que ainda está sob investigação do Ministério Público estadual.

O atracúrio é uma anestésico que facilita a intubação endotraqueal e ajuda no relaxamento da musculatura para a ventilação controlada durante uma cirurgia. Nos casos mais graves da Covid-19, o procedimento ajuda os pacientes a respirar, já que seus pulmões ficam comprometidos pela ação do novo coronavírus. E com a pandemia, o uso desse medicamento cresceu assustadoramente.

Segundo levantamento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) disponível no site da Câmara dos Deputados, o consumo médio de atracúrio no país, em meses anteriores à pandemia, era de 263.844 ampolas por mês, o que daria aproximadamente 9.772 ampolas por cada estado da federação. Como a produção desse medicamento atendia uma demanda específica (cirurgias), as internações em UTI representaram um salto na demanda. O que atingiu em cheio o Amazonas.

De acordo com a Secretaria de Saúde do Amazonas (SES-AM), antes do início da pandemia, o estado utilizava entre 600 a 800 ampolas mensais. Com a disparada de casos graves de Covid-19, o consumo, entre dezembro de 2020 e janeiro de 2021, saltou para 28 mil ampolas mensais, um crescimento de 4.567%. Isso representa nada menos que 54% da produção nacional. Entre janeiro e fevereiro, a demanda simplesmente dobrou, chegando a 67.410 ampolas.

A Central de Medicamentos do Amazonas (Cema) realizou nada menos que três processos de licitação para a compra de atracúrio, enfrentando dificuldades de encontrar o medicamento em todas elas. A central alegou insuficiência no mercado. É justamente aí que é ligado o sinal de alerta para o país.

O grande problema está na proporcionalidade. Se um estado com população de pouco mais de quatro milhões de habitantes como o Amazonas (segundo dados do IBGE) consumiu mais da metade da produção nacional de medicamentos de intubação em apenas dois mess, o que acontecerá em outras regiões com população dezenas de vezes maior que enfrentam o mesmo aumento exponencial de Covid-19 neste exato momento?

“Com a explosão do número de casos e a superlotação das UTIs em todo o país, a demanda e a oferta de fármacos utilizados no tratamento de pacientes sofrem forte impacto no mercado, e esse desequilíbrio pode ser devastador. É urgente evitar o risco da falta de medicamentos, principalmente, aqueles usados na intubação e manutenção da ventilação mecânica, que causariam prejuízos graves aos pacientes internados”, alerta Adriano Andricopulo, professor da Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorado em Química Medicinal pela University of Michigan e que atua com planejamento de fármacos.

O pesquisador afirma que os secretários estaduais de saúde precisam, urgentemente, ficar atentos aos seus estoques. “É importante alertar e orientar os gestores de saúde e os hospitais para monitorarem com cuidado os seus estoques, sempre de olho no mercado, para afastar a possibilidade de falta de medicamentos. Do contrário, a escalada de casos levará a um colapso dos sistemas de saúde, a falta de medicamentos e a sérios riscos para os pacientes”, afirma Adriano.

Se a situação fosse isolada, já seria um grave problema de saúde pública. No entanto, como se trata de uma pandemia, mesmo verba para a compra não garante abastecimento, uma vez que todos os países do planeta necessesitam dos mesmos insumos. “Os recursos são limitados. Tudo está mais ou menos organizado para um consumo médio. Se o consumo aumentar ao mesmo tempo, vai faltar. Isso é uma realidade. Por isso é necessário ter planos de contingência para enfrentar”, explica o médico Marcelo Moock, membro da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB).

Dezoito estados e o Distrito Federal têm ocupação de leitos de UTI para covid-19 acima de 80%. Desses, 10 estão com lotação acima de 90%. Os dados foram divulgados nesta terça-feira (2) pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). No Boletim do Observatório Fiocruz Covid-19, a entidade chama a atenção para a gravidade do momento no país, com um forte crescimento no número de casos de contaminações e óbitos causados pela doença e classifica a situação como a ponta de um iceberg.

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