Covid-19

O SARS-COV-2 parece ser capaz de recombinar. Por que isso é importante?

Além das mutações, o vírus causador da Covid-19 também parece ser capaz de combinar características de duas linhagens diferentes. Embora seja um evento pouco comum, esse fenômeno representa um risco a mais de surgirem novas e perigosas variantes

Um novo estudo preliminar (ainda sem revisão por pares) publicado neste domingo (21/11/21) na plataforma Medrxiv, mostra que o SARS-COV-2, vírus causador da pandemia da Covid-19 é capaz de realizar a chamda recombinação genética. Caso isso se confirme, a descoberta representa mais uma possibilidade para o surgimento de novas e perigosas variantes, tornando ainda mais necessário o controle da circulação do vírus.

Um grupo de pesquisadores das Universidades de Oxford (Inglaterra), Edimburgo (Escócia), Cambridge (Inglaterra) e do Centro de Investigações e Estudos Avançados (Cinvestav), do México Irapuato encontraram uma nova linhagem do coronavírus causador da Covid-19 (identificada como B.1.628) que parece ser uma mistura de de duas outras linhagens (B.1.631 e B.1.634) que circularam nos EUA e no México ao longo deste. Analisando as mutações e reconstruindo a história evolutiva dessa nova linhagem, os cientistas afirmam que ela é fruto de recombinação genética.

O que é recombinação genética?

A chamada recombinação genética acontece quando há troca troca de segmentos de DNA ou RNA entre genomas de vírus distintos. Esse tipo de fenômeno já é esperado e acontece com outros coronavírus causadores de resfriados e de outros tipos, como o Influenza, causador da gripe e o rotavírus, que causa diarréia em crianças.

“Isso é comum em virologia e já era esperado no SARS-COV-2. Além das mutações pontuais que acontecem com esses e outros vírus, onde ele vai mutando, através da transmissão entre pessoas, algumas vezes, duas linhagens diferentes, ao infectarem a mesma pessoa, elas trocam segmentos do mesmo genona, o que chamamos de recombinação e geram uma terceira linhagem”, explica o virologista Eduardo Flores, da Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul (UFSM).

Aparentemente foi o que aconteceu. Neste caso, a linhagem B.1.631 acabou pegando um pedaço da B.1.634 e gerado a B.1.628. Segundo os autores do estudo, essa nova variante não é mais transmissível do que variantes de preocupação como a Gama ou a Delta, por exemplo, mas isso não deixa essa descoberta menos preocupante.

Mais um risco

O fato do coronavírus causador da Covid-19 também mais essa maneira de mudar e evoluir abre uma nova possibilidade: uma combinação capaz de gerar uma nova linhagem ainda mais transmissível e/ou capazes de escapar da proteção das vacinas. Vale lembrar que esse tipo de fenômeno não é muito frequente. Desde que, é claro, a transmissão do vírus seja baixa.

“Quanto mais vírus estiver circulando e mais linhagens estiverem coexistindo na mesma população, mais chances de recombinações acontecerem. É uma preocupação sim, de repente, termos uma linhagem que combine a Delta com a Alfa, por exemplo. Isso é potencialmente perigoso”, alertou Eduardo Flores.

“A recombinação em si é preocupante porque em outros coronavírus, como os que infectam animais de criação, como porcos e aves, linhagens recombinantes foram justamente aquelas que escaparam de vacinas”, alerta o biólogo e também virologista Átila Iamarino, em sua conta no Twitter.

Vale lembrar que cidades como Manaus, por exemplo, atualmente possuem três variantes de preocupação circulando entre sua população (Alfa, Gama e Delta) e uma de interesse (Mu), segundo dados da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP).

Apesar do risco com a nova descoberta, Eduardo Flores não vê motivo para pânico, mas lembra que tal descoberta serve para que todos mantenham os cuidados. “Felizmente nao é tão comum dois virus de linhagens diferentes infectarem uma pessoa ao mesmo tempo. O risco é bem pequeno, mas existe. Não é alarmismo. É para seguirmos na cautela”, afirma.

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