Engrenagens

Vereador acusado de homicídio declara salto patrimonial de R$ 1,9 milhão em cinco meses

Sargento Salazar declarou aumento patrimonial de R$ 1,9 milhão entre agosto de 2024 e janeiro de 2025. Documentos do TSE e da Câmara de Manaus mostram mudança de R$ 290 mil para R$ 2,2 milhões, incluindo casa de R$ 1,7 milhão, veículos e participação empresarial

Manaus, 08 de agosto de 2026 – Entre agosto de 2024, quando registrou sua candidatura a vereador de Manaus junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e janeiro de 2025, quando assumiu o mandato na Câmara Municipal de Manaus (CMM), Alexandre da Silva Salazar, conhecido como Sargento Salazar (PL), declarou um acréscimo patrimonial de R$ 1.916.000,00. Nesse intervalo de aproximadamente cinco meses, os bens informados pelo parlamentar passaram de R$ 290 mil para R$ 2.206.000,00, diferença equivalente a cerca de 84 vezes o subsídio bruto mensal pago aos vereadores da capital amazonense.

Salazar assumiu mandato em janeiro de 2025 com nova declaração de bens publicada no Legislativo Municipal (Reprodução / CMM)

Salazar também é réu em uma ação penal relacionada à morte de Felipe Kevin de Oliveira Costa, ocorrida em 24 de junho de 2019, processo no qual o Ministério Público sustenta que houve excesso na ação policial e recorre de decisão que absolveu o vereador sumariamente em primeira instância.

Durante o registro da candidatura, em agosto de 2024, Salazar informou à Justiça Eleitoral possuir apenas um apartamento financiado no bairro Flores, em Manaus, avaliado em R$ 290 mil. Cerca de cinco meses depois, ao apresentar a declaração de bens para assumir o mandato, em janeiro de 2025, a relação patrimonial entregue à Câmara Municipal passou a incluir uma casa financiada de R$ 1,7 milhão, veículos e participação societária em empresa. Em sua primeira eleição, em 2020, Salazar declarou não possuir bens.

Declaração entregue ao TSE antes da eleição de 2024 registrava apenas um apartamento financiado de R$ 290 mil (Reprodução / Divulgacand-TSE)

O cruzamento entre as declarações oficiais mostra que a maior parte da evolução patrimonial registrada pelo vereador ocorreu justamente nesse intervalo entre a campanha eleitoral e o início do mandato. Os documentos analisados pela reportagem não apontam, por si só, a origem dos recursos utilizados para a formação dos bens declarados, mas registram uma mudança significativa na composição patrimonial apresentada pelo próprio parlamentar em documentos oficiais.

A comparação foi realizada a partir das declarações de bens entregues ao TSE durante processos eleitorais e da documentação publicada no Diário Oficial do Legislativo Municipal no momento da posse. Todos os valores mencionados correspondem aos montantes declarados oficialmente pelo vereador nos respectivos documentos.

Em 1º de janeiro de 2025, Alexandre Salazar assumiu o mandato como vereador da 19ª Legislatura da Câmara Municipal de Manaus. A declaração patrimonial apresentada naquele momento registrou um total de R$ 2.206.000,00 em bens, valor que representou um aumento de R$ 1.916.000,00 em relação ao patrimônio informado durante a candidatura.

No dia 17 de fevereiro de 2025, o Diário Oficial do Legislativo Municipal republicou integralmente a declaração de bens apresentada pelo parlamentar na posse. Segundo o próprio ato administrativo, a republicação ocorreu porque a versão anterior havia sido divulgada com “omissão de bens”, fazendo com que a relação patrimonial fosse reapresentada de forma completa.

Trajetória patrimonial de Salazar reúne registros eleitorais de 2020, 2022, 2024 e 2026 (Reprodução / Divulgacand-TSE)
Patrimônio equivale a sete anos de remuneração integral

Considerando esse parâmetro, o acréscimo patrimonial declarado de R$ 1.916.000,00 equivale a aproximadamente 84 meses de subsídio bruto de vereador, ou cerca de sete anos de remuneração integral, sem considerar descontos tributários, despesas pessoais ou outros custos.

A comparação também mostra a dimensão do crescimento quando relacionada à remuneração do cargo público. Pela Lei Municipal nº 587/2024, o subsídio bruto mensal dos vereadores de Manaus foi fixado em R$ 26.080,98, valor pago a partir de fevereiro de 2025.

A trajetória patrimonial declarada por Salazar apresenta três momentos principais. Em 2020, quando disputou uma vaga de suplente de vereador pelo partido Patriota, o então policial militar informou à Justiça Eleitoral que não possuía bens, registrando patrimônio de R$ 0,00.

Nas eleições de 2022, quando concorreu ao cargo de deputado estadual, o patrimônio declarado passou para R$ 290 mil. O mesmo valor foi apresentado novamente em 2024, quando disputou uma vaga na Câmara Municipal de Manaus, tendo como único bem informado um apartamento financiado no bairro Flores.

A mudança aparece na declaração apresentada após a eleição. Entre os bens incluídos no novo documento está uma casa financiada localizada no condomínio Reserva dos Parques, avaliada em R$ 1,7 milhão, além da manutenção do apartamento anteriormente declarado, avaliado em R$ 290 mil.

A lista patrimonial também passou a incluir três veículos, avaliados em conjunto em R$ 191 mil. O documento registra um Volkswagen Nivus, declarado por R$ 119 mil, um Volkswagen Gol, avaliado em R$ 42 mil, e um Chevrolet Celta, informado no valor de R$ 30 mil.

Outro item incorporado à declaração foi a participação societária na empresa Escudeiro Serviços Terceirizados Ltda.. Salazar informou possuir 25% das quotas da empresa, avaliadas em R$ 25 mil, dentro de um capital social total declarado de R$ 100 mil.

Subsídio bruto de vereador em Manaus é comparado ao aumento patrimonial declarado pelo parlamentar (Reprodução / CMM)
Empresa entrou no patrimônio após eleição

A documentação societária da Escudeiro Serviços Terceirizados Ltda., analisada pela reportagem, registra que Salazar ingressou formalmente como sócio no dia 19 de novembro de 2024. A data ocorreu cerca de um mês após ele ter sido declarado eleito para o cargo de vereador nas eleições municipais de outubro daquele ano.

A empresa possui sede no bairro Flores, em Manaus, mesma região onde o parlamentar declarou possuir o apartamento incluído em suas declarações anteriores. A participação societária passou a integrar oficialmente a relação de bens apresentada após a eleição.

Embora a participação na empresa tenha sido declarada pelo valor de R$ 25 mil, ela integra o conjunto de novos itens patrimoniais registrados no período em que ocorreu o salto de bens declarados de R$ 290 mil para mais de R$ 2,2 milhões.

Empresa foi registrada no patrimônio de Salazar após ingresso como sócio em novembro de 2024 (Reprodução)
Canal no YouTube aparece como hipótese analisada

Durante a apuração, também foi identificado o alcance digital do canal “Sargento Salazar Oficial”, mantido na plataforma YouTube. Criado em maio de 2021, o canal possui 1,11 milhão de inscritos e mais de 400 milhões de visualizações, conforme dados públicos disponíveis.

O desempenho da plataforma foi considerado na reportagem como uma hipótese de análise sobre possíveis fontes privadas de receita, mas não há, nos documentos da Justiça Eleitoral utilizados nesta apuração, registros que comprovem valores recebidos pelo parlamentar por monetização do canal.

Também não foram identificados documentos oficiais que indiquem se o canal é monetizado, qual seria eventual receita obtida ou se valores provenientes da plataforma tiveram participação na formação do patrimônio declarado entre agosto de 2024 e janeiro de 2025.

Canal Sargento Salazar Oficial ultrapassa 400 milhões de visualizações no YouTube (Reprodução / YouTube)

Salazar também responde a processo por morte em ação policial

Alexandre Salazar responde a uma ação penal relacionada à morte de Felipe Kevin de Oliveira Costa, ocorrida em 24 de junho de 2019, no bairro Colônia Terra Nova, em Manaus. Segundo o Ministério Público, o então policial militar teria perseguido suspeitos após um suposto roubo e efetuado disparos contra a vítima após uma colisão entre veículos. Salazar admite os disparos, mas afirma que reagiu porque Felipe Kevin teria apontado uma arma contra ele.

O processo tem como principal divergência a quantidade de tiros registrados. Enquanto a decisão de primeira instância citou seis disparos, o Ministério Público afirma, com base em laudos periciais, que foram nove tiros, incluindo dois na região da cabeça. A acusação sustenta que os elementos indicam possível excesso na ação e defende que o caso seja analisado pelo Tribunal do Júri.

Em setembro de 2025, o juiz Fábio Lopes Alfaia absolveu Salazar sumariamente, acolhendo a tese de estrito cumprimento do dever legal. O Ministério Público recorreu e, em abril de 2026, o Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) determinou o prosseguimento do recurso após derrubar uma decisão que havia impedido sua tramitação. Documentos analisados também apontam que Salazar respondeu a outros sete processos por mortes decorrentes de intervenção policial, nos quais foi absolvido sob alegação de excludente de ilicitude.

Tribunal manteve válida a apelação apresentada pelo Ministério Público (Reprodução / TJAM)
Metodologia da reportagem

A investigação foi baseada no cruzamento de documentos oficiais: declarações de bens apresentadas ao Tribunal Superior Eleitoral, publicação do Diário Oficial do Legislativo Municipal, Lei Municipal nº 587/2024, documentos societários da Escudeiro Serviços Terceirizados Ltda. e dados públicos de audiência do canal Sargento Salazar Oficial no YouTube.

Os documentos demonstram uma alteração patrimonial declarada de R$ 1.916.000,00 em aproximadamente cinco meses, período compreendido entre o registro da candidatura de Salazar em agosto de 2024 e sua posse como vereador em janeiro de 2025.


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