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Manaus e o Colapso do Oxigênio: cinco anos da paz dos cemitérios

O que ocorreu em janeiro de 2021 não foi acidente, nem surpresa, nem fatalidade. Foi o desfecho lógico de um projeto histórico de PRECARIEDADE. Essa palavra sintetiza, com precisão brutal, tudo o que levou Manaus ao colapso: da saúde pública à política, da educação à imprensa, da gestão à consciência coletiva

Manaus, 14 de janeiro de 2026 Nesta quarta-feira, completam-se cinco anos do colapso do oxigênio que matou mais de 30 pessoas sufocadas em hospitais da capital amazonense durante a segunda onda da Covid-19. Eu gostaria de saber o número exato. As famílias mereciam isso. Mas não sabemos. O que deveria ser um dia de memória coletiva virou apenas mais uma data enterrada sob o silêncio cínico e cúmplice de diversas instituições.

Nos últimos meses, dei duas entrevistas para pesquisadores das universidades de São Paulo (USP) e Princeton (EUA) a respeito do tema. Achei curioso ter sido procurado em curto espaço de tempo e perguntei o motivo. Para minha tristeza, ambos me apontaram como uma das únicas fontes jornalísticas locais que ainda tratam dessa tragédia.

Basta um exercício simples para medir o tamanho do apagamento: procure no site da Assembleia Legislativa as CPIs do oxigênio; no Ministério Público do Amazonas, as ações civis públicas que tratem das vítimas; ou reportagens que não se limitem ao factual e não omitam o nome do governador Wilson Lima.

Esse vazio que se encontra não é acaso — é o retrato acabado da paz dos cemitérios que se construiu em torno dessa tragédia. Isso não é mérito. Apenas o resultado da palavra que conecta todos os elementos dessa cruel cadeia de eventos histórico: precariedade.

O que ocorreu em janeiro de 2021 não foi acidente, nem surpresa, nem fatalidade. Foi o desfecho lógico de um projeto histórico de PRECARIEDADE. Essa palavra sintetiza, com precisão brutal, tudo o que levou Manaus ao colapso: da saúde pública à política, da educação à imprensa, da gestão à consciência coletiva.

A PRECARIEDADE DA SAÚDE foi o rosto mais visível da tragédia. Ela estava nos hospitais superlotados, nos estoques insuficientes de oxigênio, na dependência de um único fornecedor, na incapacidade logística de reagir a um colapso que já estava anunciado desde o fim de 2020.

Saúde precária foi o elo mais visível da corrente. Foto: Raphael Alves / Amazônia Real

Pessoas morreram não por um vírus pouco conhecido, mas pela ausência de um insumo básico em uma capital com mais de dois milhões de habitantes. E essa precariedade continua lá, matando pessoas nas filas dos hospitais públicos e privados da cidade.

Essa precariedade não surgiu da noite para o dia. Ela é resultado de décadas de abandono estrutural, de improviso como política pública e de governos que trataram a saúde como despesa ou balcão de negócios, não como obrigação. Quando a segunda onda chegou com violência, o sistema simplesmente fez o que sempre fez: quebrou.

A PRECARIEDADE DA GESTÃOtransformou o colapso em massacre. Houve alertas formais, relatórios técnicos, avisos de aumento exponencial da demanda por oxigênio. Nada foi feito com a urgência exigida. A omissão não foi fruto de ignorância, mas de um Estado treinado para reagir tarde demais.

Quando a tragédia explodiu, veio a outra face da precariedade: a mentira. Mentiu-se em depoimentos oficiais, mentiu-se sobre responsabilidades, mentiu-se para diluir culpas. A confusão virou método. O atraso virou estratégia. O tempo, mais uma vez, foi usado como aliado dos culpados.

A PRECARIEDADE DA JUSTIÇA completou o ciclo. As instituições que deveriam agir com rapidez escolheram a lentidão. Processos se arrastaram, decisões foram empurradas e o fechamento tardio de atividades essenciais expôs o grau de desconexão entre poder e realidade. Aqui, a morte precisou alcançar um dos seus para ser levada a sério.

A PRECARIEDADE DA CONSCIÊNCIA POLÍTICA explica esse resultado. Ela nasce da educação fragilizada, da normalização da violência institucional e da ideia de que tragédias fazem parte do destino amazônico. É essa precariedade que ajuda a entender por que os responsáveis diretos e indiretos pela crise foram mantidos ou reconduzidos ao poder.

A imprensa local está inserida nesse mesmo ambiente de precariedade. Menos como agente de corrupção, mais como vítima estrutural de um mercado asfixiado, dependente de verbas públicas e pressionado por um sistema político que pune quem insiste em lembrar. O silêncio, aqui, não é escolha editorial livre — é consequência material de sobreviver em um ecossistema hostil à memória.

Não se trata de apontar dedos individuais. Trata-se de reconhecer que Manaus construiu, ao longo de décadas, um modelo de precarização total, no qual tudo é frágil: o hospital, a gestão, a imprensa, a justiça e a própria capacidade coletiva de indignação.

O resultado foi um pacto tácito de esquecimento. Governo do Estado, Prefeitura, Assembleia Legislativa, Ministério Público e Judiciário caminharam na mesma direção: deixar o tempo apagar o crime. Aqui, o silêncio não é ausência de som — é política pública não declarada.

Cinco anos depois, não há memorial, não há política de memória, não há luto coletivo. Há apenas o incômodo sempre que alguém ousa lembrar. O esquecimento tornou-se a segunda maior tragédia do colapso do oxigênio, porque garante que nada semelhante encontre resistência real no futuro.

Mea culpa! Há, sim, uma ocasião em que a crise do oxigênio é lembrada. Na única coisa em que a nossa classe política é boa: fazer negociatas. O colapso do oxigênio passou a ser instrumentalizado para alimentar mentiras sobre a nefasta BR-319, como se a tragédia pudesse ser reduzida a um problema de estrada. Trata-se da mesma canalhice que gerou a tragédia: usar mortos para justificar interesses, repetindo o mesmo padrão de velhacaria que nos trouxe até aqui. É obsceno, mas longe de ser surpreendente.

E, no meio disso, havia um vocativo. Não por vaidade, não por heroísmo, não por sensação de missão cumprida, mas porque o esquecimento também mata. Lembrar, em Manaus, passou a ser um gesto incômodo, quase uma afronta a um sistema que depende do silêncio para seguir funcionando.

O Vocativo existe dentro dessa contradição. Não como exceção virtuosa, mas como esforço permanente de resistência em um ambiente hostil à memória. Carregar essa tarefa não é honra — é peso. É o fardo de saber que, se não se escreve, não se registra, não se insiste, a tragédia desaparece como se nunca tivesse existido.

Não é orgulho. É responsabilidade imposta pelas circunstâncias, pelo vazio deixado pelas instituições e pela precariedade que atravessa tudo. O Vocativo não fala porque quer, mas porque alguém precisa falar.

Cinco anos depois, lembrar o colapso do oxigênio segue sendo um ato solitário. Mas é também um ato necessário. Enquanto houver quem escreva, quem leia e quem se recuse a aceitar o silêncio como destino, a barbárie não estará completamente vencida — mas tampouco terá triunfado.

A pandemia passou. A precariedade ficou. E a memória, pesada e incômoda, segue sendo o único antídoto possível contra a repetição do crime.


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