Amazonas

Cenas de destruição causadas pela chuva desta segunda podem se repetir em Manaus

Cheia de 2021 poderá ser a maior já registrada, mas problemas no planejamento urbano da capital também contribuem para as tristes cenas registradas nesta segunda-feira

Manaus sofreu com uma chuva forte na manhã desta segunda-feira (03/05) e vários pontos diferentes da cidade foram alagados. O caso mais sério foi a destruição do Posto de Interiorização e Triagem da operação ‘Acolhida’, localizado na Torquato Tapajós, zona Oeste, após o desabamento de um muro de um terreno particular desabar que inundou o local, deixando centenas de refugiados venezuelanos e haitianos desabrigados. Fenômenos como esse estão sendo frequentes em 2021 em todo Amazonas e não devem ser os últimos. Isso porque a cheia deste ano poderá ser a maior já registrada.

Conforme o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Manaus registrou mais de 26 milímetros de chuvas nesta segunda-feira. A Central 199 de atendimento da Defesa Civil municipal registrou cinco ocorrências, entre elas: desabamento, risco de deslizamento, alagamentos e crateras.

Segundo o Serviço Geológico do Brasil, Manaus e Manacapuru podem estar prestes a presenciar a maior cheia dos rios Negro e Solimões já registrada. A previsão inicial do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC) era que a cheia do rio Negro chegasse a 29,51 metros este ano, mas é provável que passe disso. Pra se ter uma ideia, a maior já registrada foi em 2012, com 29,97 metros. A deste ano já está em 29,23, ou seja, faltam apenas 0,74 centímetros para ser batida. E a previsão é que as chuvas continuem até junho.

Explicação

Mas afinal, por que isso acontece? De acordo com o professor Valdir Soares, especialista em climatologia do curso de Geografia, da Escola Normal Superior da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), o bioma amazônico está localizado em uma região geográfica estratégica, ocupando tanto acima quanto abaixo da linha do Equador.

“A região recebe a atuação de uma estação chuvosa duas vezes ao ano. No momento, estamos no fim da estação chuvosa na Amazônia no Emisfério Sul. Quando chegar o meio do ano, será o início da estação chuvosa no Emisfério Norte. O fluxo de água nos nossos rios é praticamente constante”, explica.

A ocorrência desde 2020 do fenômeno climático La Niña, quando há um resfriamento abaixo do normal nas águas do Oceano Pacífico, também contribui para uma cheia mais severa. Historicamente, em anos de La Niña, as cheias são mais intensas. Este ano, não temos essa anomalia climática e com a aproximação do inverno do hemisfério sul, a tendência é de diminuição gradativa da chuva ao longo dos próximos meses.

No entanto, ainda devemos ter problemas com as chuvas. Isso porque o regime de cheia de um rio ocorre ao longo de meses e a previsão, segundo a empresa de meteorologia Climatempo é que maio ainda terá muita chuva em áreas do extremo norte da Região, ou seja, a cheia dos rios ainda pode ser agravada nas próximas semanas. Com isso, existe a possibilidade real do Rio Amazonas ultrapassar a cheia histórica observada em 2012.

Ação do homem

No entanto, não são apenas fenômenos naturais que contribuem para as cenas de destruição vistas nesta segunda. “Em uma cidade com mais de 2 milhões de habitantes como Manaus, a sociedade contribui para a subida do nível de um igarapé no momento em que uma chuva está acontecendo por uma série de características do uso do solo, de impermeabilização, de cobertura vegetal, concretagem do solo que não permitem a percolação da água”, explica o professor Valdir Soares.

Na geologia, percolação é apassagem de água pelo solo e rochas permeáveis fluindo para reservatórios subterrâneos. Com isso, a água das chuvas, por não conseguir infiltrar no solo, acaba indo parar mais rapidamente nos canais fluviais. Estes, já cheios de resíduos sólidos, em geral lixo jogado por moradores e com pouca vazão das águas, tendem a transbordar, como vimos ontem.

Foto: Marcely Gomes / Semcom

Situação dos refugiados

Agentes da Defesa Civil avaliaram o Posto de Interiorização e Triagem da operação ‘Acolhida’ e os prédios próximos que foram alagados. “Devido ao grande acúmulo de chuva no terreno particular ao lado do posto, parte do muro desabou, comprometendo a estrutura do posto de triagem. Iremos elaborar um laudo técnico, juntamente com a perícia, para que possamos avaliar as condições do terreno e os poderes estadual e federal possam montar uma nova estrutura de atendimento no local”, enfatizou o secretário da Casa Militar, tenente William Dias.

Foto da capa: reprodução/Vintage Sushi Louge

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