Contexto

Intervenção militar é o QAnon bolsonarista

Apoiadores de Trump pediam uma "Tempestade" que nunca veio. Bolsonaristas pedem intervenção militar, que é inviável e nunca vem. Há método por trás disso

Neste sábado (01/05), militantes bolsonaristas foram às ruas do país para, mais uma vez, demonstrar apoio ao presidente da República, protestar contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e é claro, pedir intervenção militar. Não é a primeira vez que fazem isso e não será a última. Isso porque há um método nessa dinâmica. E ele serve a quem está no poder.

Desde o início do seu governo, Bolsonaro incentiva – e às vezes até participa – de atos que pedem intervenção militar no país. Apesar disso, mesmo ele sendo chefe do exército, não atende esse pedido e permanece refém da política tradicional. O Vocativo já falou sobre isso, inclusive aqui. Situação muito semelhante já aconteceu em outro país, que não por acaso na época era governado por outro presidente extremista: o movimento QAnon nos EUA e o ex-presidente Donald Trump.

Pra contextualizar, o QAnon ou simplesmente Q, é uma teoria da conspiração de extrema-direita, criada nos Estados Unidos, que alega existir uma seita secreta, formada por por empresários, artistas e membros o Partido Republicano que seriam adoradores de Satanás, além de pedófilos e canibais, que formaria uma espécie de poder global paralelo, chamado de “estado profundo”. Essa organização seria formaria uma rede global de tráfico sexual infantil e estaria conspirando contra o ex-presidente Donald Trump, que seria o opositor desse esquema.

Claro que qualquer pessoa em sã consciência acharia essa ideia no mínimo bizarra, mas soa familiar, não? Qualquer semelhança entre essa linha e a paranoia bolsonarista não é mera coincidência. No Brasil, conhecemos vários absurdos desse tipo: governadores estão aumentando o número de mortos pela Covid para ganhar dinheiro, estão enterrando caixões com pedras, ou estão se negando a dar hidroxicloroquina para não salvar o povo e assim prejudicar Bolsonaro. A lista de insanidades é enorme, mas a semelhança não pára por aí.

Nos EUA, os seguidores do QAnon esperam (e clamam) sempre pelo momento em que Trump finalmente revelerá ao mundo o esquema e prenderá seus organizadores. Esse dia tem até nome: The Storm, o que em português seria A Tempestade. Passados quatro anos de governo e a derrota nas conturbadas eleições presidenciais de 2020, como era de se esperar, nada aconteceu. E embora o movimento tenha perdido força por conta disso, ainda há seguidores fiéis do movimento.

De acordo com o documentário Q: into the Storm, o movimento ganhou força com o advento das redes sociais, que amplificaram a ideia na onda da eleição de Trump em 2016 principalmente porque algumas informações vazadas pelo personagem Q realmente se confirmaram.

A principal suspeita, porém, é que tal “informante” fosse na verdade alguém dentro do próprio governo sim, mas que estaria alimentando a conspiração justamente para justificar uma ruptura institucional. Se não tivemos um golpe de Estado, o episódio da invasão do Capitólio mostra que o poder de mobilização dessa dinâmica não pode ser ignorado.

O fato é que a mera expectativa da famigerada Tempestade sempre mobilizou apoiadores de Trump, mesmo que ela nunca tenha acontecido. Isso se parece muito com os pedidos de intervenção militar feito pelos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. São quase dois anos de governo, diversas manifestações, mas até agora, nada. Trump nunca fez a Tempestade acontecer e Bolsonaro parece estar muito ocupado tentando se blindar na CPI da Pandemia para dar um golpe.

Mas, se estamos fazendo um paralelo nessa análise, vale lembrar que mesmo hoje, após sua derrota nas urnas e sem cumprir os apelos dos seguidores do QAnon, ao invés de descrédito, Trump ainda tem seguidores da teoria resilientes. E da mesma forma, quase dois anos depois, sem golpe, com 400 mil mortos pela Covid-19 e a economia em frangalhos, as ruas estavam cheias no sábado.

Como já foi explicado neste texto, um golpe de Estado no Brasil seria literalmente inviável por uma série de razões econômicas e geopolíticas. Bolsonaro até poderia tentar, mas as chances de sucesso são mínimas. E provavelmente ele mesmo saiba disso. Mas, mesmo assim, a eterna expectativa de que ele poderá dar um golpe é capaz de colocar pessoas nas ruas no momento mais grave de uma pandemia. E isso também não pode ser ignorado.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: