Amazonas

Amazonas: mesmo com isolamento, número de casos de violência contra crianças ainda é alto

Casos de violência iguais ao do menino Henry Borel são frequentes no Estado mesmo com a pandemia. Especialista orienta como a comunidade pode ajudar

Um dos casos mais chocantes de violência doméstica contra crianças aconteceu este ano, com o cruel assassinato do menino Henry Borel, no dia 8 de março na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro. A polícia fluminense acredita que o menino foi morto por espancamento pelo padrasto, o médico e vereador Jairo Souza Santos Júnior, mais conhecido como Dr. Jairinho (sem partido) . Mas casos iguais a esse são uma realidade diária no país e também em Manaus.

Segundo a sociedade Brasileira de Pediatria, nos últimos 10 anos mais de 100 mil crianças morreram vítimas de agressão no Brasil. Desse total, 60% foram resultados de violência dentro do ambiente doméstico, por pessoas da própria família. De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), crimes como estupro, maus tratos e lesões corporais contra crianças em Manaus somaram 935 casos em em 2019.

Em 2020, com a chegada da pandemia do novo coronavírus e o isolamento físico, imaginava-se que esses números diminuiriam, afinal, a exposição das crianças aos perigos presentes em ambientes externos (caminhos para a escola, shoppings e casas de amigos) seria menor. E de fato foi, mas foi uma diminuição muito discreta, caindo para 815 ocorrências, ou seja, uma diferença de apenas 120 casos. Só em 2021, mesmo com novo confinamento, as denúncias já somam 200 casos. No interior do Estado, a diferença foi ainda menor, de seis ocorrências, passando de 619 em 2019 para 613 em 2020.

Isso mostra que o ambiente familiar é o local de maior ocorrência de agressões e crimes contra crianças, como no caso do menino Henry, que era constantemente agredido por Jairinho e contava com o silêncio e a cumplicidade da própria mãe. Nesse caso, a comunidade em que vive essa criança pode ajudar para que os desfechos não sejam tão trágicos.

“Existe um provérbio que diz que é preciso uma vila inteira para criar uma criança, e isso é real. Parentes, vizinhos, educadores e médicos na linha de frente de atendimentos emergenciais devem saber identificar se uma criança precisa de socorro. Só assim para evitar que elas tenham seus direitos de saúde e segurança negados e reduzir esse número assustador, que cresce ano após ano”, afirma Clóvis Francisco Constantino, pediatra e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Quem pode ajudar e como

Existem vários tipos de violência, as de ordem física, as de ordem psicológica, as de ordem da negligência no cuidado com uma criança. De acordo com o médico, quem tem muita propriedade de atenção para identificar essas violências, principalmente as de ordem psicológica, afetiva ou de negligência que uma criança pode estar sofrendo são os professores das escolas. “Eles começam a perceber que as crianças vão mudando o seu comportamento, o seu aproveitamento escolar, vão se tornando mais introvertidas, demonstram muita ansiedade quando vem pessoas adultas ou principalmente quando seus pais vêm buscá-los nas escolas, demonstram certa apreensão ao encontrar os adultos cuidadores”, explica.

Pessoas de fora do círculo familiar, mas que convivem de alguma forma com a criança, também podem perceber sinais de agressão. Vizinhos – principalmente vizinhos próximos, podem ouvir sinais de agressão, outros adultos (professores, motoristas do transporte escolar, por exemplo) podem observar mudanças de comportamento – como a criança não querendo voltar para casa, onde encontrará seu agressor.

“Se isso acontecer, se essas pessoas de fora da família perceberem qualquer situação que sugira que uma criança está sendo agredida não só do ponto de vista físico, como também do psicológico e afetivo, ou mesmo que esteja sendo negligenciada de alguma forma, elas são amparadas pela legislação e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente para fazer um comunicado ao Conselho Tutelar”, orienta.

Se for algo mais grave, se for possível perceber que a agressão é muito grande e pode eventualmente levar a criança a óbito, não somente o Conselho tutelar deve ser comunicado, mas também a polícia e o Ministério Público. Existe também o Disque 100 (Disque Direitos Humanos, um serviço telefônico de recebimento, encaminhamento e monitoramento de denúncias de violação de direitos humanos, com grande atuação com crianças e adolescentes vítimas de violência), que funciona no país inteiro e que aceita denúncias anônimas.

“O importante é toda a comunidade ao redor da criança ter a consciência de que qualquer omissão de quem percebe a violência, mas não denuncia, e não oferece qualquer tipo de proteção à criança, pode significar sua morte num futuro próximo”, alerta.

Foto: Agência Brasil

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