Contexto

Mortes de pretos e pardos no Brasil foi 28% maior no primeiro ano da pandemia

Das 270 mil mortes em excesso no Brasil em 2020, 153 mil ocorreram entre pretos e pardos, 36 mil óbitos a mais em comparação com o excesso de mortalidade da população branca

Cerca de 270 mil brasileiros morreram acima do esperado em 2020 em comparação com os anos anteriores, revelando que o número real de mortos da Covid-19 é muito maior do que as contagens oficiais, que somavam 195.000 óbitos em 31 de dezembro do ano passado. Dessas 270 mil mortes em excesso, 153 mil ocorreram entre pretos e pardos, 36 mil óbitos a mais em comparação com o excesso de mortalidade da população branca do Brasil.

Os novos dados divulgados, que foram coletados e analisados pelo Afro-CEBRAP, centro de pesquisa em questões raciais, e a organização global de saúde Vital Strategies, evidenciam um quadro alarmante: as desigualdades raciais e sociais pré-existentes foram intensificadas pela pandemia de Covid-19, levando a um número maior de mortes entre a população negra do Brasil.

“Nossa análise mostra as disparidades alarmantes entre a população negra e branca na saúde, que pioraram durante a Covid-19. Incentivamos aqueles que têm poder de decisão a usar os resultados deste estudo para orientar planos de combate a Covid-19 que levem em consideração as lacunas na contenção do vírus, no atendimento com base na raça/cor. Isso inclui melhorar o acesso ao tratamento e a vacinas com prioridade, melhorar a qualidade do tratamento e melhorar a coleta de dados”, diz Fatima Marinho, epidemiologista e especialista sênior da Vital Strategies.

O estudo utiliza o excesso de mortalidade como indicador. Este é um método usado por epidemiologistas e especialistas em saúde pública para calcular a diferença entre o número de mortes esperadas e o número de mortes observadas em um determinado período e local. Isso pode mostrar mudanças na saúde geral de uma população. Nesta análise, foi comparada a quantidade de óbitos por causas naturais esperada em 2020 e a quantidade de óbitos observada para o mesmo ano. Os resultados revelam os impactos diretos da Covid-19 – a partir do aumento de mortes pela doença – bem como os indiretos, devido a restrições de movimentação, superlotação de hospitais e unidades de saúde, redução da busca por atendimento médico por parte de doentes graves por medo de se infectar, além do cancelamento ou adiamento de procedimentos médico-hospitalar para doentes graves, devido ao risco de infecção pelo SARS-COV-2.

A análise dos indicadores de excesso de mortalidade por raça/cor está disponível na plataforma Raça e Saúde Pública e mostra como a Covid-19 escancarou as desigualdades raciais no Brasil. O levantamento dos dados revelou números preocupantes quando se analisa o excesso de mortalidade em 2020 por raça/cor e por idade e sexo. O excesso de mortalidade da população negra com mais de 80 anos foi de 16% enquanto o da população branca na mesma faixa etária foi de 8%. As mulheres negras também foram afetadas de forma desproporcional: o excesso de mortalidade foi 57% maior do que o das mulheres brancas.

As fontes de coleta dos dados de óbitos por causas naturais foram o SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde) e o Registro Civil (sistema de informação da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais – ARPEN-Brasil), além de dados populacionais do IBGE.

Segundo Márcia Lima, coordenadora e pesquisadora do Afro-CEBRAP, ao longo da pandemia de COVID-19 as desigualdades raciais deixam desproporcionalmente a população negra exercendo serviços essenciais, o que acaba aumentando sua exposição ao vírus. “Enquanto as camadas mais privilegiadas da sociedade – de maioria branca – dispõem de recursos que lhes garantem a possibilidade de cumprir o isolamento social trabalhando em casa, os profissionais informais e precários – majoritariamente negros – continuam cada vez mais expostos”, diz Márcia.

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