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Isolamento social não altera o preço dos alimentos. Entenda

Ao contrário do que disse o presidente Bolsonaro, o fechamento usado por estados e municípios para tentar conter o avanço do novo coronavírus nada tem a ver com o aumento dos preços dos alimentos

Conversando com apoiadores na frente do Palácio do Planalto nesta segunda-feira (15), o presidente Jair Bolsonaro afirmou que a alta dos alimentos é culpa da política de isolamento social. “A política do ‘fique em casa’, feche tudo e destruir milhões de empregos. A consequência está aí”, afirmou. No entanto, o fechamento usado por estados e municípios para tentar conter o avanço do novo coronavírus pouco ou nada tem a ver com o aumento dos preços dos alimentos.

“O surto inflacionário atual não se deve ao confinamento (que aliás nunca esteve tão baixo) e sim principalmente a desvalorizações cambiais e elevação de preços de commodities no mercado internacional que se refletem internamente”, explica Paulo Sandroni, professor professor do Departamento de Administração da Produção e Operações da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EAESP/FGV).

O ponto chave para entender esse contexto é o dólar. “A inflação dos alimentos percebida no Brasil tem como origem a alta do Dólar frente ao Real. Isto porque a economia brasileira é, em grande parte, indexada ao Dólar. Isto é especialmente válido para a produção de alimentos. Significa dizer, por exemplo, que os insumos utilizados na produção de alimentos tem forte correlação com o Dólar”, afirma Daniel Franco Goulart, também professor do EAESP/FGV.

O valor do Dólar influencia diretamente o preço dos alimentos porque tudo aquilo que o produtor gasta para levar o alimento até você tem como base o preço da moeda norte-americana. “Se o Dólar está valorizado frente ao Real, significa que o produtor rural precisará gastar mais Reais do que aquilo que ele gastaria se o Real estivesse valorizado frente ao Dólar para comprar”, diz Daniel. Para ele, se o custo do agricultor aumenta devido à desvalorização cambial, ele vai repassar o custo para o consumidor final, ou seja, eu e você.

O preço dos alimentos também são indexados ao dólar. Aí entra o fator concorrência externa. “Se um saco de 60 kg de soja vale US$ 30 na exportação, que equivaleria, com o Dólar de hoje, a R$ 168,60 por saco, por que um agricultor brasileiro venderia mais barato em reais para o mercado interno em vez de exportar?” questiona. Vale lembrar que a soja é uma das principais matérias-primas para a produção de ração animal. Ou seja, se a soja está cara, é de se esperar que as carnes ficarão igualmente caras. E estão mesmo.

Mas afinal, se a origem da inflação de alimentos é o dólar, então por que a moeda norte-americana está tão valorizada frente ao real? E tal qual o preço dos alimentos, é bom adiantar que também não é culpa do isolamento social. Para entender esse fenômeno, temos que analisar a chamada taxa básica de juros no Brasil (Selic) e um pouco de conjuntura internacional.

O que é a taxa Selic?

O raciocínio é o seguinte: a taxa básica de juros é a taxa que sinaliza o custo do dinheiro em todo o mercado financeiro. Trata-se de uma taxa de referência para a precificação dos títulos públicos do governo. Quando o governo precisa de dinheiro para pagar suas contas e não tem dinheiro em casa, ele emite os chamados títulos públicos.

Esses títulos são papéis da dívida pública emitidos pelo Tesouro Nacional e remunerados a taxas fixas. Em outras palavras, eles são pequenas “partes” de um grande empréstimo que os cofres públicos fazem com os investidores. Assim, comprar esses títulos significa “emprestar” dinheiro ao governo, com a promessa de receber juros pela operação.

Estes títulos podem ser comprados por investidores diversos, desde pessoas físicas a fundos de investimento e bancos. Quando a Selic está em patamares elevados, o governo paga elevados rendimentos (juros) para aqueles que os compram. Da mesma forma, quando a Selic está baixa, o governo paga rendimentos menores para os compradores.

De acordo com o professor Daniel Franco Goulart, os investidores estrangeiros olham para o Brasil (e para os títulos brasileiros) com certa desconfiança. Eles têm receio de investir nestes títulos e eventualmente não recuperar o que investiram (ou seja, eles têm medo de tomar um calote).

“Para que eles aceitem o risco de tomar um título brasileiro, a remuneração precisa ser elevada. Quando a Selic está em patamares altos, significa que os títulos brasileiros estão pagando elevados valores aos investidores”, ensina. Neste momento, os investidores brasileiros e internacionais compram títulos do tesouro.

“Quando os investidores estrangeiros compram títulos do tesouro, há uma injeção de Dólares na economia. Com uma maior oferta de Dólares circulando no mercado, o que acontece com o seu preço? Cai. Por isso que, em cenários de Selic em patamares elevados, temos, geralmente, uma taxa de câmbio mais comportada (ou seja, um Real mais fortalecido frente ao Dólar)”, explica.

Se por um lado os juros altos têm papel importante na manutenção do Dólar em patamares mais baixos, o que, como vimos anteriormente, é positivo para a inflação, por outro lado temos um impacto no “custo do dinheiro”. A Selic alta não atrai apenas investidores estrangeiros. Investidores locais, entre eles os bancos, se interessam em comprar títulos do tesouro nacional quando eles pagam bem.

“Portanto, em um cenário de Selic elevada, o custo de oportunidade do dinheiro se eleva, ou seja, os bancos, para deixar de emprestar para o governo e emprestar para uma empresa ou pessoa física, cobrarão valores superiores à Selic. Em última instância, os empréstimos em todo o mercado se elevam com uma Selic elevada”, compara.

E qual é a consequência disso para a economia real? Com o custo elevado do dinheiro, as pessoas deixam de fazer financiamentos. Não fazendo financiamentos, as pessoas deixam de comprar. Se as pessoas não compram, as empresas deixam de produzir. Se as empresas não produzem, ela precisam reduzir seus tamanhos, o que significa “demitir”. “Se as empresas demitem, aumenta-se a taxa de desemprego e, com ela, todas as mazelas associadas. Repare o quão perverso é o ciclo. Neste cenário, contudo, possivelmente temos um ambiente com inflação baixa, o que parece óbvio, já que, se não há consumo por parte das pessoas, como é que os preços podem subir?”, alerta.

Nesse caso, o movimento de queda da Selic tem efeito oposto: o Brasil se torna menos atrativo aos investidores internacionais, ocorrendo, portanto, fuga de dólares (e, portanto, desvalorização do Real). Isso, por si só, tem influência na elevação da inflação. Além disso, neste cenário temos um custo do dinheiro mais baixo. “Com isso, as pessoas passam a tomar crédito para consumir mais e, na esteira deste movimento, as empresas passam a produzir mais e contratar mais. Contudo, como as empresas têm uma capacidade limitada de produção, em um determinado momento a demanda é tão grande que as empresas, não conseguindo produzir mais, decidem elevar os preços. Resumindo: inflação”, afirma.

Pra resumir: a Selic baixa impulsiona a inflação de duas formas: pelo aumento do custo dos insumos (já que praticamente toda a economia é indexada ao Dólar) e pelo aumento da demanda (pessoas comprando mais porque o crédito está barato, pressionando as empresas a aumentarem preços). “No momento em que vivemos, a inflação não vem necessariamente do aumento da demanda. Prova disso é que os índices de desemprego estão elevados. A inflação vem exclusivamente, ou quase que, da desvalorização do Real frente ao Dólar”, analisa.

Fotos: EBC

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