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Novo ministro, velhos erros

Se a ideia da troca é blindar Bolsonaro, com as mortes crescendo exponencialmente sem vacinas no horizonte, o mais provável é que o tiro saia pela culatra

O presidente Jair Bolsonaro anunciou na noite desta segunda-feira (15), nas redes sociais, ter acertado a nomeação do médico Marcelo Queiroga como ministro da Saúde. Os dois se reuniram ao longo da tarde no Palácio do Planalto para discutir a troca no comando da pasta. No entanto, a mudança no comando da pasta não deve significar uma nova política de enfrentamento da pandemia.

A indicação de Queiroga em si já sinaliza que o discurso completamente anticientífico e extremista de Bolsonaro será mantido. No domingo, o nome mais cotado para assumir a pasta (e favorito dos políticos do Centrão) era o da cardiologista Ludhmila Hajjar, que chegou a se reunir com Bolsonaro e seu filho, o deputado federal Eduaro Bolsonaro (PSL-SP).

No entanto, a médica foi alvo de perseguição e ameaça de morte nas redes sociais, teve seu celular vazado e quase teve seu quarto no hotel onde estava hospedada em Brasília invadido por três vezes. Tudo para, no final, ser sabatinada sobre temas como armas e aborto e sumariamente descartada pelo presidente.

Por que mudar? E por que agora?

A mudança na pasta ainda não foi bem compreendida. Acredita-se que a ideia era diminuir o desgaste que a gestão Pazuello trazia para a figura do presidente. O general da ativa é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) pelo colapso no fornecimento de oxigênio na rede hospitalar de Manaus, que causou a morte de dezenas de pessoas por asfixia mecânica em janeiro deste ano. O discurso parece devidamente afinado.

Nas primeiras entrevistas na imprensa após o anúncio, Queiroga já se colocou contra o lockdown nacional e defendeu a autonomia de médicos prescreverem medicamentos que não funcionam contra a Covid-19, como a cloroquina e a ivermectina, algo alinhado ao discurso do presidente. Alguns também acreditam que, por ser médico, sua indicação seria por uma maior habilidade para adquirir doses de vacinas que seu antecessor. Mas, dificilmente isso acontecerá.

Tiro pode sair pela culatra

O problema para o novo ministro não é só comprar, mas conseguir que as doses dos imunizantes sejam entregues. E isso não acontecerá. Pelo menos não em quantidade que permita uma vacinação capaz de evitar um lockdown ou cenas trágicas iguais a Manaus de janeiro. Mas isso não será possível já que os estoques do planeta já estão comprometidos com países que assinaram contratos em 2020. Algo que não é o caso do Brasil porque Bolsonaro se negou a assinar tais acordos.

Diante disso, se a ideia é blindar Bolsonaro, o mais provável é justamente o oposto. Pazuello, a despeito de toda sua incompetência, era um alvo para a opinião pública e tinha as forças armadas para lhe dar proteção corporativa e até jurídica. Marcelo Queiroga está sozinho. E mais: por ter acabado de chegar, poderá usar a desculpa de que está se adaptando ao cargo.

E que ninguém se engane: as cenas horrendas de Manaus vão se repetir pelo país dentro de muito em breve. Um colapso acontecer em uma cidade de 2 milhões de pessoas é uma coisa. Acontecer em múltiplas cidades ao mesmo tempo, com populações dezenas de vezes maior é multiplicar os problemas em escala geométrica. E sem vacinas no horizonte.

Por ser o quarto ministro da gestão Bolsonaro na pandemia, é ingenuidade acreditar que o problema é o comando do Ministério da Saúde. No futebol, é comum os cartolas demitirem os treinadores para disfarçar a própria incompetência quando os times perigam ser rebaixados. Mas há muitas trocas, a torcida começa a se voltar contra os cartolas. E em 99% dessas situações, os times são rebaixados.

Quem é Marcelo Queiroga

Marcelo Queiroga é natural de João Pessoal e se formou em medicina pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Ele fez especialização em cardiologia no Hospital Adventista Silvestre, no Rio de Janeiro. Sua área de atuação é em hemodinâmica e cardiologia intervencionista e atualmente Queiroga é presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

Com a indicação, Queiroga será o quarto ministro da Saúde desde o começo da pandemia de Covid, há exatamente um ano. Passaram pela pasta, neste período, os médicos Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, seguido depois pelo general Eduardo Pazuello.

O principal desafio do novo ministro será acelerar o processo de vacinação em massa da população. Até agora, o país vacinou cerca de 0,5% da população, percentual que corresponde a pouco mais de 11 milhões de pessoas, segundo o Our World in Data. O Brasil acumula, até o momento, mais de 279 mil mortes por Covid-19.

Foto: Agência Senado

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