Amazonas

1 ano depois

Tudo começou na tarde daquela sexta-feira, 13 de março de 2020. O dia que mudaria nossas vidas para sempre

Era uma tarde sexta-feira nublada. Eu trabalhava em outras pautas quando por volta das 15h, chegou um e-mail da Secretaria de Comunicação do Estado. Era uma coletiva de imprensa pra falar sobre o tal novo coronavírus, que acabara de chegar ao Brasil e fez a Organização Mundial de Saúde decretar pandemia dois dias antes. De fato, era o primeiro caso de Covid-19 no Amazonas, que seria também o primeiro da região norte. Uma mulher de 39 anos vinda da Inglaterra.

Engraçado. Mesmo com a preocupação crescente nas redes sociais, tudo ainda parecia tão distante. A ficha ainda não tinha caído. Lembro de sair de sair da coletiva, na sede do governo do Amazonas, pensando: “Que saco. Vai ser a mesma chatice de 2009”. Na ocasião, a pandemia de H1N1, recebíamos os números diariamente da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM) e divulgávamos de maneira quase protocoloar. Não tivemos qualquer mudança no nosso cotidiano. Imaginei que talvez fosse um pouco diferente. Não foi.

Hoje são 13 de março de 2021. Um ano depois. Mas parece que faz tanto tempo. Parece o peso de dez anos. Talvez seja o resultado de morar no palco de imagens e momentos tão terríveis nesses 365 dias. É estranho, sabe? Talvez agora, quando país se prepara (ou não se prepara) pra passar pelo que Manaus passou por duas vezes, a sensação é de torpor. Não nos assustamos mais. Parece insensível, né? Talvez seja. Pode ser o efeito colateral de tudo.

Foi tudo tão rápido. Lembro de sair da coletiva e ir pra casa me preparar para cobrir o campeonato amazonense no domingo. Fiz o jogo e achei que tudo continuaria normalmente. Na semana seguinte, ele foi cancelado. Duas semanas depois, estávamos em quarentena. No mês seguinte, o colapso veio. Covas coletivas, quase o colapso da rede funerária. Tivemos medo de não ter caixões para enterrar os mortos.

Pausa para o relato pessoal. Numa sexta-feira no final de abril, minha esposa, médica patologista que fazia necrópsias de pacientes com Covid, chega em casa e diz: “não se aproxime. Não estou sentindo gosto nem cheiro de nada”. Acho que foi a primeira vez em muitos anos que andei sem sentir o chão. Lembro de tê-la colocado na cama e quando dei por mim. Comecei a tossir. Felizmente, nos salvamos sem sequelas. Mas aquela sensação, mesmo que eu viva cem anos, nunca vai ser esquecida.

Nas semanas seguintes, a tempestade passou um pouco. Aos poucos, parecia que o pesadelo tinha acabado e havia uma luz no fim do túnel. As mortes diminuíram. O colapso passou. Aos poucos, a vida voltava ao normal. Era o olho do furacão, na verdade.

Infelizmente, muitos filmes de terror tem a segunda parte. E Manaus teve no final do ano. O vírus voltou com força total. Aparentemente, com incompetência dos gestores públicos, locais e nacionais, passamos a conviver com o vírus por meses a fio. Armamos a nossa própria armadilha. A circulação entre tantos infectados, selecionou uma variante capaz de ser transmitida ainda mais rápido. Pior: ela era capaz infectar quem já tinha se recuperado. Muito provavelmente, nos próximos meses ou semanas descobriremos que ela é mais letal também.

O resultado foi um massacre ainda maior em janeiro de 2021. Com velocidade impressionante, o número de internações e mortes atingiu níveis de guerra. A rede hospitalar do estado não aguentou e simplesmente não deu conta de fornecer oxigênio a tantos internados, o que causou a morte de diversos pacientes por asfixia. Infelizmente, não há como saber quantos. As redes sociais se tornaram uma romaria em busca de balões de oxigênio e de obituários. Olhávamos a foto de alguém e já sabíamos que era uma família destroçada. Mais uma. Dia após dia. Por semanas.

Mas esse crime tem responsáveis. Que fique registrado para a história: tudo isso aconteceu sob olhar conivente do presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, que por meses se negou a atuar de maneira ativa para sabotar o controle da doença. Sempre que possível, ele promoveu campanhas de desinformação contra máscaras e isolamento, únicas maneiras de salvar vidas. Mais tarde, se negou a comprar vacinas que poderiam abreviar esse horror.

Mas também não podemos esquecer da subserviência patética e criminosa do governador do estado, que agradece e beija as mãos de Bolsonaro mesmo quando o governo é investigado por negligência no trato da tragédia. Há quem garanta que essa postura é medo. Wilson Lima é investigado por desvio de dinheiro público na compra de respiradores no auge da primeira onda. Coincidência ou não, desde a sua reaproximação de Bolsonaro, as investigações simplesmente pararam.

Essa é a nossa tragédia. Não sabemos o que o futuro nos reserva. Nem para Manaus, para o resto do país ou mesmo para cada um de nós. Somos, neste momento, apenas sobreviventes tentando chegar até o dia seguinte. Se dermos sorte, quem sabe protegeremos quem amamos. Somos testemunhas dessa tragédia. Um pesadelo diário que levaremos para o resto de nossas vidas. E tudo começou na tarde daquela sexta-feira, 13 de março de 2020. O dia que mudaria nossas vidas para sempre.

Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real

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