Amazonas

Variante P.1 não é a única com a qual o Amazonas deve se preocupar

Se uma variante mais transmissível causou o caos em Manaus em janeiro, o que acontece se chegarem mais duas?

A nova variante do novo coronavírus denominada P.1 não deve ser o único motivo de preocupação para as autoridades locais. O alerta foi feito por especialistas ouvidos pelo Vocativo tendo em vista que existem outras variantes igualmente perigosas circulando no Brasil e que ainda não se sabe qual o efeito delas circulando na mesma região.

Atualmente, há três variantes do SARS-CoV-2 no mundo que causam preocupação especial na comunidade científica. São as conhecidas como B.1.1.7 (identificada inicialmente na Inglaterra) e 501Y.V2 (identificada pela primeira vez na África do Sul). Em comum, as três possuem mutações na chamada proteína Spike do vírus (ilustração abaixo), responsável por conectá-lo às nossas células.

Já é praticamente consenso entre cientistas que essas mudanças são capazes não apenas de tornar o vírus mais transmissível (espalha melhor) como também capaz de escapar da imunidade de algumas pessoas que já tiveram a Covid-19. Vale lembrar que o Amazonas já confirmou até o momento 3 casos de reinfecção por essa variante e ainda investiga outros 12.

O catastrófico cenário vivido pelos moradores de Manaus no mês de janeiro coincidiu justamente com a descoberta da P.1 no Japão, o que corrobora a tese de que o caos foi causado por essa variante, além, é claro, da completa incapacidade de ação coordenada tanto do governo federal, quanto do estado e da prefeitura. O grande problema, porém, é saber o que acontece quando as três variantes circulam juntas no mesmo local. E aí mora o grande perigo.

Cenário incerto

Não se sabe ao certo o que acontece com as três variantes circulando na mesma região. Até porque, até o momento, há poucos locais que as encontraram juntas. A Inglaterra, por exemplo, restringiu vôos da África do Sul e do Brasil nos últimos meses, além de ter imposto um severo lockdown a seus moradores. O que é ainda mais difícil para sul-africanos, pela sua distância.

O único local que confirmou todas, até o momento, infelizmente é o Brasil. A B.1.1.7 já tem casos confirmados no Rio de Janeiro e em São Paulo e a 501Y.V2 já foi achada em Salvador, na Bahia. E a P.1 já foi encontrada nas três capitais. Pela localização do Pólo Industrial de Manaus e pela falta de monitoramento nos aeroportos, não é difícil imaginar que o Amazonas pode ser o próximo destino dessas variantes. Isso se já não estiverem aqui.

O pesquisador Felipe Naveca, da Fiocruz da Amazônia, responsável pelo sequenciamento genético do vírus, afirmou ao Vocativo que nenhuma das outras duas variantes foi encontrada até o momento no estado. No entanto, com a baixa testagem feita no Brasil atrapalha esse monitoramento. Vale lembrar que, até hoje, já foram documentadas 18 variantes do novo coronavírus no Amazonas desde o início da pandemia.

O que acontece com as três juntas?

Como já foi dito, não se sabe ainda o que acontece com a população quando circularem no mesmo local as três variantes. Não se sabe, por exemplo, se uma pode escapar da imunidade da infecção da outra, por exemplo. No entanto, os cenários traçados por alguns especialistas não são animadores.

“Tudo é muito novo, mas sim, elas podem circular simultaneamente, se nenhuma delas tiver nenhuma vantagem. Mas a tendência é que vença a que se transmite com maior rapidez”, afirma Eduardo Flores, virologista da Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul (UFSM-RS).

“Vírus e bactérias estão há muito mais tempo por aqui por esse motivo, são mestres em evolução e adaptação”, afirma Jesem Orellana, epidemiologista da Fiocruz da Amazônia.

“É difícil a gente pensar certinho em cenários viáveis porque a gente conhece muito pouco delas em solo brasileiro. Mas podem coexistir sim. Em geral, a mais apta acaba prevalecendo”, explica Mellanie Fontes-Dutra, biomédica, neurocientista e coordenadora da Rede Análise Covid.

As outras podem fazer tanto estrago quando a P.1?

É difícil imaginar um cenário ainda pior do que aquele visto em janeiro em Manaus, quando o colapso da rede de saúde foi tamanho que pessoas morreram porque a rede não suportou a demanda por oxigênio. No entanto, isso não significa que o pior já passou. Isso porque o fato das três variantes que já são mais adaptadas do que o vírus original circularem juntas entre as pessoas gera uma pressão evolutiva muito perigosa para os seres humanos.

“Elas [as variantes] estarão em permanente disputa pela hegemonia, o que pode ser ainda mais trágico, já que uma delas, para vencer, pode mudar para uma forma ainda mais ameaçadora. É imprevisível”, alerta Jesem. “Se encontrarem um ambiente apropriado para sua proliferação, considerando as mutações que carregam e tudo isso favorecê-las…”, afirma Mellanie, compartilhando da mesma preocupação.

Foto: NIAID

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