Cotidiano

Os perigos da dolarização da economia brasileira

A Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (10) o novo marco legal do mercado de câmbio (PL 5387/19, do Poder Executivo). Entre outros pontos, a proposta abre espaço para bancos e instituições financeiras brasileiros investirem no exterior recursos captados no País ou no exterior, além de facilitar o uso da moeda brasileira em transações internacionais. O projeto será enviado ao Senado.

De acordo com o substitutivo aprovado, do deputado Otto Alencar Filho (PSD-BA), as instituições financeiras autorizadas a funcionar pelo Banco Central poderão usar esse dinheiro para alocar, investir, financiar ou emprestar no território nacional ou no estrangeiro.

O texto original especificava que os empréstimos e financiamentos poderiam ser direcionados apenas a pessoas físicas ou jurídicas não residentes no Brasil ou com sede no exterior. Conforme definição do próprio projeto, não residentes são os estrangeiros, mas também podem ser brasileiros que tenham declarado saída definitiva do País.

A todo caso, devem ser observados requisitos e limites de regulamentos editados pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e pelo Banco Central. Segundo o governo, isso ajudará a financiar importadores de produtos brasileiros.

Para deputados de oposição, a medida é preocupante. Para o líder do PDT, deputado Wolney Queiroz (PDT-PE), a proposta vai levar à dolarização da economia brasileira, em situação semelhante à da Argentina. Já o deputado Paulo Teixeira (PT-SP) afirmou que o projeto incentiva o endividamento em dólar do brasileiro, especialmente em um cenário de desvalorização do real.

“Contas em dólar são o caminho mais certo para você dolarizar parcialmente sua economia. O que acontece com isso? Você fica muito mais vulnerável a choques externos”, criticou a economista e professora Monica de Bolle, diretora do Programa de Estudos Latino Americanos da Johns Hopkins University, em Washington (EUA), em seu canal no YouTube. Para Mônica, a entrada e saída de dólares no país causará volatilidade do mercado interno.

Monica questionou ainda o argumento de que tal aprovação trará mais investimentos ao país. “Que investimentos? No meio de uma crise humanitária e uma pandemia descontrolada? Que investimento virá para o Brasil assim? Não é isso que acontece na Argentina [onde a dolarização parcial vigora]. É justamente o contrário”, alerta. A economista afirma, inclusive, que as crises recorrentes no país vizinho acontecem justamente por causa dessa instabilidade.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: