Destino de Trump terá pouco ou nenhum efeito prático sobre Bolsonaro

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Mar a Lago - Flórida, 07/03/2020) Donald Trump recebe do Senhor Presidente da República Jair Bolsonaro em visita oficial aos EUA Foto: Alan Santos/PR

“Se Trump perder, Bolsonaro cai, porque seu discurso ficará enfraquecido e ele isolado”.

“Se Trump virar, Bolsonaro se reelege em 2022 porque seu discurso ficará fortalecido e ele terá apoio”.

Basicamente essas duas linhas de raciocínio dominam o Twitter nesta segunda-feira (02/11), véspera da eleição presidencial norte-americana. Muitos acreditam que o destino do presidente Jair Bolsonaro está diretamente ligado ao de Donald Trump. Ou seja, o que acontecer ao empresário nova-iorquino, de bom e de ruim, será uma prévia do destino do ex-militar brasileiro, seja na campanha em 2022 ou antes disso em um eventual impeachment. Na verdade, a situação não é tão simples assim.

Claro que a continuidade ou não do governo Trump influenciará o mundo por décadas. Seja pela política ambiental, pela guerra ideológica e comercial com a China, seja pelos arroubos autoritários, seja pelo método sujo de fazer política, não há como negar que Donald Trump já mudou o mundo pra pior. Resta saber se continuará nessa cruzada ou não.

Mas imaginar que sua queda será a “bala de prata” contra o bolsonarismo é pensar de maneira preguiçosa. Até porque a ascensão de Bolsonaro no Brasil é anterior à do próprio Trump. No começo da década, nos primórdios do YouTube, já era possível encontrar as declarações insanas de Bolsonaro na plataforma de vídeos. E fora dela também. Como não lembrar das suas inacreditáveis entrevistas ao extinto CQC, da Bandeirantes? Em 2014, já se lia, aqui e ali, declarações de apoio à candidatura de Bolsonaro no Facebook. Poucos levaram a sério.

Trump, por sua vez, jamais foi levado a sério nem mesmo no dia da própria eleição. Lembro bem da véspera, em 2016, quando saí da redação de um jornal e todos davam aquele momento como “bem, acabou a brincadeira. Vamos ver como Hillary Clinton se sai como presidente”. Acho que nenhum jornalista amanheceu sem estar em estado de choque no dia seguinte. Até os Simpsons fizeram piada com isso no começo dos anos 2000 tamanho o folclore envolvendo o apresentador do programa O Aprendiz.

O contexto político de cada país é extremamente complexo e particular. E nisso Bolsonaro tem uma série de vantagens. Ao contrário de Trump, que perdeu no voto direto e chegou à presidência apenas porque o sistema eleitoral americano é caótico, Bolsonaro foi eleito com voto da maioria da população, ficando 10% de votos à frente do seu concorrente direto. Nem a soma de todos os outros candidatos seria suficiente para derrotá-lo. O segundo turno no Brasil em 2018 foi meramente protocolar.

Enquanto a condução desastrosa de Trump da pandemia lhe custou popularidade, Bolsonaro ganhou um presente inesperado: colou em si uma grande distribuição de renda em virtude da emergência sanitária. Trump enfrenta ainda sérias ameaças de racismo, por não repudiar publicamente grupos supremacistas. Enquanto isso, no Brasil, secretários de Bolsonaro fazem vídeos que imitam a estética nazista e nada acontece.

Entra em cena aqui uma outra diferença: Trump tem uma oposição coesa e organizada, liderada por um político experiente como Joe Biden, uma vice com forte apelo popular e o reforço de todos as grandes figuras do partido democrata, incluindo o ex-presidente Barack Obama e o socialista Bernie Sanders. isso sem contar outras classes, como a de Hollywood. Vale lembrar que até o elenco de Os Vingadores fez eventos para arrecadar fundos para o partido democrata.

No Brasil, os partidos e líderes de oposição a Bolsonaro batem cabeça e perdem mais tempo se atacando entre si do que o próprio governo. Seus dois maiores expoentes, Lula e Ciro Gomes, se reuniram secretamente e até agora não anunciaram nada de significativo do encontro. A dispersão fica ainda mais nítida nas campanhas municipais, onde cada um rema pra um lado.

Mesmo aprovando um auxílio emergencial em dinheiro que tirou milhões de pessoas da miséria, a oposição conseguiu deixar essa poderosa arma eleitoral cair nas mãos de Bolsonaro por pura incompetência de articulação. Se alguém planeja tirar Bolsonaro da presidência, é preciso dar uma opção viável ao eleitor. Ou ele se reelegerá por W.O.

Vitória de Trump também não é garantia

Por outro lado, se uma eventual derrota do republicano não é garantia do fim do bolsonarismo, uma improvável reeleição também não significa a permanência de Bolsonaro no Palácio do Planalto. O contexto político, social e econômico do país nos próximos dois anos será uma tempestade perfeita para o atual presidente. Historicamente, nenhum presidente resistiu a uma grave crise econômica. O próprio regime militar definhou quando a vaca do Brasil caminhava para o brejo.

Isso sem contar o próprio talento de Bolsonaro para dar tiros no próprio pé. A questão da vacina Coronavac é um exemplo. Com a pandemia fora de controle, não há perspectiva de retomada da economia de maneira sustentável. Caso a vacina da AstraZeneca, com a qual o ministério da saúde tem contrato de compra, vir a não ser aprovada e a Coronava sim, Bolsonaro terá entregue o protagonismo político do país no colo do governador de São Paulo, João Dória, seu mais que provável concorrente em 2022. Isso sem contar os escândalos dos filhos, o processo de interferência na PF, as rachadinhas, os cheques de Queiroz para Michele Bolsonaro, a suspeita de compra superfaturada de cloroquina, etc.

O destino de Trump terá, claro, influência no Brasil. Mas se Bolsonaro continuará ou não presidente, vai depender muito mais dele do que qualquer outra coisa. E esse pode ser o grande problema. Para Bolsonaro, claro…

Foto: Alan Santos/PR

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