Amazonas

“Bolhas de proteção” podem explicar a situação da Covid-19 em Manaus

Manaus sofreu o colapso de serviços de saúde e funerário logo em abril, no segundo mês da pandemia do novo coronavírus. No entanto, menos de dois meses depois, a capital viu o número de óbitos e internações diminuir drasticamente. Isso levantou muitas especulações e estudos sugerindo que a capital havia atingido a chamada “imunidade coletiva” para o novo coronavírus. No entando, o aumento nas internações nos últimos dez dias colocou tal hipótese em xeque. Fica a pergunta: por que os índices melhoraram e agora pioraram de novo? Um grupo de pesquisadores pode ter encontrado a resposta.

Um estudo do grupo Ação Covid levanta a hipótese que se formaram bolhas de proteção em cidades como São Paulo, em que grupos com muitos infectados e grupos quase sem infecções não interagem. Isto explica por que o ritmo da doença desacelerou na cidade, sem chegar à imunidade comunitária.

O grupo interdisciplinar de pesquisadores que criou o Ação Covid tem se dedicados a entender como a desigualdade afeta a evolução da pandemia no Brasil. O modelo criado calcula a velocidade de propagação das infecções a partir de dados como a densidade demográfica, o índice de desenvolvimento humano (IDH) e a oferta de equipamentos urbanos.

O mesmo fenômeno pode ter acontecido em cidades que experimentaram picos de mortes e internações da Covid-19 e depois viram uma queda nesses índices, como Manaus e Nova York. Essas bolhas de proteção explicariam a melhora no quadro da capital do Amazonas entre julho e setembro.

No modelo, o grupo também mostra que um eventual aumento da circulação de pessoas aumenta a interação entre pessoas infectadas e suscetíveis, estourando essas bolhas. Isso explicaria a retomada no aumento de internações tanto em leitos clínicos quanto de Unidades de Tratamento Intensivo (UTI’s) vistos em Manaus nas últimas semanas.

Segundo a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), o aumento de internações em setembro começou pela rede privada de atendimento. Isso sugere que as pessoas das classes A e B, em melhores condições financeiras e que puderam faser isolamento social nos primeiros meses da pandemia, ficaram mais expostas agora e se contaminaram, furando assim a bolha que protegia a cidade.

“Essas bolhas surgiram quando fizemos projeções de aumento, redução e quantidade de casos com nosso modelo, chamado MDCorona, onde conseguimos simular a dispersão do vírus e a quantidade de pessoas que serão infectadas”, explica José Paulo Guedes Pinto, da Universidade Federal do ABC (UFABC) e um dos pesquisadores do Ação Covid.

O modelo criado pelos pesquisadores mostra outros dados interessantes. “Em certos locais, basta que 5%, 10%, 15% das pessoas imunizadas (que já pegaram o vírus e se recuperaram) estejam em volta de pessoas suscetíveis para que essas últimas estejam protegidas”, afirma.

Ainda segundo José Paulo, a formação dessas bolhas também acontecem pelas chamadas “rede de esgotamento de infecção”, isto é, os nossos hábitos também ajudam a conter a circulação do vírus. “Hábitos de distanciamento social, uso de máscaras e higienização das mãos somados com um relativo número de pessoas imunizadas tornam a velocidade da circulação do vírus mais lenta”, diz.

Equilíbrio frágil

De acordo com José Paulo Guedes, embora essas bolhas ajudem a conter o avanço do Sars-Cov-2, elas são locais e temporárias, o que reforça a necessidade de manter máxima vigilância. “Elas têm equilíbrio muito frágil e podem se romper a qualquer momento. Basta um pequeno número de pessoas infectadas entrar em contato com suscetíveis para que essas bolhas estourem e surjam novas ondas de contágio”, alerta.

Guedes deu como exemplo o litoral paulista, que viu os casos saltarem após o feriado da Semana da Pátria. “Esperávamos que Manaus tivesse novos surtos porque reduziram o isolamento social a níveis quase pré-pandemia. Aqui em São Paulo ainda há um debate sobre volta às aulas e público nos estádios justamente porque isso afetaria a estabilidade local dos casos”, afirma.

Para os que defendem que Manaus tenha atingido a chamada “imunidade coletiva”, o pesquisador faz mais uma ressalva. “Achamos esse debate furado. Só teremos imunidade coletiva com vacina, porque se trata de uma imunidade estável e controlada”, conclui.

Foto: Bruno Kelli/Amazonia Real

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