Entenda a situação atual da pandemia de Covid-19 no Amazonas

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O gráfico móvel do consórcio de veículos de imprensa formado por Globo, Estadão, Folha de São Paulo e UOL apontou um aumento do número de mortes no Amazonas nos últimos dias. Além disso, uma série de matérias na imprensa local com alerta de pesquisadores sobre uma possível segunda onda da Covid-19 no Estado trouxe a preocupação de leitores. A Fundação de Vigilância em Saúde, por outro lado, afirma que a situação não se alterou e, até o momento, não há sinais de uma segunda onda. Mas afinal, o que está acontecendo?

Primeiro é preciso esclarecer três coisas: 1) Ainda há muitas dúvidas quanto a esse vírus e suas consequências a médio e longo prazo; 2) Estamos no meio de uma pandemia e só sairemos dela com a vacinação em massa da população (note que não falei do descobrimento da vacina, mas a aplicação dela nas pessoas, no plural mesmo); 3) O país e o Estado não estão agindo da maneira ideal para monitorar e combater o problema, pelas mais diversas razões. Isso dito, vamos em frente.

Explicando o “aumento” de mortes

Antes de tudo, é preciso reforçar uma explicação: o governo do Amazonas está analisando óbitos de outros meses, seguindo uma nova diretriz do Ministério da Saúde e atualizando o número. Por isso a média móvel do Jornal Nacional, por exemplo, mostra que o Estado está com “aumento” de número de mortes, ainda que esse aumento diga a respeito a outros meses. Significa que a situação está “piorando”? Não necessariamente. Pra se ter uma ideia, a média diária de mortes por Covid-19 tem sido de 3 por dia nos últimos 15 dias. Em abril, chegamos a ter média de 100, com pico de 150 por dia. Ah, então significa que o pior já passou? Também não. Confuso? Vou tentar explicar melhor.

O ideal seria o Amazonas (aliás, o Brasil inteiro) seguir a recomendação da Organização Mundial de Saúde à risca: fazer testes moleculares (os daquele cotonete no seu nariz) em massa, pra saber quantas pessoas estão com o vírus AGORA, isolar essas pessoas e quem esteve em contato com elas (o chamado rastreamento) e à medida que os números fossem caindo, ir flexibilizando o isolamento, com todo mundo usando máscara, higienizando as mãos e mantendo distanciamento físico onde precisasse ir. E quem pudesse, claro, ficasse em casa. Mas não fizemos isso e ao que tudo indica, não faremos.

Assim, o melhor método pra saber se a situação está piorando ou se mantendo estável é observar quatro indicadores, como se fossem um Raio-X, onde você não enxerga perfeitamente, mas tem uma noção mais precisa do que está acontecendo. São eles:

1 – Número de novos testes moleculares (RT-PCR) positivos diários

Pela falta de insumos para esse teste, a Secretaria de Saúde do Amazonas opta por deixá-los para quem manifesta sintomas mais severos. Assim, se a quantidade de novos testes moleculares aumenta diariamente, significa que mais pessoas estão com o vírus ativo a ponto de ficarem com sintomas severos e serem testados. Isso é um indicador importante, apesar de insuficiente.

Cerca de 80% das pessoas que contraem o Sars-Cov-2 ou não tem sintomas ou tem apenas sintomas leves, se mais pessoas estão com sintomas mais severos, significa que uma quantidade de pessoas ainda maior está com o vírus e só uma parte é detectada. Isso reforça a importância do segundo indicador.

2 – Número de internados em UTI’s

Ora, se a quantidade de pessoas com RT-PCR positivo aumenta, a quantidade de pessoas que ainda está com o vírus ativo a ponto de precisar de atendimento médico em UTI também aumenta, aumentando também a pressão sobre o sistema de saúde. Por isso, o sinal de alerta é ligado.

Por outro lado, apenas o índice de ocupação de UTI não é preciso o bastante porque pode variar dependendo de quantos estão disponíveis. Se há 100 leitos de UTI disponíveis e há 70 pessoas internadas, temos índice de ocupação de 70%. Mas se temos 200 leitos de UTI disponíveis e temos 100 pessoas internadas, o índice de ocupação vai a 50%, parecendo melhor, quando a situação é pior.

3 – Número de óbitos em 24 horas

Infelizmente, uma parte das pessoas internadas em UTI acaba morrendo. Logo, se há aumento no número de óbitos, isso significa que os dois índices acima segue em alta e não estão apenas variando quanto à disponibilidade de testes ou leitos, o que significa que a situação, de fato, está piorando. Por outro lado, há o problema da subnotificação. Aí entra mais um indicador.

4 – Sepultamentos em 24 horas

Muitas pessoas morrem de Covid-19 sem fazer o teste para a doença, muitas delas inclusive em casa. Por isso, saber quantas pessoas são sepultadas diariamente ajuda a entender se a situação está mais ou menos séria. Se o número de sepultamentos for muito acima da média, somado aos outros três indicadores acima, é hora de ligar o sinal vermelho.

Mas então qual a situação atual do Estado?

O governo optou por uma tática arriscada: viu as internações em UTI e os óbitos caírem e foi liberando aos poucos. Se voltassem a subir, fechariam tudo de novo. E, o fato é que, até aqui, dia 16 de agosto, ainda não subiram. Atualmente, todas as atividades comerciais do Estado já retornaram e os indicadores não sofreram alterações significativas.

Segundo dados disponíveis no site da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM), entre os dias 29 de maio e 03 de julho, o número internações em UTI foi de 120 pessoas. Desde então, mesmo com os ciclos de reabertura, pouca coisa mudou. Entre os dias 08 e 27 de julho, a média caiu para 70 internados por dia. Apenas entre os dias 28 de julho e 06 de agosto houve um aumento, subindo para uma média de 90 por dia, possivelmente efeito do último ciclo de reabertura, no dia 06 de junho, mas logo em seguida a média voltou a 70.

O gráfico de sepultamenos na cidade de Manaus, por exemplo, que tiveram picos de 150 mortes no começo de maio, registra médias de 35 desde 20 de junho.

Entenda a situação atual da pandemia de Covid-19 no Amazonas 1

A última e mais delicada é o retorno das aulas presenciais, o que aconteceu na última segunda-feira (10/08). Até o momento, ainda não é possível saber o impacto desse retorno aos números da pandemia, uma vez que a evolução da doença, seja para um quadro leve ou grave, demora entre uma e duas semanas. Teremos de observar pra saber, já que a testagem em massa de profissionais de educação será pelo exame sorológico, ou seja, não saberemos quantos professores ESTÃO com a Covid-19, apenas quais já tiveram a doença.

Assim, a tendência é do registro oficial casos aumentarem, ainda que seja necessário observar os outros indicadores já citados (testes RT-PCR, internados em UTI, óbitos diários e sepultamentos) pra saber se a situação realmente piorou ou não.

Ao que tudo indica, o Amazonas, por vários fatores, alguns conhecidos outros ainda não, sofreu com uma explosão de casos e mortes entre abril e junho, seguido de uma queda e agora estabilidade. Muitos casos diários são divulgados, mas boa parte deles são de testes sorológicos (os de sangue), que mostram que boa parte da população já teve contato com o vírus em outros meses. Até o momento, ao contrário de outros países que flexibilizaram suas quarenteas e tiveram aumento de casos, isso não aconteceu no Amazonas. Só saberemos o impacto da volta às aulas nas próximas semanas.

Perspectiva

Acontecerá uma segunda onda no Estado? Isso só o tempo dirá. Mesmo fazer essa constatação será complicado, já que testamos pouco. Até o momento, isso não aconteceu e também depende de quantas pessoas ainda estão suscetíveis ao vírus. Partindo do princípio que o isolamento social sempre foi abaixo do recomendado e o alto número diário de testes sorológicos positivos sugere (apenas sugere) que muitos já foram infectados.

Sinal de que o pior já passou? Difícil saber. Lembra quando, lá em cima, eu disse que ainda há muitas dúvidas quanto a esse vírus e suas consequências a médio e longo prazo? Pois é. Não sabemos por quanto tempo as pessoas que já tiveram o vírus estão protegidas. E com poucos testes, seguimos tateando no escuro. Sem vacina, o jeito é manter o cuidado e a vigilância o tempo todo. Ou seja, máscaras, distanciamento, higiente e só sair se for necessário. Para ajudar, à partir de terça-feira (17), o Portal Vocativo passará a divulgar esses indicadores diariamente, para que você acompanhe.

Mesmo que, eventualmente, os números baixem e permaneçam assim, afirmar que a “situação melhorou” é delicado. Seria como dizer que a situação em Hiroshima e Nagasaki melhorarou em outubro de 1945, após a explosão das bombas atômicas no final da Segunda Guerra Mundial. Bem, em outubro você não veria mais gente morrendo por causa de bombas. Isso significa que tudo melhorou lá? Não. Exagero à parte e guardadas as devidas proporções, é a mesma coisa.

Com a revisão dos óbitos, o Amazonas deve bater uma triste e impressionante marca: mil mortos por milhão de habitantes. Talvez até supere essa marca. Isso é extremamante alto. Muitas pessoas morreram podendo ser salvas. Se (e é um enorme SE) a situação atual no Estado é de imunidade coletiva por contágio e incompetência, não temos nada a comemorar. Só a nos envergonhar e lamentar.

Foto: Secretaria de Estado da Comunicação (Secom)

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