Amazonas

A Covid-19 no Amazonas – Parte 04: a pobreza como maior fator de risco

Há vários fatores de risco (cardiopatias, diabetes, obesidade, pressão alta, etc.) para a infecção do novo coronavírus. Mas, sem dúvida, há um elemento que não apenas agrega todos esses riscos em um só como facilita a exposição ao contágio: a pobreza. O raciocínio é simples e cruel: quanto menos condições financeiras, menor o acesso a alimentação saudável, serviços essenciais como água e saneamento básico, além da maior necessidade de sair de casa para trabalhar e se expor ao coronavírus.

O resultado dessa equação também explica o excesso de casos e mortalidade pela Covid-19 no Amazonas em comparação ao resto do Brasil, justamente pelo fato da nossa população ser uma das mais pobre do país. Levantamento divulgado em 2019 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontava que 45,7% dos amazonenses se encontrava abaixo da linha de pobreza em 2018, o quarto maior do Brasil. A proporção de pessoas abaixo da linha de extrema pobreza aumentou para 13,8%, com 45,2 mil pessoas a mais do que o registrado em 2017.

“Em São Paulo e Rio de Janeiro é esperado que tenham uma importante taxa de casos confirmados por milhão. Agora, o que não era esperado é essa taxa de casos confirmados na Amazônia e no Nordeste do Brasil”, afirma a professora Larissa Mies Bombardi, do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. “Manaus teve o maior excesso de óbitos entre todas as cidades do Brasil, chegou a 500%. Foram registradas [em 2020] cinco vezes mais mortes que nos anos anteriores – 90% delas por causas respiratórias” explicou o infectologista Júlio Croda, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS).

O parâmetro Manaus

Cinco meses após a epidemia ser declarada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), com todos os municípios do Amazonas com casos da Covid-19, a diferença de letalidade e incidência de casos expõe de maneira brutal a diferença de como a infecção atingiu a população mais pobre e a mais rica. Como o levantamento de todos os municípios é precário pela própria condição de cada prefeitura, o melhor parâmetro para análise é a capital Manaus.

De acordo com dados da Fundação de Vigilânia em Saúde (FVS-AM) e da prefeitura de Manaus, até o fechamento desta matéria, os dez bairros com maior incidência da Covid-19 eram de classe média ou baixa da cidade, exceto um: o bairro da Ponta Negra, na Zona Oeste, justamente a área considerada de maior valor imobiliário da capital. O bairro registrava a maior média de casos por 100 mil habitantes: 5.557. O segundo colocado, por sua vez, é o Distrito Industrial, que possui uma das áreas mais carentes da cidade, com 5.276 casos por 100 mil habitantes.

A diferença revela mais um dado importante: testagem. Como a política de testagem governo do Estado para detectar o vírus ativo (por RTC-PCR) para a rede pública é restrita aos casos com sintomas mais severos, a população mais pobre com casos confirmados é muito maior do que a dos bairros mais ricos. Isso porque a população com acesso à rede privada tem mais facilidades de testagem, podendo detectar o vírus ao procurar atendimento mesmo com sintomas mais leves. Ou seja: a subnotificação dos casos é maior entre a população mais pobre.

Isso explica outro dado importante: apesar da alta incidência de casos confirmados, a Ponta Negra concentra um dos menores números de óbitos da cidade, com 13 até o momento. O bairro com maior número de mortes até o momento é justamente em bairros de classe média-baixa, a Cidade Nova, com 230 óbitos, seguido por outro de classe baixa, a Compensa, com 198.

Outro indicador que ajuda a entender o impacto da vulnerabilidade social desta pandemia na capital do Amazonas é o atendimento funerário. O serviço SOS Funeral, da Prefeitura, criado para atender justamente a população mais pobre, teve a média mensal de atendimentos saltando de 200 para 600 em abril e maio deste ano, meses de pico da pandemia em Manaus e também em 10 anos do serviço. Nesses meses, foram contabilizadas 1.299 remoções e concessões de urnas, além de 3.897 deslocamentos entre residência, hospitais e cemitérios.

Saneamento

Um estudo realizado por pesquisadores da USP relaciona fatores de saneamento básico como abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto com o alto número de casos e mortes por covid-19 no País, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, especificamente Amazonas e Ceará, que possuem saneamento deficitário, o que, de acordo com a pesquisa, pode permitir a proliferação do novo coronavírus.

Segundo a professora Larissa Mies Bombardi, a hipótese se baseia em artigos internacionais que atestam a presença do novo coronavírus nos excrementos humanos, mesmo em casos assintomáticos ou curados e, portanto, o alto número de casos de covid-19 no Amazonas e Ceará pode ter relação com a precariedade do saneamento básico, propiciando a contaminação via oral-fecal das populações que convivem com esgoto ou sem água tratada: “O vírus continua sendo secretado pelas fezes mesmo após a pessoa ter sido curada e mesmo em pessoas que estão assintomáticas. Isso representa um risco enorme para um país em que o saneamento básico é precário, porque pode sim acontecer algo que é chamado de contaminação fecal-oral, ou seja, as pessoas ingerirem o vírus por meio das fezes”.

Dados de 2018 do Instituto Trata Brasil evidenciam as regiões Norte e Nordeste como precárias em relação ao saneamento básico, o que a professora diz ser um dos fatores principais para que o Amazonas e o Ceará tenham alta contaminação por covid-19: “87,5% da população de Manaus não tem acesso à coleta de esgoto. De uma forma ou de outra, as pessoas estão, no seu cotidiano, lidando com seus excrementos e com os dos outros, ou seja, com fezes e urina dispersas no ambiente ou na água. Quando a gente olha o Estado do Ceará, que, depois de São Paulo e Rio, é o Estado que se destaca em quantidade de pessoas contaminadas, tem dois elementos sobrepostos, o que é gravíssimo: falta de coleta de esgoto e falta de tratamento de água”.

Informalidade

A alta taxa de informalidade do trabalhador amazonense também contribuiu para menor capacidade de manter o isolamento físico, o que levou ao aumento da exposição ao vírus. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado em junho, mostram que em maio, 1 milhão e 307 mil pessoas estavam ocupadas no Amazonas, embora 2 milhões e 955 mil estivessem em idade para trabalhar.

Isso significa que menos da metade (44,2%) estava trabalhando no mês passado, em todo o Estado, sendo 641 mil trabalhadores na informalidade. Segundo a Organização das Nações Unidas, como a maioria dos trabalhadores informais não tem outra fonte de renda, enfrenta um dilema quase insolúvel: morrer de fome ou arriscar se infectar pelo vírus.

Embora o Auxílio Emergencial, programa criado para beneficiar pessoas em situação de vulnerabilidade durante a pandemia tenha sido aprovado para 1,2 milhões de pessoas no Amazonas, a demora no pagamento do benefício e as aglomerações nas agências da Caixa Econômica Federal fatalmente agravaram o contágio.

A série

A série “A Covid-19 no Amazonas” é dividida em seis partes e busca analisar os principais fatores já conhecidos que explicam o avanço tão rápido e devastador da pandemia do novo coronavírus no Estado.

Na próxima semana

Sempre negligenciado pelo poder público, a situação do interior do Amazonas era como um copo prestes a transbordar. E a chegada da Covid-19 representou uma tempestade.

Foto: Secretaria Municipal de Comunicação (Semcom)

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