A Covid-19 no Amazonas – Parte 02: A morte vem pelo rio

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O primeiro caso de Covid-19 no Amazonas foi confirmado em coletiva de imprensa na sede do governo do Estado no dia 13 de março de 2020, uma sexta-feira. Tratava-se de uma paciente de 39 anos, que voltava de viagem da Inglaterra, na época, um dos países mais atingidos pela doença. Embora ainda existam dúvidas se esse caso foi realmente o chamado “paciente zero” ou se o vírus já circulava antes em nossa região, já se sabe o principal disseminador do vírus pelo Estado: os transportes fluviais.

Antes mesmo da confirmação do primeiro caso, o governo do Estado já estava em alerta. “No segundo semestre de 2019, como todo ano, a Fundação de Vigilância em Saúde se prepara para o período de sazonalidade das síndromes respiratórias comuns. Quando foi descoberto o novo coronavírus, incluímos essa ameaça no nosso planejamento”, afirma explica a diretora-presidente da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM), Rosemary Pinto.

Dois dias antes da descoberta do primeiro caso a Organização Mundial de Saúde declarava que o surto do novo coronavírus era uma pandemia. Assim, as autoridades locais procuram impedir o avanço do patógeno bloqueando as viagens pelo interior. Sete dias depois, no dia 20 de março, já com três casos confirmados, o governador Wilson Lima proibiu as viagens de barcos interestaduais. Foi quando encontrou obstáculos inesperados: a justiça estadual e o presidente Bolsonaro.

Batalha jurídica

No dia 27, o Tribunal Regional da 1ª Região suspendeu a decisão liminar da Justiça Federal do Amazonas que paralisava o transporte de passageiros em rios do Estado. A medida atendeu pedido da Advocacia-Geral da União (AGU), em virtude da Medida Provisória (MP) 926, editada pelo Governo Federal em 20 de março, condicionou a restrição de passageiros em rodovias, portos e aeroportos a um “parecer técnico” da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o que impediria o cumprimento efetivo do decreto estadual.

Para garantir a efetividade da suspensão do transporte fluvial de passageiros no Amazonas, as Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) e Defensoria Pública da União (DPU) ingressaram com uma ação na Justiça Federal e obtiveram liminar que considerou inconstitucional trecho da MP 926 que condicionava a restrição no transporte ao um parecer da Anvisa. A decisão judicial, assinada pela juíza Jaiza Fraxe, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), no dia 23 de março, cita um possível “extermínio de toda a população” e “genocídio de povos indígenas por contaminação de Covid-19”, se o fluxo de pessoas permanecesse normal.

A disputa só terminou no dia no dia 30 de março, quando o desembargador do TRF1, Jirair Aram Meguerian, cassou a decisão que havia liberado o transporte. “A catástrofe era iminente. Em média, quase 10 milhões de pessoas usam o transporte fluvial na região amazônica para se locomover. Estamos lutando para evitar a disseminação do coronavírus e proteger a população do Amazonas. Do contrário, é uma tragédia anunciada”, disse o defensor geral do Amazonas, Ricardo Queiroz de Paiva, à época. O transporte fluvial de passageiros no Amazonas só foi liberado no dia 29 de junho, por decisão da desembargadora Maria do Carmo Cardoso, também do TRF1.

Mesmo com todo o imbróglio jurídico, pelo menos 1.200 vidas foram salvas e 123 mil pessoas deixaram de ser infectadas pelo novo coronavírus por conta da suspensão do transporte fluvial de passageiros. A informação veio do relatório de pesquisa da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), realizada pelo subcomitê de combate à Covid-19 da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC), coordenado pelo professor doutor Renan Albuquerque. A essa altura, porém, a doença já estava muito mais longe do que se imaginava.

Fora de controle

No mesmo dia 27 de março, quando toda a confusão pelo bloqueio dos rios se desenhava, 8% dos municípios do Amazonas já registravam os primeiros infectados pelo Sars-Cov-2, mais precisamente nas cidades de Manacapuru (2), Parintins (2), Santo Antônio do Içá (1) e Boca do Acre (1). A grande surpresa para as autoridades de saúde do Estado, porém, foi o alcance em distância do vírus. “Não esperávamos que a doença chegasse tão rápido em localidades distantes mais de mil quilômetros de Manaus em pouco mais de 15 dias. Acreditávamos que o problema imediato seria a região metropolitana da capital. Entendemos, então, que o vírus estava se locomovendo de barco”, explica a diretora-presidente da FVS-AM, Rosemary Pinto.

Rosemary é categórica ao afirmar que essa disputa burocrática foi decisiva para que o vírus se espalhasse por localidades ainda mais distantes do interior. “Ao tomar essa decisão, entramos em contato com os prefeitos e secretários de saúde dos municípios e todos concordaram em colaborar, fechando seus portos, mas com a medida do governo federal e essa indefinição se abre ou fecha, muitos se sentiram livres para burlar esse bloqueio”, lamentou.

A partir daí, a situação saiu totalmente do controle. No dia 11 de abril, pouco menos de um mês depois do primeiro caso confirmado, nada menos do que 27% dos municípios do Amazonas já contavam com registro de pelo menos um caso confirmado. Apenas dez dias depois, o número saltou para impressionantes 77% de todas as cidades. No dia 13 de maio, o novo coronavírus estava presente em praticamente todo o Estado, com 58 municípios (94%) afetados.

A situação é mais grave analisando a metodologia adotada pelo governo estadual para monitorar os casos. Até o momento, a Secretaria de Saúde do Amazonas (Susam) testa somente os casos graves ou com sintomas severos por RT-PCR, método que detecta o vírus ativo no organismo. Como em média apenas entre 5% a 15% desenvolvem sintomas mais severos da Covid-19, apenas uma parte dos infectados está sendo testada. Isso significa que, para uma pessoa testar positivo em Boca do Acre, por exemplo, é bem provável que 80% de outros pacientes positivos não entrem nas estatísticas.

Até o fechamento desta matéria (26/07), dos 96.094 casos confirmados no Amazonas até este sábado (25/07), 33.585 são de Manaus (34,95%) e 62.509 do interior do estado (65,05%). Entre pacientes em Manaus, há o registro de 1.985 óbitos confirmados em decorrência do novo coronavírus. No interior, são 56 municípios com óbitos confirmados até o momento, em um total de 1.225.

Barcos + aglomerações + tempo = contágio

Quanto mais próximas por um longo período de tempo, mais o Sars-Cov-2 se espalha. Em ambientes fechados, isso se torna um problema ainda maior. Daí a facilidade como as longas viagens de barco pelo interior do Amazonas favorecem o contágio. “Uma das características marcantes das viagens de barco é a proximidade das pessoas. Elas dormem em redes [sem separação por quartos] e o espaço é limitado. Por mais que exista ventilação, são tantas partículas virais transmitidas diretamente para as vias respiratórias de outras que isso não resolve”, explica o Dr. Antonio Magela, Infectologista e diretor de assistência médica da Fundação de Medicina Tropical Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD).

No próximo domingo – A Organização Mundial de Saúde é categórica ao afirmar que uma das principais formas de combater o novo coronavírus é o simples ato de lavar as mãos. Mas como fazer isso sem água?

Foto: Secretaria de Estado da Comunicação (Secom)

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