Cotidiano

Entenda como funcionam os testes da Covid-19

A pandemia do novo coronavírus paralisou atividades no mundo todo, trouxe o caos aos sistemas de saúde e se mostra uma ameaça enquanto não surgir um tratamento verdadeiramente eficaz e/ou uma vacina que proteja a humanidade. Enquanto isso não acontece, o isolamento social é a única arma verdadeiramente eficiente contra o vírus.

No entanto, para entender e frear a disseminação da doença é fundamental saber quem está doente. Assim é possível adotar medidas efetivas como isolar corretamente os infectados e grupos de risco, programar a distribuição de leitos hospitalares, além de permitir às pessoas que atuam em serviços essenciais e que já foram infectados e sobreviveram, retomar suas atividades com a devida segurança.

Aí surge um novo desafio: pela própria natureza ainda desconhecida do SARS-CoV-2, nome científico do novo coronavírus, além do tratamento e das possíveis vacinas, os testes também são alvo de muitas dúvidas e especulações. Para tentar entender como funcionam e como utilizar cada um corretamente, o Vocativo.com entrevistou esta semana Priscilla Franklim Martins, diretora-executiva da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abrame) para entender o tema. Confira:

Vocativo.com: Vamos começar pelo básico: quais são os testes hoje disponíveis e como eles funcionam?

Priscilla Franklim MartinsHoje temos disponíveis alguns modelos diagnósticos para COVID-19. O padrão ouro recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para identificação da infecção pelo novo coronavírus na fase aguda da doença é o teste molecular RT-PCR, exame de alta complexidade que é realizado em laboratórios especializados por meio de uma amostra colhida prioritariamente das vias respiratórias dos pacientes. É o teste que consegue identificar o RNA do vírus, ou seja, confirma se aquele paciente está ou não está infectado já nos primeiros dias após o contágio.

Paralelamente temos os testes sorológicos que trabalham com um diagnóstico diferente pois são capazes de identificar, em amostras sanguíneas, os anticorpos do SARS-CoV-2. Isso significa que se esse teste for realizado nos primeiros dias da infecção, dentro da janela imunológica, possivelmente dará um falso negativo, gerando uma sensação equivocada de segurança naquele paciente. O recomendado é que esses testes (nos quais estão incluídos os testes rápidos) sejam realizados no mínimo oito dias após os primeiros sintomas, que é o tempo médio que o corpo humano demora para desenvolver anticorpos.

Vocativo.com – Qual a confiabilidade desses testes?

Priscilla Franklim MartinsO RT-PCR, teste molecular, tem alta confiabilidade, justamente por isso foi definido pela OMS como o padrão ouro. Já os testes sorológicos também são confiáveis desde que sejam realizados seguindo as recomendações das sociedades científicas.

Além disso, experiências internacionais já nos mostraram que muitos kits de diagnóstico são falhos. A Espanha, por exemplo, teve de devolver lotes de testes importados após perceber que eles não apresentavam resultados corretos. A fim de evitar esse tipo de frustração, o Brasil trabalha na validação dos kits de diagnóstico registrados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No âmbito da saúde pública, a validação é feita pelo Ministério da Saúde por meio do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS), da FioCruz. Já no setor privado, uma força-tarefa entre a Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), a Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL), a Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC) e a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML), junto com uma rede de laboratórios, está executando as análises e disponibilizando os resultados em www.testecovid19.org.

Vocativo.com – Por que há tantos problemas na testagem do novo coronavírus?

Priscilla Franklim MartinsO SARS-Cov-2 é um vírus novo e foi necessário trabalhar com agilidade para entender a infecção e, assim, criar métodos que possibilitariam diagnosticá-la. Logo que o surto chegou ao Brasil, alguns poucos laboratórios públicos e privados iniciaram uma movimentação para desenvolvimento in house dos primeiros exames moleculares para diagnóstico da COVID-19. Na sequência, a indústria fornecedora dos insumos, tanto nacional quanto internacional, também otimizou sua produção para suprir a alta demanda mundial.

Agora, com a popularização dos testes rápidos, é possível ampliar a quantidade de testes, mas sem esquecer jamais de priorizar a segurança dos resultados e, consequentemente, da população aplicando testes confiáveis e respeitando todas as recomendações dos especialistas. Resultados falso positivo ou falso negativo colocam as estratégias de contenção do vírus em risco.

Vocativo.com – Qual seria a solução para isso?

Priscilla Franklim MartinsTodos precisam entender quando e qual modelo diagnóstico deve ser aplicado em cada caso. Na fase inicial da infecção, ou seja, poucos dias após o aparecimento dos sintomas, o RT-PCR, exame molecular, é o mais confiável para identificar a COVID-19. Posteriormente, pelo menos oito dias após o surgimento do primeiro sintoma, é possível trabalhar com o teste sorológico.

Além disso, existem diferentes tipos de testes sorológicos, alguns qualitativos, que apontam positivo ou negativo, e outros quantitativos que conseguem identificar o nível de anticorpos e, assim, entender em que fase da infecção o paciente está.

Cada modelo diagnóstico tem seu valor dentro do contexto de uma pandemia. Se aplicado de forma correta, seguindo a estratégia, todos contribuirão para o melhor cenário. O uso indiscriminado e sem seguir os padrões de segurança coloca a população em risco e maquia os números oficiais. A solução é sempre garantir que os testes sejam aplicados por profissionais capacitados, que analisam o histórico clínico do paciente a fim de entregar um resultado confiável.

Vocativo.com – Qual seria a melhor estratégia de testagem para o poder público?

Priscilla Franklim MartinsAinda não atingimos, no Brasil, o pico da curva de infecção pelo novo coronavírus. Isso significa que precisamos continuar priorizando os testes para os profissionais de saúde. Segundo o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), por exemplo, temos mais de 15 mil profissionais de enfermagem afastados do trabalho por suspeita de COVID-19 e garantir que esses trabalhadores sejam testados é possibilitar que eles retornem ao trabalho com segurança, ampliando a força de atendimento à população.

Paralelamente, os casos graves dos pacientes internados nos hospitais brasileiros devem continuar sendo testados por meio do RT-PCR. E os testes sorológicos serão ainda mais valiosos para uma próxima fase da pandemia, quando chegarmos à imunidade de rebanho, ou seja, quando tivermos uma maioria de brasileiros possivelmente imunizada.

Portanto, a recomendação é que os exames de diagnóstico de COVID-19 sejam solicitados pelos médicos, profissionais com a competência necessária para avaliar cada caso e definir a necessidade ou não de diagnóstico laboratorial. Se você tiver tosse e febre, por exemplo, a recomendação é que permaneça em casa, em repouso, se alimentando bem e, principalmente, em isolamento. Caso apresente falta de ar, deve procurar uma unidade de saúde.

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