Brasil

Opinião: Bolsonaro e sua síndrome de Chapolin Colorado

Muito provavelmente você já viu a cena abaixo alguma vez na sua vida:

Fonte: Televisa

Caso o vídeo não esteja mais no ar, ele traz um trecho do antigo seriado “Chapolin Colorado”, imortalizado pelo comediante mexicano Roberto Bolaños. Na cômica cena, o personagem é incentivado a fazer algum ato perigoso que exige muita coragem, enrola o quanto pode pra disfarçar a covardia e acaba não fazendo nada. A cena é muito parecida com as últimas atitudes de Jair Bolsonaro.

Neste domingo (19), o presidente e seus apoiadores deram mais um show patético de retórica fascista ao promover carreatas pedindo intervenção militar e o fim do isolamento social que vem sendo adotado no combate a pandemia do novo coronavírus. Apesar da perplexidade da opinião pública do país, as manifestações deste domingo mostram muito mais fraqueza e insegurança do que força.

Ora, Bolsonaro já é presidente há mais de um ano. Ele já é chefe oficial das Forças Armadas. Seu governo já é composto por vários militares. O clamor de seus apoiadores para o golpe é antigo, antes mesmo da sua candidatura. O próprio presidente, apologista antigo da ditadura militar, veio a público durante esta semana dizer que há um complô do Congresso e Supremo Tribunal Federal (STF) contra o seu governo. Ou seja, o inimigo já tem inclusive um rosto. O que falta, então, para que o golpe aconteça?

Enquanto era candidato, era compreensível que Bolsonaro fizesse ameaças e promessas, ora veladas ora não, de um golpe de Estado e não as cumprisse. Afinal, ele não tinha o poder. Cabia usar a falácia de ser um candidato “fora do sistema”. Não lhe cabe mais. As ferramentas para o golpe, ele já tem. Ou não?

A reação meramente protocolar de adversários como o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, ministros do STF e governadores é um forte indício de que, na prática, ninguém o leva a sério. Já é um comentário frequente nas colunas de bastidores políticos de sites com correspondentes em Brasília que a tática dos caciques políticos é deixá-lo falando sozinho.

Mas a prova da fraqueza de Bolsonaro é o silêncio constrangido das Forças Armadas. Suas assessorias já avisaram que nenhuma nota será emitida. Compreensível, já que dentro da hierarquia militar, não convém contestar publicamente o chefe.

Por outro lado, também não há o mais singelo comentário, absolutamente nenhuma adesão, nem para uma selfie sequer durante as carreatas, que se concentraram na entrada dos quartéis. Mesmo o vice, general Hamilton Mourão segue desaparecido em pleno dia do exército. Há também uma clara preocupação: a pandemia.

Até o fechamento deste editorial, quase 500 militares já estavam afastados das suas funções por contaminação com a Covid-19. Já há mortes registradas e outras provavelmente virão. Afinal, a categoria atua em conjunto com profissionais de saúde no apoio logístico. Muitos viajarão para Estados e outros países ainda em surto ascendente da doença para fazer carregamentos de insumos médicos. E de lá voltarão para suas casas e quartéis.

É muito fácil ignorar a pandemia na segurança de mansões ou no palácio do Planalto, com a segurança de ter os melhores hospitais do país à disposição caso desenvolva a Covid-19. Aos soldados e oficiais menores e suas famílias, restarão os hospitais militares e o próprio SUS, já em colapso. Quem será louco de encampar um golpe de Estado para tirar pessoas de casa e se expor a um vírus sem tratamento e vacina?

Assim, seus adversários políticos precisam apenas esperar e tomar medidas para diminuir ao máximo os efeitos da pandemia na população. Ao deixar Bolsonaro e suas hienas falando sozinhas, sua fraqueza e insignificância ficam evidentes. A queda da popularidade do presidente, registrada em pesquisas de opinião, também reflete isso. Nada mais desmotivador que um ditador sem força.

E assim continuamos com a cena de comédia pastelão. Os apoiadores de Bolsonaro pedem o golpe, ele age exatamente como Chapolin Colorado e diz: “Sim, vou dar o golpe…”

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