Amazonas

Entenda a rede de “fake news” e os interesses por trás do ataque aos pesquisadores da FMT


Um grupo de pesquisadores da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas passou a sofrer ameaças de morte e ataques virtuais durante esta semana. Eles trabalham no estudo CloroCovid-19, que estuda os efeitos da cloroquina em pacientes com a Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. O grupo passou a ser alvo de ataques após uma série de publicações acusarem os cientistas de matar pacientes do estudo usando altas doses de cloroquina. Motivo seria desqualificar o uso do medicamento por supostas razões políticas.

Os dados preliminares do estudo produzido no Amazonas apontam para a falta de evidências que a cloroquina tenha a capacidade de evitar que as pessoas adquiram o novo coronavírus ou mesmo desenvolvam o quadro mais grave da Covid-19. Pior: apresenta risco de morte se ministrada em doses muito altas, principalmente para portadores de problemas no coração.

Os responsáveis por esses boatos são apoiadores dos presidentes Donald Trump (EUA) e Jair Bolsonaro (Brasil) que defendem o uso indiscriminado do medicamento para combater a Covid-19, contrariando as recomendações de cautela por parte comunidade científica do planeta.

A rede de “fake news”

A fonte da acusação foi o lobbista norte-americano Mike Coudrey, que publicou o boato em seu Twitter acusando os pesquisadores de matar pacientes usando doses mais altas da cloroquina na tentativa de desqualificar o uso do remédio no tratamento dos pacientes da Covid-19.

A partir daí, foi produzida uma matéria no site Terça Livre, do blogueiro bolsonarista Alan dos Santos, associando os autores da pesquisa ao Partido dos Trabalhadores (PT), principal adversário político do presidente Bolsonaro. Detalhe: nenhum dos pesquisadores foi ouvido pelo Terça Livre, ignorando o princípio básico do jornalismo de ouvir todas as partes envovidas em uma matéria. O texto foi replicado e repercutido em nível local pelo site de notícias amazonense CM7, da publicitária, ex-candidata a deputada estadual e também bolsonarista Cileide Moussallem Rodrigues.

Em outra frente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho presidente, usou sua conta no Twitter para replica uma montagem com as fotos dos participantes da pesquisa (alguns inclusive ao lado de seus filhos pequenos) com avatares do Facebook contendo imagens de apoio ao então candidato Fernando Haddad (PT), adversário de Bolsonaro nas eleições de 2018. Não há, no entanto, comprovação sequer de que tais imagens sejam reais.

Desde então, apoiadores do presidente Bolsonaro, conhecido como “gabinete do ódio”, entraram em ação. O grupo, também chamado pelos integrantes da CPMI das Fake News de “milícia digital” têm promovido uma série de ataques virtuais de toda espécie aos pesquisadores, incluindo ameaças de morte, além da invasão das suas privacidades. Alguns membros da equipe médica de chegaram a receber escolta policial.

Ligação suspeita

Jair Bolsonaro segue a narrativa do presidente norte-americano Donald Trump, principal defensor do uso indiscriminado da clorquina em pacientes com a Covid-19. Ambos defendem o us mesmo sem comprovação científica da eficácia do medicamento. Contudo, tal defesa incansável pode ter outros motivos.

Conforme apuração do jornal norte-americano The New York Times, Trump possui uma participação financeira na Sanofi, empresa francesa que é uma das maiores fabricantes da cloroquina do mundo. Um das maiores acionistas da organização é uma empresa gerida por Ken Fisher, grande doador do Partido Republicano, do qual Trump é membro.

No Brasil, o medicamento composto por hidroxicloroquina é produzido pela Apsen, empresa farmacêutica que tem como dono um grande entusiasta do bolsonarismo. A Apsen, que registrou lucro de R$ 696 milhões em 2018, produz o Reuquinol, que Bolsonaro mostrou até para os líderes do G-20 por teleconferência. Presidente da empresa, Renato Spallicci faz apaixonada defesa do mandatário do país, Jair Bolsonaro, e críticas ao PT em suas redes sociais abertas como Instagram e Facebook.

O histórico dos autores

O presidente Donald Trump iniciou a campanha para o uso indiscriminado da cloroquina utilizando um tuíte (abaixo) do dia 18 de março, justamente de Michael Coudrey, autor do boato que culminou nos ataques aos cientistas brasileiros. Coudrey, que se define como empreendedor e ativista, usou um gráfico de um estudo produzido na França que testou apenas 36 pacientes, e não foi revisado por outros cientistas. Enquanto o trabalho da FMT testou mais que o dobro de pessoas (81) e teve revisão por outros cientistas e foi publicado em plataformas oficiais.

Dono do blog Terça Livre, onde foi feita a publicação que associou, sem provas, membros do grupo de pesquisa ao PT, Allan dos Santos (foto abaixo) é investigado pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News. Santos é apontado como um grande disseminador de notícias falsas na internet, inclusive para beneficiar o presidente da República, Jair Bolsonaro, desde a campanha eleitoral de 2018.

Foto: Agência Senado

Em depoimento no Senado, Allan chegou, inicialmente, a concordar com pedido para autorizar a quebra do seu sigilo bancário e fiscal. Porém, voltou atrás. Allan disse que recebe doações por meio das redes sociais e que não há como identificar quem contribui, mas que paga impostos sobre esse valor.

O blogueiro ainda se negou a responder perguntas do deputado Alexandre Frota (PSDB-SP), e confirmou que uma das profissionais que compõem a sua equipe como freelancer, a jornalista Fernanda Salles Andrade, também é assessora do deputado estadual Bruno Engler (PSL), na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Recentemente, o Twitter deletou postagens de Santos que questionavam informações divulgadas por órgãos de saúde pública a respeito da pandemia do novo coronavírus.

Já o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) também tem uma extensa ficha de acusações de desinformação. Documentos fornecidos pelo Facebook à CPMI das Fake News indicam a ligação entre o gabinete do deputado e ataques virtuais contra parlamentares e ex-ministros críticos ao governo do presidente Jair Bolsonaro. Eduardo sempre se posicionou alinhado ao discurso de Donald Trump, inclusive se envolvendo incidente diplomático com a China durante a pandemia.

Foto: Agência Câmara

A motivação política na origem do boato envolvendo os pesquisadores locais também parece existir em nível local. A publicitária bolsonarista do blog CM7, Cileide Moussallem Rodrigues, coleciona dezenas de condenações em causas trabalhistas, como pode ser conferido no link, além de acusações e indiciamentos em processos que vão desde propaganda eleitoral irregular até agressão física. Cileide concorreu ao cargo de deputada estadual em 2018 pelo Partido Humanista Da Solidariedade (PHS) e tem patrimônio declarado à Justiça Eleitoral de R$ 3.130.013,00.

Foto: Reprodução / Facebook

Reação

Diversas entidades de pesquisa do país manifestaram solidariedade ao grupo CloroCovid-19. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) lembraram que a pesquisa foi aprovada pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) e que todos os participantes dos ensaios clínicos, ou seus responsáveis, assinam termos de responsabilidade e estão cientes dos riscos.

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) considerou inaceitáveis os ataques e pediu pela tranquilidade e segurança de seus pesquisadores. A Fiocruz afirmou ainda apoiar incondicionalmente e garantiu que todos estão absolutamente comprometidos com a ciência e com a busca de soluções para o enfrentamento dessa pandemia.

O grupo é composto por profissionais da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT_HVD), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), da Universidade de São Paulo (USP) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), atua há mais de 20 anos no desenvolvimento de pesquisas em malária, HIV/Aids, tuberculose, acidentes por serpentes e outras doenças emergentes e contam com o reconhecimento internacional, inclusive da Organização Mundial da Saúde (OMS).

A Secretaria de Segurança-Pública do Amazonas (SSP-AM) e a Polícia Civil informaram, nesta quinta-feira (16), que investigam ameaças de morte feitas aos profissionais..

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