Interesse Público

Floresta Amazônica reduz capacidade de absorção de carbono chegando à quase zero

Há cerca de 20 anos, a floresta amazônica era considerada um sumidouro de carbono, retendo todos os anos meia tonelada de carbono por hectare

Fundamental para a estabilidade do clima do planeta, a floresta amazônica, que até alguns anos absorvia carbono em quantidades muito significativas, reduziu essa capacidade e hoje está chegando à zero. Os cientistas consideram a situação preocupante. Em um cenário futuro de mudanças climáticas, em que eventos extremos de secas e grandes inundações são mais frequentes, é possível que a floresta comece a perder carbono para a atmosfera piorando o já grave aquecimento global.

O alerta foi feito no Workshop “As dimensões científicas, sociais e econômicas do desenvolvimento da Amazônia”, na última quinta-feira (16), no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC). O evento foi organizado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Inpa e Instituto Wilson Center.

As pesquisas na região mostram que a Amazônia é um ecossistema altamente crítico no clima global, controlando o ciclo hidrológico, a chuva sobre a própria Amazônia e sul do Brasil, e que armazena uma quantidade enorme de carbono. A ciência estima que a Bacia Amazônica abrigue 16 mil espécies de plantas arbóreas. Já se sabe também que a estação seca na Amazônia está se ampliando em seis dias por década, o que pode parecer pouco, mas é uma alteração significativa.

Segundo o coordenador do workshop e professor da Universidade de São Paulo, Paulo Artaxo, a floresta amazônica até cerca de 10 a 20 anos fazia um serviço ambiental muito importante de reter todos os anos meia tonelada de carbono por hectare. Este serviço ambiental agora está indo para zero.

“Nosso medo é que, a partir de agora, a floresta, além de perder carbono para a atmosfera, e como ela corresponde a dez anos da queima de combustíveis fósseis, perca mais 2%, 3% ou 4% do carbono, pois isso vai aumentar muito o efeito estufa”, disse Artaxo, que também é gerente científico do Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA/Inpa/MCTIC).

Segundo o cientista, hoje a floresta é neutra do ponto de vista do carbono. Mas se forem diminuídas as emissões haverá possibilidade de voltar a ter a floresta retendo mais carbono do que emite. “É por isto que temos de lutar hoje”, afirmou.

As florestas tropicais são o lugar do mundo em que mais se estoca carbono na Terra. O carbono é o quarto elemento mais abundante na atmosfera e é um dos gases de efeito estufa. De acordo com o pesquisador da USP, Luiz Martinelli, se a floresta faz mais fotossíntese do que ela perde carbono pela respiração, essa floresta tende aumentar sua biomassa.

“É disso que estamos precisando, porque, devido ao grande aporte de carbono e CO2 na atmosfera pela queima de combustíveis fósseis, o clima da Terra está mudando. Então, é extremamente benéfico para o clima que a Amazônia continue limpando esse excesso de carbono na atmosfera, mesmo que lentamente”, explicou Martinelli.

As pesquisas apoiadas pela Fapesp e realizadas em colaboração com o Inpa serão apresentadas em um Workshop nos mesmos moldes deste de Manaus em Washington, no dia 25 de setembro. A proposta é apresentar para o Banco Mundial e o Fundo Amazônia quais as necessidades de pesquisas que se tem na Amazônia atualmente.

Ponto de não retorno

De acordo com a pesquisadora do Inpa, Maria Teresa Fernandez Piedade, empresários, políticos e tomadores de decisão precisam entender que a devastação da Amazônia está chegando a um ponto de não retorno, e que isso será prejudicial para todos. Há fortes componentes atuando no desmatamento em níveis muito altos, juntamente com mudanças climáticas globais e ainda uma ação continuada de fogo.

Estudos mostram que a floresta já foi desmatada em 20% e se aumentar mais cinco pontos percentuais vai perder sua resiliência, alterando o ciclo hidrológico de maneira irreversível – ponto de não retorno, conforme artigo publicado na revista Science Advances assinado pelo professor da George Mason University, nos Estados Unidos, Thomas Lovejoy, que participou do Workshop via vídeo, e o coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas, o brasileiro Carlos Nobre.

“Esse conjunto de pressões, que antigamente não se considerava como interagindo nos modelos, agora mostra que com 25% de desmatamento da região algumas partes da Amazônia vão atingir um ponto no qual a cobertura vegetal será transformada em um tipo de vegetação mais aberta e pobre em espécies, no processo chamado de savanização. E esse processo não vai ser revertido de forma banal”, alerta Piedade, que é coordenadora do projeto Pesquisa Ecológica de Longa Duração – Ecologia, Monitoramento e Uso Sustentável de Áreas Úmidas (Peld/Maua).

Na parte central da Amazônia, onde se encontra Manaus, há previsões de modelos climáticos que mostram que a temperatura pode aumentar 5°C até 2050.

Valor econômico dos serviços ambientais

O Brasil não recebe compensação financeira pelos serviços ambientais que a Amazônia realiza. Só os serviços ambientais produzidos na América do Sul são estimados em 14 trilhões de dólares.

“Não há dúvidas de que, do ponto de vista econômico, o vapor de água que Amazônia processa e se transforma em chuva irrigando as culturas de soja no Mato Grosso, culturas de alimento no Rio Grande do Sul, Goiás e em São Paulo, todo esse serviço ambiental vale trilhões de dólares”, afirmou o pesquisador Paulo Artaxo.

Nas próximas décadas, as previsões são de alterações profundas no planeta que afetarão a economia do mundo, e o Brasil precisa se adaptar para esse novo cenário, segundo os cientistas, com a implementação de políticas públicas, melhorando a sustentabilidade, e implantando outras matrizes energéticas como solar e eólica, para as quais o Brasil tem grande potencial.

“Hoje a mais importante dessas políticas é reduzir a taxa de desmatamento da Amazônia que está em cerca de 8 mil km2 por ano, quando era há três anos de 4,5 mil km2 por ano. Essa taxa está aumentando e precisamos urgentemente reduzir o desmatamento na Amazônia até chegar ao desmatamento zero, e isso é possível”, destacou Artaxo.

Com informações da assessoria de imprensa do Inpa. Foto: EBC
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