Cotidiano

O problemático quadro da divulgação científica no Brasil

Nesta segunda-feira (14) completaram-se dois meses da morte do físico britânico Stephen Hawking (foto). Físico teórico, astrofísico, cosmólogo, Hawking ganhou destaque pela superação de uma doença vinculada à Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) e também por ser um grande divulgador da ciência pelo mundo. No entanto, no mesmo mês de sua morte, foi divulgada uma pesquisa global mostrando que as pessoas, principalmente os brasileiros, tem cada vez menos familiaridade com o tema.

A democratização do conhecimento foi um dos grandes legados de Stephen Hawking ao escrever seu best-seller “Uma Breve História do Tempo”, lançado em 1988, explicando diversos temas ligados à Cosmologia de maneira didática ao leitor não especialista no assunto, como a Teoria do Big Bang, buracos negros e a teoria das Supercordas.

“Seu trabalho tem uma notoriedade relevante porque visa uma compreensão mais completas dos fenômenos do universo. Vida e morte de estrelas, espaço-tempo, buracos negros e Big Bang são alguns dos fenômenos que intrigam os cientistas nas ultimas décadas e Hawking pode avançar na compreensão desses fenômenos. Nessa área, ele foi capaz de manter a discussão sobre esses temas sempre aquecidas na comunidade científica”, explica Fabrício Cortezi, coordenador do Sistema de Ensino pH, que utilizam técnicas para o compreensão da ciência para o público de todas as idades.

A ciência e o brasileiro

Um estudo global da 3M, empresa internacional especializada em soluções para as necessidades do dia-a-dia,  revelou que a ciência é subestimada pela população e precisa de defensores. De acordo com o primeiro Índice Anual da Situação da Ciência (State of Science Index – SOSI) divulgado neste mês de março pela 3M, muitas pessoas não conseguem visualizar o impacto que a ciência tem em suas vidas: 38% dos entrevistados acreditam que a vida cotidiana não seria muito diferente se a ciência não existisse. Além disso, quase um terço (32%) dos participantes da pesquisa é cético em relação à ciência e 20% não confiam em cientistas. O estudo envolveu 14 países, incluindo o Brasil.

Outro estudo, realizada em 2015 pelo Centro de Gestão em Estudos Estratégicos (CCGE) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que virou livro em 2017, mostra um dado ainda mais estranho: o brasileiro até tem interesse, mas se mostra completamente desinformado sobre ciência. No estudo, 61% dos entrevistados se declaram interessados ou muito interessados pelo tema, índice superior ao demonstrado para esportes (56%), arte e cultura (57%), e política (28%). Dentre os assuntos listados na enquete, o interesse em ciência e tecnologia perde apenas para meio ambiente (78%), medicina e saúde (78%), religião (75%) e economia (68%), sendo que os dois primeiros têm forte relação com ciência e tecnologia.

Comparado ao resultado de enquete semelhante realizada em 2010 pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e pelo Museu da Vida (Casa de Oswaldo Cruz/FioCruz), o interesse pelo ciência sofreu ligeira queda (de 65% em 2010 para 61% em 2015). Já a falta de informação permanece alta. Em 2010, 71% dos muito interessados em ciência e tecnologia não souberam informar o nome de nenhuma instituição científica do Brasil e 82% não conheciam o nome de nenhum cientista brasileiro.

A dificuldade em lidar com a ciência

Parte do problema com a divulgação científica no Brasil está diretamente ligado ao modo como aprendemos sobre ela ainda na escola. “No colégio, tanto no ensino fundamental e no ensino médio, ter as disciplinas segmentadas dificulta muito os temas interdisciplinares. Como estudamos física, química e biologia segmentados, os estudantes tem uma tendencia natural a encaixar os fenômenos naturais em alguma dessas disciplinas, quando na verdade deveríamos pensar nas ciências da natureza como um todo, e ainda, com a matemática permeando esse campo”, pondera Fabrício Cortezi.

De acordo com o professor, essa visão “macro” ainda precisa ser utilizada em maior escala no ensino brasileiro. “Muitos temas de ciência parecem distantes ao nosso cotidiano, quando na verdade, não estão. Nós estamos inseridos na natureza e por isso todos os temas a ela relacionado está perto de nós. Quanto caminharmos para termos uma formação mais integradora, discutindo livremente os fenômenos em sala de aula quando jovens, e esses temas forem corriqueiros nas rodas de conversas na vida adulta, esse cenário tende a melhorar”, alerta.

Falta de espaço

Outro problema para a falta de familiaridade com a ciência é a falta de espaços que tratem do assunto. “Faltam espaços para que o cidadão seja exposto a esse conhecimento e a ciência raramente aparece em espaços jornalísticos. E quando são expostos, ainda utilizam linguagem que dificulta ainda mais a sua compreensão. Esse quadro não é uma surpresa”, explica Rita Mesquita, pesquisadora do Instituto de Pesquisas da Amazônia (INPA).

Queda nos investimentos

Como se não bastasse todos esses problemas, o Brasil também sofre com a queda de investimentos no setor. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência afirmou em audiência na Câmara dos Deputados em outubro de 2017 que o orçamento de investimentos do setor passou de R$ 8,4 bilhões em 2014 para R$ 3,2 bilhões ano passado e para 2018, o programado é ainda menor, de R$ 2,7 bilhões.

Essa diminuição terá impacto direto nas alternativas de desenvolvimento do país. “A ciência está a serviço do país. É ela que se propõe a resolver os nossos problemas do cotidiano, como questões de saúde, de alimentação, qualidade de vida e outras temáticas. Quando você diminui a quantidade de ciência que é produzida, você diminui essas alternativas de soluções”, alerta Rita Mesquita.

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