Opinião

Opinião: a tragédia de Manaus não tem apenas Jair Bolsonaro como responsável

Que fique para a história: quando foi necessário escolher entre salvar sua população ou serem subservientes a Jair Bolsonaro, tanto o governador do Amazonas quanto o prefeito de Manaus não hesitam em escolher a segunda opção

Em uma nova demonstração de pusilanimidade, o prefeito de Manaus, David Almeida (Avante) decidiu ignorar evidências científicas e os riscos que jovens entre 12-17 anos correm ao serem expostos ao novo coronavírus em nome da subserviência ao presidente Jair Bolsonaro, a quem é fortemente alinhado. Não é a primeira vez que isso acontece, infelizmente. E explica muito do que aconteceu aqui.

Vale lembrar que antes mesmo de assumir a prefeitura, uma das primeiras promessas de Almeida, ainda em dezembro de 2020, foi a distribuição do já sabidamente ineficaz “tratamento precoce” nas redes de atenção básica da prefeitura. Até recentemente, a prefeitura resolveu empenhar R$ 260 mil na compra de ivermectina e desistiu discretamente, após pressão de parte da imprensa local.

Ao assumir a prefeitura, diante de uma situação desesperadora, ao invés de decretar um mais do que urgente lockdown, o prefeito simplesmente assistiu a atuação criminosa do Ministério da Saúde na capital do Amazonas. Somada à incompetência do governador Wilson Lima, essa atuação resultou na maior catástrofe da história da cidade, com o colapso no fornecimento de oxigênio durante a segunda onda da pandemia da Covid-19, em janeiro.

A Constituição Federal garante autonomia a estados e municípios na condução de políticas de saúde pública. É o chamado regime tripartite de responsabilidade pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Fato que foi ratificado pela decisão do Supremo Tribunal Federal em abril de 2020.

Portanto, não falta autonomia para agir. David Almeida (bem como seu antecessor, Arthur Virgílio Neto) e Wilson Lima poderiam e podem atuar sem pedir bênçãos ao presidente. Poderiam continuar aplicando vacinas em jovens. Poderiam ter promovido lockdown quando foi necessário. Poderiam ampliar a testagem de casos de Covid-19. Tinham recursos, necessidade e liberdade. Falta vontade política. Sobra alinhamento ideológico.

É fundamental que se identifique a responsabilidade de cada personagem nesta tragédia. Bolsonaro prestará contas a alguma justiça em algum momento da história pela sua condução criminosa da pandemia, mas vale lembrar uma coisa fundamental: ele foi presidente de toda uma nação, mas apenas em um local ocorreram duas ondas catastróficas, justamente Manaus. E na fila desse julgamento, devem vir atrás os dois prefeitos da capital e o governador do estado nesse período.

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