Opinião

O que realmente significa o patético teatrinho de Bolsonaro

Apesar das análises apavoradas, a patética apresentação de Bolsonaro regada a mentiras requentadas tem dois objetivos: fragmentar a oposição (o que já conseguiu) pelo medo e tentar promover o caos com seus apoiadores

Ok, se você tem redes sociais, deve estar sobrecarregado de notícias, análises e interpretações dos acontecimentos da política brasileira nesta segunda-feira (18/07/2022). Bem, aqui você verá mais uma. Mas como o Vocativo serve para acalmar os ânimos e pensar com o cérebro ao invés do fígado, a questão vai ser analisada por outros ângulos. Antes de tudo, vamos à notícia principal.

Novo ataque golpista de Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro (PL) reuniu embaixadores estrangeiros no Palácio da Alvorada, em Brasília, para novamente disparar uma série de mentiras sobre o sistema eleitoral brasileiro. Como de costume, atacou ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em mais uma tentativa golpista de colocar dúvida a credibilidade da eleição de outubro, diante de uma iminente derrota para o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT).

Na reunião, foi exibida uma apresentação de Power Point com as mesmas mentiras e teorias conspiratórias apresentadas em uma live no dia 29 de julho de 2019, todas já desmentidas em inúmeras ocasiões tanto pelo TSE quanto por agências de checagem. Nas duas ocasiões, Bolsonaro admitiu não ter provas do que diz. O presidente também fez declarações confusas, dando a entender que os militares apoiariam movimentos de ruptura antidemocrática.

Nada de novo

Que a fala de Bolsonaro é grave e deveria levar ao seu impeachment, isso não resta dúvidas. O caso é que todas as falas ditas hoje já foram feitas dezenas de vezes, nas mais diferentes ocasiões. E todas elas são igualmente graves. Ou seja, tecnicamente falando, não há nenhuma novidade aqui.

E com o advento da internet, também não é novidade alguma para o resto do mundo que o intuito do presidente é tumultuar as eleições, tanto que várias reportagens dão conta que o governo dos Estados Unidos já deixou claro: em caso de arruaça, não contem com o Tio Sam pra defender. Ou seja, todos já sabiam o que foi dito hoje.

E a participação de militares do seu governo também não é surpresa, uma vez que os chefes das três forças inclusive já fizeram ameaças de golpe em 2021. Aliás, ameaçaram que não haveria eleições caso a PEC do Voto Impresso não fosse aprovada. A PEC não passou, a ameaça não se concretizou e o autor da bravata – o general Braga Netto – aceitou calado, aceitando o processo a ponto de compor a chapa de reeleição de Bolsonaro.

Usando a cabeça pra analisar

O problema de muitos comentaristas políticos atualmente é usarem seus medos e expectativas para analisar os assuntos do país. Isso é um erro. A lógica básica sempre é a maior aliada. E nesses casos, como nos relacionamentos, as atitudes falam mais do que as palavras. A principal teoria que se formou depois desse evento é de que “Bolsonaro agiu para criar uma justificativa para um golpe“. Será?

Pra começar, se Bolsonaro de fato tivesse interesse em criar uma narrativa para permitir um golpe, não convocaria embaixadores para uma exibição de slides, mas levaria o caso para a Organização dos Estados Americanos (OEA), que congrega os 35 Estados independentes das Américas e constitui o principal fórum governamental político, jurídico e social do Hemisfério. Diplomatas, justamente pelo cargo que ocupam, estão longe das suas pátrias, o que torna sua ingerência pequena. Pra não dizer nenhuma. Na minha avaliação, o intuito dele é outro. São dois, na verdade.

Pânico na oposição

A primeira coisa que Bolsonaro conseguiu foi instalar o pânico e paralisar a oposição, já contando com o silêncio nas instituições da República. Com esse movimento, o presidente coloca o partido e o principal candidato à presidência – Lula e o PT – em um dilema: apostar que tudo não passa de blefe e se focar nas eleições ou organizar uma resposta com manifestações. E nisso, a oposição racha, porque do outro lado da oposição, há pânico.

Nas redes sociais, até os analistas mais sóbrios se mostraram apavorados. O Doutor em Antropologia Social pela UFRJ, Orlando Calheiros, por exemplo, chegou ao ponto de dizerem frases do tipo “Ou vamos pra rua ou não tem eleição em outubro”. O antropólogo e cientista político Luiz Eduardo Soares compartilhou em suas redes um texto em que afirma: “O golpe foi anunciado, hoje, oficialmente, e para o mundo. A situação nunca foi tão grave”.

Atiçar os lunáticos

A única chance do bolsonarismo suspender as eleições é com um estado de tamanha comoção que o próprio funcionamento do país seja comprometido durante as eleições. E aí vale remeter ao 07 de setembro de 2021: a ideia não era de um golpe militar, mas de um levante popular miliciano inflamado pelas declarações do presidente que daria lugar aos militares.

No fim, deu em nada porque os próprios bolsonaristas queriam que os militares dessem o golpe. Essa é a característica principal dos apoiadores do presidente: querem que alguém tome o poder e dê nas mãos deles. Aí complica muito.

É como eu sempre digo: uma coisa é ser apoiador do Bolsonaro, outra, bem diferente, é estar preparado para sair de casa e tomar um tiro em nome dele. Aí são poucos, embora existam. A apresentação de hoje tem como objetivo encorajar outros Jorge Guaranhos pelo país no dia 02 de outubro. Com caos suficiente, declarar Estado de Sítio e ver no que dá.

O que esperar agora?

Mais importante do que o dia de hoje, será amanhã. Descontadas as tradicionais e inúteis notas de repúdio, se poucos derem importância ao que aconteceu hoje, será mais uma demonstração de que Bolsonaro não é levado a sério do que propriamente de força.

O mais importante: quem conta com o adiamento das eleições ou em golpe não perde tempo se desgastando para aprovar uma Emenda Constitucional que dá bilhões para os mais pobres ou montando palanques nos estados. Simplesmente se concentra no golpe e o executa. Não há registro na história da humanidade nenhum golpe com hora marcada. Não há lógica alguma nisso.

Por várias razões que já foram ditas aqui, um golpe de Estado não é apenas complexo, mas desvantajoso para os principais setores econômicos e financeiros do país. Imaginar que tudo seria igual a 1964 é cometer um anacronismo, ignorando os contextos da época e de hoje.

O grande perigo que podemos enfrentar é justamente o caos. Eu sempre insisti que a maior característica do Bolsonarismo é o caos. Bolsonaro não sabe viver longe dele. Erra quem acredita que esse movimento é um grupo de experts em estratégia que calcula cada passo do presidente. Bobagem.

Ao tentar atiçar seus apoiadores armados a promoverem tumultos para justificar uma declaração de Estado de Sítio, Bolsonaro não faz ideia do que vai acontecer nem de como vai executar isso. Era essa sua intenção no 07 de setembro e é o que pretende no dia 02 de outubro. Bolsonaro é movido por impulso. E é isso que o torna tão perigoso.

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