Manaus, 30 de setembro de 2026 – Figuras ligadas ao bolsonarismo acumularam 61 registros de ataques, ofensas, campanhas de desqualificação e episódios de hostilidade contra a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e integrantes da hierarquia católica entre 2018 e 2026. O acervo inclui publicações em redes sociais, vídeos, manifestações parlamentares, reportagens, ameaças e documentos oficiais. O tema ganhou nova dimensão durante a campanha eleitoral deste ano, após uma polêmica envolvendo o candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL), Nossa Senhora Aparecida e a atuação da CNBB.
A controvérsia de setembro de 2026 envolve uma afirmação atribuída à jornalista Maria Cristina Fernandes, no programa GloboNews Em Pauta, em 24 de setembro, segundo a qual haveria, entre católicos, reação a uma parcela de evangélicos que estaria mobilizando um projeto para retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil. A afirmação foi posteriormente objeto de disputa judicial porque Flávio Bolsonaro não apresentou nem protocolou, em 2026, projeto de lei com esse objetivo. Apesar disso, existe um antecedente legislativo real: o PL 2.623/2007, de autoria do então deputado Victório Galli Filho.

O projeto de Galli foi apresentado em 12 de dezembro de 2007 e propunha alterar a Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980. Pela redação registrada na Câmara dos Deputados, a mudança pretendia substituir a referência a “Padroeira do Brasil” por uma homenagem oficial a Nossa Senhora Aparecida como padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos; a proposição acabou arquivada. Em fevereiro de 2019, Victório Galli Filho foi nomeado assessor especial da Presidência da República, na Secretaria Especial para a Câmara dos Deputados da Casa Civil.
No domingo, 27, três dias após a controvérsia iniciada no GloboNews Em Pauta, Flávio Bolsonaro atacou diretamente a CNBB durante agenda de campanha em Goiânia (GO), acusando integrantes da entidade de terem ajudado o PT a disseminar a informação falsa de que ele pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A CNBB negou a acusação, afirmou que não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas à eleição e declarou que não integra estruturas político-partidárias.
O histórico começa antes da disputa eleitoral
O levantamento documental aponta que os ataques contra a CNBB e bispos católicos não começaram em 2026. Entre 2018 e 2019, aparecem registros de vídeos e manifestações que acusavam a entidade de utilizar recursos da Campanha da Fraternidade para financiar causas consideradas por seus autores como incompatíveis com a doutrina católica, além de acusações de suposta infiltração política na Igreja.
Em 23 de fevereiro de 2018, o influenciador Bernardo Küster publicou o vídeo “CNBB NO BANCO DOS RÉUS: grana, poder e heresia”, que, segundo o acervo, ultrapassou 950 mil visualizações. No ano seguinte, em 24 de junho de 2019, Eduardo Bolsonaro publicou no X que “a esquerda já se infiltrou na religião católica, principalmente através da CNBB”, associando a atuação da conferência a uma disputa ideológica.
Outro episódio registrado ocorreu em outubro de 2019, quando uma animação publicada no perfil oficial de Jair Bolsonaro retratou a CNBB entre as figuras representadas como “hienas” que atacavam o personagem identificado como o presidente. O vídeo foi posteriormente retirado, após repercussão, e houve pedido de desculpas, segundo o material documental analisado.

O mesmo período registra ataques dirigidos individualmente a bispos. Dom Orlando Brandes, então arcebispo de Aparecida, passou a ser alvo de ofensas virtuais após uma homilia no Santuário Nacional em que fez referências à corrupção e ao armamento, enquanto Dom Walmor Oliveira de Azevedo, eleito presidente da CNBB em 2019, foi atacado publicamente desde o início de seu mandato.
A documentação também registra episódios de intimidação contra integrantes da Igreja que atuavam em questões sociais e políticas. Em novembro de 2018, a equipe da Comissão Pastoral da Terra e o bispo Dom André de Witte foram alvo de mensagens agressivas e intimidação presencial em Itaberaba, na Bahia, em contexto relacionado às posições da Igreja sobre questões agrárias.
Em 2020, o conflito alcançou a estrutura do Estado
Um dos episódios mais relevantes do acervo ocorreu em 2020 e não partiu apenas de manifestações de grupos ou indivíduos. Segundo reportagem baseada no relatório final da Polícia Federal sobre a chamada “Abin Paralela”, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) solicitou à Agência Brasileira de Inteligência (Abin) a produção de perfis de 152 bispos católicos que haviam assinado, naquele ano, uma carta crítica ao governo Jair Bolsonaro.
O levantamento foi associado pela investigação da PF à estrutura paralela de inteligência que atuava durante o governo Bolsonaro. A informação consta do relatório final da Polícia Federal divulgado em 2025 e foi noticiada como parte das ações investigadas envolvendo o uso da estrutura estatal de inteligência.
No mesmo ano, Dom Marcony Vinícius Ferreira, então bispo auxiliar de Brasília, sofreu ameaças de integrantes do grupo 300 do Brasil após impedir a instalação de um acampamento militante na área da Catedral Metropolitana de Brasília. O episódio é apontado no acervo como um dos casos em que a tensão política ultrapassou o ambiente digital e alcançou fisicamente espaços religiosos e integrantes do clero.

Também em 2020, o comentarista Rodrigo Constantino passou a utilizar publicamente a expressão “Conferência Nacional dos Bispos Bolivarianos” para se referir à CNBB. Em agosto daquele ano, uma publicação no jornal Correio Cacerense atacou Dom Jacy Diniz Rocha, bispo de Cáceres (MT), por sua assinatura na carta dos bispos críticos ao governo.
O levantamento reúne esses episódios ao lado de documentos oficiais e manifestações públicas para registrar uma sequência que atravessou diferentes ambientes: redes sociais, imprensa, parlamentos, templos, campanhas religiosas e órgãos da estrutura federal. A documentação não trata todos os registros como acontecimentos de mesma natureza, mas os reúne cronologicamente como parte do conjunto de 61 materiais e episódios preservados no acervo.
Ofensas parlamentares, boicotes e ameaças armadas
A partir de 2021, o material documenta uma nova frente de confronto envolvendo boicotes à Campanha da Fraternidade, críticas à CNBB e manifestações de parlamentares contra bispos e o Papa Francisco. O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira (IPCO), o Centro Dom Bosco e outros grupos tradicionalistas aparecem em campanhas contra a Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021, incluindo chamadas para interromper doações e mensagens instaladas em outdoors.
Em 14 de outubro de 2021, o deputado estadual Frederico d’Ávila fez discurso na tribuna da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) com ofensas dirigidas a Dom Orlando Brandes, à CNBB e ao Papa Francisco. A manifestação provocou uma carta aberta da presidência da CNBB cobrando providências formais do Legislativo paulista; três dias depois, o deputado Gil Diniz reagiu nas redes sociais à cobrança da conferência.
Em outubro de 2022, Dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, foi alvo de ataques nas redes sociais em razão do uso de veste litúrgica vermelha. Segundo o levantamento, militantes associaram a cor utilizada na liturgia católica ao Partido dos Trabalhadores. No mesmo ano, Bernardo Küster lançou o documentário Eles Estão no Meio de Nós, no qual apresentou críticas à Teologia da Libertação e associou setores da CNBB a posições partidárias.

A escalada também registrou um episódio de intimidação armada. Em 12 de novembro de 2022, Dom Vicente Ferreira, bispo auxiliar de Belo Horizonte, foi cercado e intimidado por um homem armado ao final de uma celebração de crisma em Minas Gerais, segundo o acervo documental. O caso passou a integrar o conjunto de episódios relacionados a ameaças contra integrantes da hierarquia católica.
Entre 2023 e 2025, a documentação registra novos ataques contra bispos com atuação social, entre eles Dom Paulo Jackson, Dom Mário Antônio e Dom Limacêdo Antônio. Também aparecem campanhas contra a CNBB e a Campanha da Fraternidade, acusações de utilização de estatísticas sobre fome e pobreza e tentativas de associar a atuação social da Igreja a organizações ou projetos políticos.
Em 2025, Bernardo Küster voltou a atacar a CNBB ao associá-la, em publicação sobre uma suposta “Agenda Globalista”, a George Soros e à Fundação MacArthur, além de mencionar o presidente da conferência, Dom Jaime Spengler. O Centro Dom Bosco também convocou, em março daquele ano, um boicote às doações da coleta do Domingo de Ramos.
Nossa Senhora Aparecida e a disputa judicial de 2026
A controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida ganhou força em setembro de 2026. O antecedente legislativo utilizado na discussão é o PL 2.623/2007, de Victório Galli Filho, que consta oficialmente como arquivado na Câmara dos Deputados. A documentação parlamentar registra que o projeto pretendia alterar a Lei nº 6.802/1980 e modificar a forma como Nossa Senhora Aparecida era identificada na legislação federal.

Em fevereiro de 2019, pouco mais de dez anos depois da apresentação do projeto, Galli foi nomeado para a assessoria especial da Presidência da República durante o governo Jair Bolsonaro. A nomeação foi assinada pelo então ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e publicada no Diário Oficial da União; Galli deixou o cargo em junho daquele ano.
O histórico legislativo passou a ser citado nas discussões judiciais de 2026 depois que a disputa sobre a Padroeira entrou no terreno eleitoral. Na Representação nº 0602260-84.2026.6.00.0000, no Tribunal Superior Eleitoral, o ministro André Mendonça determinou a retirada de conteúdos que apresentavam como fato a afirmação de que Flávio Bolsonaro teria proposto ou articulado a retirada do título de Padroeira do Brasil.
Em 27 de setembro, porém, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, concedeu pedido de extensão na Reclamação 95.295 e cassou os itens da decisão do TSE relacionados à remoção das publicações. Na decisão disponível no sistema do STF, Dino afirmou que a medida preservava a liberdade de expressão e a liberdade religiosa daqueles que defendem a manutenção da lei que transformou Nossa Senhora Aparecida em Padroeira do Brasil.

O caso judicial passou, assim, a envolver uma distinção central entre atribuir a Flávio Bolsonaro uma iniciativa legislativa que ele não apresentou e discutir publicamente um antecedente legislativo verdadeiro, de 2007, cujo autor posteriormente ocupou cargo no governo Bolsonaro. A própria existência do PL 2.623/2007 é confirmada pelo registro oficial da Câmara, que identifica Victório Galli Filho como autor e informa que a proposição está arquivada.
No dia 27 de setembro, Flávio Bolsonaro também declarou, durante agenda em Goiânia, que havia “gente de dentro da CNBB” envolvida com o que classificou como uma “liga da mentira do PT” e acusou integrantes da entidade de ajudar a disseminar informações falsas sobre sua campanha. Segundo o acervo analisado, a declaração foi seguida por 25 manifestações digitais de apoio ou ofensas explícitas à CNBB, dentro de um conjunto de 33 registros de repercussão coletados em poucas horas.
Entre as expressões identificadas nas publicações estão “puxadinho do PT”, “ONG comunista”, “braço herético” e referências religiosas pejorativas. O levantamento também registra, em 27 de setembro, uma denúncia acompanhada de vídeo sobre a interrupção de uma missa no Rio Grande do Norte por pessoas identificadas como bolsonaristas, com constrangimento ao padre após a homilia.
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