Manaus, 30 de setembro de 2026 – O Amazonas pode abrir, a partir de 2027, uma nova frente de exploração mineral justamente em uma das regiões mais sensíveis do planeta. Isso porque Omar Aziz (PSD), David Almeida (Avante) e Roberto Cidade (União Brasil) candidatos ao governo nas eleições deste ano, colocaram as terras raras em seus planos para o Estado. A expansão dessa atividade, porém, pode gerar rejeitos com potencial de contaminar solo e água e expor populações próximas a materiais radioativos se a extração e o beneficiamento não forem rigorosamente controlados.
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos usados na fabricação de ímãs de alto desempenho, motores elétricos, equipamentos eletrônicos, turbinas e outras tecnologias estratégicas, o que tornou esses minerais altamente cobiçados pela indústria e pelos governos. O problema é que, em muitos depósitos, esses elementos estão associados a outros minerais e podem exigir processos de separação que geram grandes volumes de rejeitos, alguns deles com tório e urânio, criando um contraste entre o alto valor econômico do minério e os riscos ambientais de sua extração e beneficiamento.
O problema ambiental, nesse caso, não está apenas no buraco aberto pela mineração. Está também no que sobra dele. A separação dos elementos de interesse econômico pode produzir rejeitos com características químicas e radiológicas diferentes do material originalmente retirado do solo, enquanto a movimentação de terra pode alterar a qualidade dos solos e facilitar o transporte de substâncias para cursos d’água.

O minério que não vem sozinho
Documentos técnicos do Centro de Tecnologia Mineral (CETEM) identificam ocorrências de terras raras em Pitinga, em Presidente Figueiredo, e no Carbonatito de Seis Lagos, em São Gabriel da Cachoeira, além de ocorrências relacionadas à Suíte Intrusiva Mapuera. Em Pitinga, as terras raras aparecem associadas a um depósito poliminerálico que também contém estanho, nióbio, tântalo, zircônio e urânio.
A associação é importante porque modifica a natureza do problema. Terras raras não constituem um minério único que possa simplesmente ser retirado, separado e vendido. Elas são um conjunto de 17 elementos químicos que ocorrem associados a diferentes minerais e precisam ser separados por processos físicos e químicos. No caso do xenotímio de Pitinga, estudos do CETEM chegaram a testar, em escala de laboratório, rotas de lixiviação com ácido sulfúrico e hidróxido de sódio para recuperar terras raras.
A etapa química acrescenta uma segunda camada de risco. O problema deixa de ser apenas remover toneladas de material do subsolo e passa a envolver a manipulação de grandes volumes de minério, água e reagentes, além do destino do material que não contém concentração economicamente aproveitável. É nessa etapa que a pergunta ambiental deixa de ser apenas quanto minério pode ser retirado e passa a ser quanto resíduo será produzido e onde ele ficará.

Em Pitinga, essa questão já possui um histórico documentado. Um requerimento de informação apresentado na Câmara dos Deputados em 17 de fevereiro de 2025, o RIC nº 420/2025, levantou preocupações sobre a presença de urânio no complexo e sobre a composição dos rejeitos armazenados nas barragens. O documento cita estimativa de 150 mil toneladas de urânio associadas às reservas de Pitinga e registra que o nível de urânio presente nos rejeitos das barragens não era conhecido ou divulgado nas informações consultadas pelo parlamentar.
O que os planos querem retirar do chão
É nesse cenário que as propostas de 2026 ganham importância. O plano de Omar Aziz coloca terras raras, potássio, nióbio, manganês, tântalo, bauxita e ferro dentro de uma estratégia estadual para minerais críticos e prevê estudos, mapeamento territorial, diretrizes de licenciamento e processamento dentro do Amazonas. O documento também propõe um Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) Mineral, sistema de monitoramento e mecanismos de garantia financeira para recuperação ambiental.
David Almeida adota outra porta de entrada. Seu programa Pra Cima, Amazonas propõe a criação de Zonas de Interesse Mineral (ZIM) para áreas com potencial mineral comprovado e afirma que essas zonas deverão ficar fora de Unidades de Conservação, áreas de proteção ambiental e Terras Indígenas homologadas. O plano também prevê a instalação de etapas de beneficiamento e transformação mineral no Estado.
Roberto Cidade concentra a referência territorial em Apuí. Seu plano Projeto Amazonas 2035 inclui expressamente as terras raras entre os recursos minerais a serem aproveitados no município, vinculando a atividade à criação de novas cadeias produtivas, industrialização e geração de empregos. O documento afirma que caberia ao Estado assegurar licenciamento ambiental e regras para a atração de investimentos privados.
A diferença entre os três programas está menos na existência da proposta de mineração do que na forma como cada um pretende organizar essa expansão. Omar desenha uma política mineral estadual; David propõe delimitar previamente as áreas de interesse; Cidade aponta Apuí como uma frente concreta de exploração. Em comum, os três programas partem da premissa de que o potencial mineral deve ser convertido em atividade econômica. Mas todos deixam uma lacuna importante.
O ponto ainda pouco respondido pelos documentos está no outro lado dessa equação: qual será o custo ambiental da transformação do minério em produto industrial? Os programas apresentam instrumentos de ordenamento, licenciamento ou monitoramento, mas os relatórios analisados não detalham, no mesmo nível de especificidade, protocolos para rejeitos contendo tório e urânio, tratamento de efluentes do processamento químico ou mecanismos capazes de acompanhar alterações ambientais durante décadas após o fechamento de uma mina.

O alerta está nos rejeitos
Um estudo publicado em agosto de 2026 na plataforma Environmental Geochemistry and Health ajuda a dimensionar por que essa lacuna merece atenção. Pesquisadores analisaram 34 solos naturais e 96 resíduos de mineração no distrito de Taboca, em São Félix do Xingu, e encontraram enriquecimento de elementos de terras raras nos rejeitos. O trabalho também identificou concentrações de lantânio, cério, neodímio, tório, ítrio, itérbio e urânio que os autores apontaram como prioritárias para monitoramento em águas superficiais.
Em uma das áreas examinadas, os pesquisadores registraram uma barragem abandonada com sinais macroscópicos de drenagem ácida, incluindo água com pH igual ou inferior a 4, segundo a descrição apresentada no artigo. A pesquisa encontrou ainda redução da matéria orgânica e da capacidade de retenção de elementos no solo dos rejeitos, condições que podem aumentar a mobilidade de determinados elementos químicos.
Os resultados também exigem cautela. Os pesquisadores destacam que a própria geologia amazônica pode apresentar concentrações naturalmente elevadas de terras raras, tório e urânio. Por isso, não basta encontrar uma concentração alta para atribuí-la à mineração: é necessário conhecer a linha de base geológica da região, ou seja, saber como era o solo antes da intervenção humana.
Essa ressalva é particularmente importante para o Amazonas. Seis Lagos e Pitinga não possuem necessariamente a mesma composição mineralógica de Apuí, e um resultado observado no Pará não pode ser simplesmente transportado para um empreendimento amazonense. O que pode ser transportado é a necessidade de investigação: qual é a composição natural do depósito, quais elementos serão concentrados no beneficiamento, que resíduos serão produzidos e para onde esses resíduos poderão migrar?
A resposta interessa principalmente à água. Um rejeito armazenado em uma estrutura pode permanecer aparentemente isolado por anos e, ainda assim, exigir acompanhamento de longo prazo por causa de infiltração, erosão, rompimento ou alteração química. Quando os minerais carregam naturalmente tório e urânio, a fiscalização também precisa distinguir a radioatividade natural do depósito dos efeitos provocados pela concentração e movimentação do material durante a mineração.
Seis Lagos, Pitinga e Apuí não são a mesma história
Há ainda um problema territorial. Seis Lagos, em São Gabriel da Cachoeira, é uma ocorrência geológica conhecida por sua associação com nióbio e terras raras, mas a área está inserida em um contexto de proteção ambiental e presença indígena que torna qualquer discussão sobre exploração mineral juridicamente complexa. O próprio plano de David estabelece a exclusão de Terras Indígenas homologadas e unidades protegidas de suas ZIMs, enquanto o plano de Omar trata da necessidade de regulamentação e consulta para eventual mineração em territórios indígenas.
Pitinga apresenta outro tipo de situação. A mina já existe e sua história permite observar o que acontece quando uma atividade mineral se prolonga por décadas. A preocupação levantada no Congresso em 2025 envolve justamente rejeitos, urânio e a proximidade da Terra Indígena Waimiri-Atroari, embora as informações reunidas no requerimento parlamentar não sejam suficientes, isoladamente, para afirmar que tenha ocorrido contaminação daquela Terra Indígena.
Apuí, por sua vez, representa uma terceira situação: a possibilidade de transformar uma ocorrência de terras raras em uma nova atividade econômica no Sul do Amazonas. O plano de Roberto Cidade menciona diretamente a exploração no município, mas o fato de uma área possuir potencial mineral não significa que uma mina esteja automaticamente autorizada. São necessários estudos geológicos, direitos minerários, avaliação ambiental e as licenças e autorizações correspondentes.

É justamente por isso que a diferença entre ocorrência, depósito, jazida e reserva importa para a cobertura jornalística. Uma ocorrência indica que determinado mineral está presente; uma jazida pressupõe caracterização geológica mais avançada; e uma reserva depende da demonstração de viabilidade técnica e econômica conforme critérios específicos. Potencial mineral não é sinônimo de minério pronto para ser retirado.
Os três planos, entretanto, colocam o Amazonas diante de uma decisão que ultrapassa a simples escolha de áreas para mineração. Ao propor pesquisa, lavra, beneficiamento e industrialização de terras raras, eles também colocam na agenda estadual a necessidade de definir quem monitora os rejeitos, quem paga pela recuperação de uma mina abandonada, quais parâmetros serão medidos na água e no solo e por quanto tempo esse acompanhamento continuará depois do encerramento da atividade.
A corrida pelas terras raras, portanto, não começa apenas quando uma máquina entra na floresta. Ela começa muito antes, quando o Estado decide onde pesquisar, o que considerar ambientalmente aceitável, quais informações exigir das empresas e quais garantias cobrar antes que o primeiro minério seja retirado. E, em uma região onde terras raras podem estar geologicamente associadas a tório e urânio, a pergunta sobre o futuro da mineração passa necessariamente pelo destino do que não será vendido.
As assessorias de Omar Aziz (PSD), David Almeida (Avante) e Roberto Cidade (União Brasil) foram procuradas pelo site para comentar os pontos levantados na reportagem, especialmente sobre os possíveis impactos ambientais da exploração e do beneficiamento de terras raras e sobre as medidas previstas nos respectivos planos para prevenção, monitoramento e recuperação ambiental. Até o fechamento desta matéria, nenhuma das três assessorias havia se manifestado.
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