Manaus, 22 de setembro de 2026 – Igrejas e redes comunitárias de cuidado estão sendo utilizadas como espaços de formação, mobilização e construção de lideranças femininas conservadoras que chegam às eleições de 2026 com atuação cada vez mais estruturada na política partidária brasileira. É o que aponta o relatório especial Mulheres Evangélicas Conservadoras nas Eleições de 2026, elaborado pela Casa Galileia em parceria com o Instituto Democracia em Xeque, com dados atualizados até setembro deste ano.
O estudo combina levantamento de estruturas partidárias, análise de eventos públicos, monitoramento de redes digitais e dados qualitativos de campo vinculados a uma pesquisa de doutorado na PUC-Rio. O mapeamento identifica uma rede que reúne lideranças religiosas, dirigentes partidárias, parlamentares, primeiras-damas, lideranças comunitárias e candidatas, articuladas principalmente em torno de estruturas como o PL Mulher e o Mulheres Republicanas.

A pesquisa sustenta que a formação política dessas mulheres não começa necessariamente dentro dos partidos ou durante o período eleitoral. Antes disso, atividades desenvolvidas no cotidiano de igrejas e comunidades, como aconselhamento, intercessão e assistência social, criam vínculos de confiança que podem posteriormente ser convertidos em participação política e candidaturas.
“Para compreender esse movimento, é importante olhar para essas mulheres como sujeitos políticos ativos e para aquilo que elas já constroem em seus territórios. São mulheres que organizam, mobilizam, cuidam e produzem relações de confiança muito antes de chegarem à política partidária. A pesquisa busca compreender essas formas de participação sem reduzi-las à ideia de submissão ou transformar diferenças políticas em impedimento para o diálogo”, afirmam Jamille Bezerra e Lorena Mochel, pesquisadoras do relatório.
Da rede de cuidado à estrutura partidária
Segundo o levantamento, a infraestrutura social do cuidado funciona como uma das bases de sustentação desse movimento. A expressão é usada para descrever relações comunitárias construídas por meio da escuta, orientação pessoal, oração e assistência material, atividades que colocam determinadas mulheres em posições de referência dentro de suas comunidades antes mesmo de uma eventual filiação partidária.
O relatório descreve a intercessão como uma prática capaz de projetar mulheres como referências espirituais; o aconselhamento como uma forma de estabelecer relações pessoais de confiança; e a assistência comunitária como uma atuação que inclui desde doação de alimentos até encaminhamentos para serviços públicos. A pesquisa relaciona essas experiências à posterior construção de capital comunitário e político.
A estrutura nacional identificada pelo estudo é organizada em quatro níveis. No topo estão lideranças nacionais como Michelle Bolsonaro e Damares Alves; abaixo aparecem setores de formação política, comunicação e mobilização; em seguida estão as estruturas estaduais dos órgãos partidários femininos; e, na base institucional, os mandatos ocupados por mulheres nas Câmaras Municipais, Assembleias Legislativas, Câmara dos Deputados e Senado Federal.
O relatório também apresenta o conceito de “Damarismo” para descrever um modelo de formação e aconselhamento político-pastoral associado à trajetória de Damares Alves. Segundo o estudo, práticas desenvolvidas pela senadora no período em que ocupou o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e posteriormente no Mulheres Republicanas passaram a servir de referência para iniciativas de formação de mulheres em outras estruturas conservadoras.

“Quando olhamos para esse processo, percebemos que 2026 começou muito antes de 2026. A visibilidade que Michelle Bolsonaro alcança hoje não surge do nada. Há um trabalho anterior de formação, mobilização e profissionalização da participação política dessas mulheres, e Damares Alves ocupa um lugar importante nessa trajetória. Michelle ganha projeção própria, mas também é resultado de uma infraestrutura política feminina conservadora que vinha sendo construída antes dela, o que estamos chamando de Damarismo”, afirmam os pesquisadores da Casa Galileia vinculados à produção do relatório.
A cronologia apresentada pelo estudo começa em 2016, com a reorganização da direita institucional após o impeachment de Dilma Rousseff, passa pela eleição de Jair Bolsonaro e pela nomeação de Damares para o ministério em 2018, chega à eleição de Damares para o Senado e à presidência do PL Mulher por Michelle Bolsonaro em 2022, e registra a criação do Movimento Mulheres Conservadoras em 2024. Entre 2025 e 2026, o relatório identifica intensificação de cursos de formação, recrutamento e preparação de candidaturas.
No caso de Michelle, o levantamento registra a saída da presidência do PL Mulher e o lançamento do projeto “Imparáveis”, apresentado como uma iniciativa de caráter apartidário. O estudo interpreta o movimento como parte de uma disputa pela liderança e pela capacidade de mobilização do eleitorado conservador feminino, especialmente entre mulheres evangélicas.
A agenda construída por essas redes também é objeto de análise. Entre os temas identificados estão a defesa da chamada “mulher de bem”, a oposição ao aborto e a proposta de oferecer assistência pré-natal, hospitalar e encaminhamento para adoção nos casos de gravidez decorrente de estupro, em oposição à interrupção da gestação.
O relatório descreve essa formulação como uma tentativa de combinar linguagem de direitos humanos com uma agenda moral baseada na proteção do nascituro, enquanto o debate sobre autonomia reprodutiva é subordinado, nessa perspectiva política, à preservação da gestação. Essas posições são apresentadas no estudo como elementos da identidade política construída pelo movimento.
Rede chega à Região Norte com estruturas diferentes
Na Região Norte, o levantamento encontrou estruturas femininas conservadoras em Pará, Tocantins, Rondônia, Roraima e Amazonas, embora com níveis diferentes de organização e presença institucional. Acre e Amapá aparecem na delimitação territorial da pesquisa, mas não tiveram lideranças femininas com cargos partidários ou candidaturas específicas registradas pelos critérios utilizados no levantamento atualizado até setembro.

No Pará, o estudo identifica Ágatha Barra, vereadora de Belém pelo PL e presidente do PL Mulher em Belém; Geny Silva, presidente estadual do PL Mulher; e Shirley Alves, do Republicanos, candidata a deputada federal e secretária estadual do Mulheres Republicanas. Em Tocantins, aparecem Nilmar Ruiz, Janad Valcari e a senadora Professora Dorinha, em posições partidárias e eleitorais distintas.
Em Rondônia, a pesquisa registra Sandra Melo, ex-vereadora de Vilhena e presidente estadual do PL Mulher. Em Roraima, são citadas Roberta Acioly, Darbilene do Vale e Kátia Macêdo, vinculadas ao Republicanos e ao PL, respectivamente, com diferentes funções partidárias e candidaturas para 2026.
No Amazonas, o mapeamento registra Débora Menezes, filiada ao PL, deputada estadual e candidata à reeleição, com vínculo religioso evangélico identificado pelo estudo e histórico como ex-presidente do PL Mulher em Manaus. O levantamento, portanto, não apresenta o Estado como um polo equivalente às estruturas encontradas em Tocantins ou Pará, mas como parte da rede regional identificada pela pesquisa.
A presença territorial, segundo o relatório, é heterogênea. Em alguns Estados, a organização está concentrada em parlamentares com mandato; em outros, depende de dirigentes partidárias sem mandato, primeiras-damas, familiares de políticos ou lideranças vinculadas diretamente a comunidades religiosas.

Ambiente desigual
A expansão dessa rede feminina conservadora ocorre dentro de um sistema político no qual a entrada das mulheres ainda é marcada por desigualdade e discriminação. O contraste aparece quando os dados da Casa Galileia são cruzados com o Boletim Técnico nº 04/2023 — Mulheres na Política, do DataSenado e do Observatório da Mulher contra a Violência (OMV): enquanto redes de cuidado, igrejas e estruturas partidárias ampliam a formação de candidatas, parte delas relata enfrentar barreiras justamente dentro do ambiente político que passam a ocupar.
Entre as mulheres que disputaram eleições municipais, 32% relataram discriminação política por causa do gênero; entre candidatas a cargos estaduais e federais, o índice chegou a 44%. A desigualdade também aparece no acesso aos recursos: 65% das mulheres disseram ter recebido menos dinheiro partidário que homens em situação equivalente. O mesmo levantamento registrou relatos de interrupção ou impedimento da fala e de desqualificação diretamente relacionada ao gênero.
O estudo Violência política contra as mulheres nas eleições municipais brasileiras, publicado em 2026, acrescenta outra dimensão a esse cenário. Na amostra de 286 notícias sobre as eleições de 2020 e 2024, a violência psicológica ou simbólica foi a forma mais frequente, seguida pela econômica; em 2024, políticos ou candidatos apareceram como autores identificados em 24,2% dos casos e partidos políticos, em 19,4%. Os episódios se concentraram justamente entre agosto e dezembro, período em que as campanhas ganham maior intensidade.
Há ainda uma contradição na própria visibilidade do problema: a palavra “violência” apareceu em apenas nove dos 286 títulos analisados, embora os pesquisadores tenham classificado os episódios segundo diferentes formas de violência política. O resultado sugere uma distância entre a existência dos episódios e a maneira como eles chegam ao público — aspecto especialmente relevante quando o discurso de ampliação da participação feminina convive com mecanismos que podem dificultar essa participação.
Esse cruzamento também chama atenção para quem consegue chegar à política e permanecer nela. O estudo sobre violência política registrou que, até janeiro de 2024, as representações convertidas em ações penais eleitorais pelo Ministério Público Federal na amostra analisada envolviam mulheres que já exerciam mandato. Já o mapeamento da Casa Galileia identifica, entre as lideranças conservadoras, dirigentes partidárias, lideranças comunitárias e ex-vereadoras sem mandato, mostrando que a construção dessa rede começa antes da chegada aos cargos eletivos.
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