Manaus, 21 de setembro de 2026 – O Amazonas entrou no radar da expansão dos grandes data centers, com planos tanto do senador e candidato ao governo Omar Aziz (PSD) quanto pelo atual, Roberto Cidade (União Brasil). Enquanto o plano de governo de Aziz prevê a criação de um polo de data centers de grande escala e um centro estadual para armazenar dados considerados críticos, Cidade já vem defendendo, junto ao governo federal, regras específicas para essas instalações.
Embora sejam associados a serviços digitais e atividades econômicas de baixo impacto aparente, data centers são grandes infraestruturas físicas e consumidoras intensivas de recursos naturais. Para funcionar continuamente, precisam de enormes quantidades de eletricidade, sistemas permanentes de refrigeração, água em determinadas tecnologias, equipamentos de segurança e redes de transmissão de dados, além de estruturas redundantes para evitar interrupções.
As duas frentes aparecem em documentos de 2025 e 2026 analisados pelo Vocativo, em meio à expansão nacional do setor e à criação de incentivos fiscais federais para novos centros de processamento de dados. Em setembro de 2026, o Senado aprovou o projeto que institui o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), com suspensão de tributos federais sobre equipamentos e exigências de sustentabilidade, eficiência hídrica e fornecimento de energia.
A proposta de Aziz está registrada no Plano Estratégico de Desenvolvimento do Estado do Amazonas 2027–2037, no programa “Amazonas Digital e Inovador 2027–2037”, elaborado em 2026 e entregue à Justiça Eleitoral como parte do conjunto de propostas do candidato. O documento estima R$ 6,8 bilhões em investimentos e prevê, entre outras medidas, a articulação para instalação de estruturas de processamento de dados de hiperescala, além de um Data Center Estadual Soberano Tier III.

No caso de Cidade, a articulação ocorre a partir da máquina pública. O governo estadual passou a defender a posição do Amazonas na regulamentação do Redata e, em documento encaminhado à Presidência da República em setembro, sustentou que o Estado não deveria ser impedido de utilizar gás natural na geração de energia para data centers, desde que os projetos atendam aos critérios ambientais e de eficiência estabelecidos pelo governo federal. A defesa ocorre enquanto o Estado busca se apresentar como território apto a receber empreendimentos de elevado consumo elétrico.

O plano de Omar e a estrutura que o Estado pretende construir
No Eixo 7 do programa Amazonas Digital e Inovador, o plano de Aziz estabelece como meta a articulação política e institucional para atrair estruturas de processamento de dados de hiperescala. São instalações muito maiores que os data centers convencionais, voltadas ao processamento e armazenamento de grandes volumes de informações, inclusive para aplicações de computação em nuvem e inteligência artificial.
O documento apresenta como vantagens competitivas do Amazonas a disponibilidade de energia, a posição geográfica e o clima. O cronograma coloca a consolidação desse polo na Fase 3, chamada de Maturidade e Inovação, prevista para 2033 a 2037. A proposta, portanto, envolve não apenas infraestrutura pública, mas a criação das condições para atrair empreendimentos privados de grande porte.
No Eixo 9, o mesmo plano prevê a construção de um Data Center Estadual Soberano Tier III, destinado à hospedagem de informações consideradas críticas pelo governo. Entre os dados citados estão registros das áreas de saúde, segurança pública, educação e assistência social, acompanhados por um Centro de Operações de Segurança (SOC) para monitoramento permanente dos sistemas.
A execução técnica e operacional é atribuída à PRODAM — Processamento de Dados Amazonas S.A.. Para financiar o programa, o documento menciona recursos ordinários do Estado, programas federais, incluindo Norte Conectado e SUS Digital, financiamentos de organismos multilaterais, como Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Banco Mundial e CAF, além de possíveis parcerias público-privadas (PPPs).

Ex-governador começou as articulações
O cenário não começa, porém, com o plano eleitoral de 2026. Durante a administração de Wilson Lima (União Brasil), o Estado já havia criado mecanismos de incentivo para atividades relacionadas à infraestrutura de data centers. O Decreto nº 45.942/2022, por exemplo, concedeu incentivo fiscal para a fabricação de “Contêineres Metálicos (Data Center)”, enquanto deliberações posteriores do CODAM mantiveram a atividade dentro da política estadual de incentivos.
Em dezembro de 2025, na 317ª Reunião Ordinária do CODAM, documentos estaduais passaram a registrar de forma ainda mais explícita o interesse estratégico em data centers. Um decreto publicado em janeiro de 2026 menciona o Amazonas como “polo potencial para a instalação de Data Centers soberanos e sustentáveis”, relacionando essa possibilidade à disponibilidade de energia firme. O ato foi assinado por Wilson Lima, então governador.
A transição de governo ocorreu meses depois. Wilson Lima e o vice Tadeu de Souza renunciaram em abril de 2026 para disputar outros cargos, e Roberto Cidade assumiu interinamente o Executivo. Em 4 de maio, a Assembleia Legislativa o elegeu governador em eleição indireta, com Serafim Corrêa como vice, para o mandato-tampão.
Cidade leva o gás natural para dentro da disputa pelo Redata
A atuação de Roberto Cidade acrescentou uma dimensão energética à política de atração de data centers. Em setembro de 2026, o governador encaminhou à Presidência da República o Ofício nº 429/2026-GE, no qual defende que a regulamentação do Redata preserve a possibilidade de utilização do gás natural por empreendimentos instalados no Amazonas.
A argumentação apresentada pelo governo estadual é que o combustível poderia fornecer energia firme para instalações que precisam operar continuamente. A proposta defendida por Cidade considera a possibilidade de combinar gás natural com fontes renováveis, armazenamento por baterias e outras formas de gerenciamento da demanda, em vez de estabelecer uma proibição tecnológica prévia ao combustível.
No documento, o governo sustenta que a regulamentação deveria avaliar o desempenho efetivo de descarbonização e eficiência de cada projeto. A posição é apresentada no contexto das diferenças de infraestrutura entre as regiões brasileiras e da intenção de permitir que o Amazonas dispute investimentos em data centers mesmo sem possuir uma rede elétrica com as mesmas características dos grandes centros consumidores do país.

A aprovação do Redata
A discussão ocorre paralelamente à tramitação do próprio Redata. O texto aprovado pelo Senado em 1º de setembro de 2026 prevê benefícios tributários para empresas de data center, mas estabelece contrapartidas relacionadas à sustentabilidade, incluindo critérios de eficiência hídrica e fornecimento de energia. A proposta também reduz algumas exigências para empreendimentos instalados nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, criando condições específicas para esses territórios.
O ponto ambiental está justamente nessa diferença entre fonte de energia e resultado ambiental. O gás natural continua sendo combustível fóssil e sua utilização para geração elétrica produz emissões de gases de efeito estufa; ao mesmo tempo, a proposta apresentada pelo governo amazonense argumenta que ele poderia substituir combustíveis mais intensivos em carbono utilizados em sistemas isolados e funcionar como complemento de fontes renováveis.
A escolha tecnológica, portanto, não elimina a necessidade de calcular a demanda energética do empreendimento. Um estudo do Pembina Institute, utilizado como referência internacional na análise dos impactos econômicos e ambientais de grandes instalações, estima que um data center de 100 megawatts, no padrão Tier III, possa consumir aproximadamente 753 GWh de eletricidade por ano. O mesmo estudo estima custos operacionais anuais de cerca de US$ 145 milhões para uma estrutura desse porte, considerando energia, manutenção, monitoramento e aluguel do terreno.
Calor e umidade colocam a promessa climática à prova
Um dos argumentos apresentados no plano de Aziz é que o clima amazônico poderia representar uma vantagem para a implantação de data centers. A questão, porém, depende de qual tecnologia de refrigeração será utilizada, porque temperatura e umidade influenciam diretamente a possibilidade de aproveitar o ar externo para retirar o calor dos equipamentos.
Estudo publicado em 2026 na revista científica Scientific Reports analisou justamente as limitações provocadas pela combinação de calor e umidade sobre sistemas de air free cooling, que utilizam o ar externo para reduzir ou substituir parte da refrigeração mecânica. A pesquisa concluiu que condições simultâneas de temperatura e umidade elevada limitam esse tipo de operação, especialmente em regiões tropicais.
Pelos parâmetros analisados no estudo, a introdução direta de ar externo depende de condições como temperatura de entrada de até 27°C, umidade relativa entre 10% e 70% e ponto de orvalho inferior a 15°C. Regiões tropicais aparecem entre aquelas onde as condições de calor e umidade podem tornar o uso de ar externo como principal estratégia de refrigeração menos frequente.
Isso não significa que um data center não possa funcionar em Manaus ou em outra cidade amazônica. Significa que o projeto precisa considerar a tecnologia de refrigeração compatível com o clima local, além da demanda energética adicional provocada pelos sistemas necessários para controlar temperatura e umidade.
Pesquisas recentes mostram, inclusive, que há alternativas tecnológicas para ambientes quentes e úmidos. Um estudo publicado em 2025 sobre sistemas combinados de refrigeração em data centers instalados em clima quente e úmido encontrou ganhos de eficiência a partir da combinação entre pré-resfriamento evaporativo e refrigeração mecânica, mostrando que o desempenho depende das condições climáticas e da configuração adotada.
O setor também vem ampliando o uso de sistemas que reduzem a necessidade de reposição permanente de água. Levantamento divulgado pela Brasscom em agosto de 2025, elaborado em parceria com a Associação Brasileira de Data Centers (ABDC) e com revisão técnica da Fundação Apolônio Salles de Desenvolvimento Educacional (FADURPE), estima que cerca de 80% do parque brasileiro já utiliza sistemas de refrigeração em circuito fechado e que essa participação poderá chegar a 90% até 2030.
No modelo de circuito fechado analisado pelo estudo, o reservatório precisa de aproximadamente 23 mil litros de água por megawatt instalado, com reposições anuais estimadas em 10%. O sistema reduz drasticamente a necessidade de retirada contínua de água em comparação com tecnologias evaporativas, embora não elimine a necessidade de água na instalação e na manutenção.
O contraste é maior nos sistemas que dependem de evaporação. O estudo Power Struggle, do Pembina Institute, estima que uma instalação de 100 MW pode chegar a 1,4 bilhão de litros de água por ano, dependendo da infraestrutura de refrigeração utilizada. O próprio relatório ressalta que o volume varia conforme a tecnologia escolhida.
No Amazonas, essa diferença tecnológica ganha outra dimensão porque o planejamento estadual pretende atrair instalações de grande porte. A escolha entre circuitos abertos, fechados, refrigeração líquida, sistemas híbridos ou outras tecnologias terá impacto direto sobre a quantidade de água retirada, a energia consumida e os custos permanentes de operação.

Energia, infraestrutura e a conta ambiental da expansão
A demanda elétrica é outro fator central na implantação de data centers de hiperescala. Segundo a Brasscom, os data centers instalados no Brasil consumiram 11,3 TWh em 2024, equivalentes a aproximadamente 1,7% do consumo nacional de eletricidade, e a projeção do estudo é de que a participação alcance 3,6% em 2029, acompanhando o crescimento da capacidade instalada.
No Amazonas, o impacto dependerá da localização dos empreendimentos. Manaus está integrada ao Sistema Interligado Nacional (SIN), enquanto diferentes municípios do interior dependem de sistemas isolados, nos quais a oferta de energia possui características distintas e a geração termelétrica exerce papel relevante.
A diferença é importante porque um data center de hiperescala não pode ser tratado como um consumidor comum. A instalação precisa de fornecimento contínuo, redundância e capacidade suficiente para suportar cargas elevadas durante 24 horas por dia, além de sistemas próprios de emergência e segurança operacional.
O estudo Power Struggle calcula 753 GWh anuais para um data center de 100 MW. A dimensão da demanda ajuda a explicar por que a localização e a disponibilidade efetiva de energia precisam ser analisadas antes da escolha do terreno e não apenas depois da decisão de instalar o empreendimento.
A infraestrutura necessária pode incluir subestações, linhas de transmissão, sistemas de distribuição e novas fontes de geração. O relatório internacional também chama atenção para a possibilidade de que investimentos em reforço da rede associados a grandes consumidores sejam incorporados aos custos do sistema elétrico, dependendo das regras de conexão e de rateio adotadas.
No caso amazonense, a defesa do gás natural feita por Roberto Cidade está diretamente ligada a esse problema. O governo estadual argumenta que a disponibilidade regional do combustível pode contribuir para garantir potência firme e complementar fontes renováveis, especialmente em situações nas quais a infraestrutura elétrica disponível não ofereça a mesma redundância encontrada em outras regiões.
Mas a opção energética também produz consequências ambientais próprias. Uma termelétrica movida a gás natural emite dióxido de carbono, ainda que a intensidade de emissões possa ser diferente daquela de outros combustíveis fósseis. O resultado ambiental dependerá, entre outros fatores, da quantidade de gás consumida, da eficiência da geração, da participação de fontes renováveis e do perfil da rede que abastecerá cada data center.
Há ainda o custo operacional da infraestrutura pública prevista no plano de Aziz. O documento informa que a PRODAM faturou R$ 164,4 milhões em 2024 e registra déficit de R$ 16,8 milhões no período de 2023 a 2024. Em paralelo, o estudo Power Struggle estima que apenas a operação anual de um data center de 100 MW, no padrão analisado, pode alcançar aproximadamente US$ 145 milhões.
A comparação não significa que a PRODAM necessariamente financiaria ou operaria sozinha uma instalação privada dessa escala. O ponto documental é outro: o plano prevê um Data Center Estadual Soberano, e a estrutura exigirá recursos não apenas para construção, mas também para energia, refrigeração, manutenção, segurança e atualização permanente dos equipamentos.

Impactos vão além dos limites físicos dos data centers
Os impactos também não terminam quando o prédio entra em operação. A Análise do Ciclo de Vida (LCA) amplia a avaliação para todas as etapas necessárias para colocar e manter um data center em funcionamento, incluindo a extração de minerais e outras matérias-primas, fabricação de servidores, chips, equipamentos de rede e sistemas de refrigeração, transporte dos componentes até o local de instalação, consumo de energia durante a operação, substituição periódica dos equipamentos e destinação dos resíduos eletrônicos. Isso significa que parte da pegada ambiental de uma instalação ocorre fora dos limites físicos do próprio data center, em etapas anteriores e posteriores à sua operação.
A rápida evolução tecnológica aumenta essa questão porque servidores, unidades de armazenamento e equipamentos de rede podem ser substituídos antes do fim de sua vida física para acompanhar o aumento da capacidade de processamento e as exigências de desempenho. O descarte desses equipamentos produz resíduos eletroeletrônicos, que podem conter metais, plásticos e outros materiais que exigem tratamento e destinação adequados. Quanto maior a capacidade instalada e mais acelerado o ciclo de atualização dos equipamentos, maior tende a ser a quantidade de materiais que precisa entrar e sair continuamente dessas estruturas.
No Amazonas, a localização acrescenta uma camada adicional ao problema: a própria infraestrutura necessária para manter um data center funcionando está exposta às características ambientais e logísticas da região. A dependência de transporte fluvial é relevante para a movimentação de equipamentos e outros insumos em um Estado de grandes distâncias e baixa integração rodoviária. Períodos de seca severa podem alterar níveis dos rios e dificultar o transporte de cargas, enquanto cheias intensas podem atingir acessos terrestres, instalações elétricas e outras estruturas de apoio.
A vulnerabilidade também alcança as telecomunicações. Um data center de grande porte depende de conexões de alta capacidade e, em instalações críticas, de redundância física e lógica para continuar operando caso uma rota seja interrompida. Cabos de fibra óptica instalados em rios, estradas, pontes e outras estruturas de passagem podem ficar sujeitos a diferentes tipos de interrupção ou danos, tornando a escolha das rotas de conectividade uma questão de infraestrutura tão importante quanto a construção do próprio prédio.
O mesmo raciocínio vale para o fornecimento de energia. Uma instalação que precisa funcionar 24 horas por dia não depende apenas da existência de geração suficiente, mas também da resiliência de toda a cadeia que leva a eletricidade até os servidores. Subestações, linhas de transmissão, sistemas de distribuição e equipamentos de emergência precisam suportar eventos que possam interromper o fornecimento, enquanto a localização em áreas sujeitas a cheias ou outros eventos extremos acrescenta requisitos de proteção e redundância.
Há ainda uma relação direta entre clima e operação. Temperaturas elevadas podem aumentar a carga dos sistemas de refrigeração, enquanto alterações na disponibilidade de água podem afetar instalações que utilizam tecnologias dependentes de reposição hídrica. Em um Estado sujeito simultaneamente a períodos de seca extrema e a grandes cheias, o planejamento de um empreendimento desse porte precisa considerar condições que podem variar significativamente ao longo de sua vida útil.
Essa vulnerabilidade ganha importância porque um data center não é uma instalação isolada. Para operar continuamente, ele depende de energia, água quando necessária, telecomunicações, transporte, sistemas de emergência, fornecedores de equipamentos e serviços especializados. Uma interrupção em qualquer um desses componentes pode afetar a operação, razão pela qual a escolha do terreno e a avaliação da infraestrutura existente fazem parte da própria estratégia de resiliência do empreendimento.
No caso do Amazonas, portanto, a discussão ambiental não se limita à quantidade de água consumida ou à origem da eletricidade utilizada pelos servidores. A implantação de grandes data centers envolve uma cadeia física que começa na fabricação dos equipamentos, passa pelo transporte e pela construção, continua durante décadas de consumo de energia e refrigeração e termina na substituição dos componentes e na destinação dos resíduos. Em uma região submetida a secas, cheias e grandes distâncias logísticas, cada uma dessas etapas acrescenta uma variável que precisa entrar no planejamento dos empreendimentos.
O que (não) disseram suas assessorias
O Vocativo procurou a assessoria de Omar Aziz para saber se os possíveis impactos relacionados ao consumo de água e energia, aos custos de operação, à infraestrutura elétrica e à escolha dos locais para instalação dos data centers foram considerados na elaboração do plano, além de questionar quais medidas a campanha pretende adotar para reduzir esses impactos. A assessoria de Roberto Cidade também foi procurada sobre os mesmos pontos e sobre as articulações do governo estadual para atração de data centers. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta de nenhuma das duas assessorias. Caso haja manifestação posterior, ela será incorporada ao texto.
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