Manaus, 04 de setembro de 2026 – Manaus corre risco real de escassez de água no médio prazo, com a maior parte do município classificado como de “classe crítica” para 2040 em projeções da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). O cenário foi apresentado no estudo “O desafio da segurança hídrica na região de Manaus e políticas de sustentabilidade”, publicado nessa quinta-feira, 3, pela consultoria GO Associados. A pesquisa considera os efeitos combinados de secas mais intensas e aumento da demanda por água.
As projeções utilizadas pelo estudo apontam para um aumento de 7% nas retiradas totais de água até 2040, impulsionado principalmente pelo crescimento de 43% da demanda industrial e de 23% da demanda para abastecimento humano. Ao mesmo tempo, a redução da disponibilidade hídrica provocada pelas mudanças climáticas e a pressão sobre as reservas subterrâneas podem ampliar a vulnerabilidade do sistema de abastecimento da capital amazonense.

O que significa o risco de “classe crítica”
A classificação utilizada no estudo vem do relatório “Impacto da mudança climática nos recursos hídricos do Brasil”, publicado pela ANA em 2024, e indica o impacto potencial das alterações climáticas sobre a disponibilidade de água. Para 2040, a maior parte do município de Manaus aparece na classe crítica, enquanto uma parcela menor está enquadrada na classe alerta.
Na prática, a classe crítica representa uma situação em que há alta probabilidade de a oferta de água se tornar insuficiente para atender às demandas locais no período projetado. Já a classe alerta indica um nível intermediário de risco, no qual existe uma tendência de desequilíbrio entre a quantidade disponível e o volume necessário.
A projeção considera o cruzamento de modelos de mudanças climáticas, que estimam alterações na precipitação e na temperatura, com modelos de demanda socioeconômica, que levam em conta fatores como crescimento populacional e expansão de atividades industriais e termoelétricas. Os dados utilizados pela GO Associados têm como base, além do relatório climático de 2024, o “Atlas da Água: segurança hídrica no Brasil”, publicado pela ANA em 2023.
O problema é tratado no estudo como um “binômio de risco”, formado pela combinação entre a possibilidade de secas mais severas e o crescimento do consumo de água. Em Manaus, essa pressão ocorre em um sistema que depende tanto da captação no Rio Negro quanto de reservas subterrâneas utilizadas para complementar o abastecimento.

Rios, poços e a pressão sobre as reservas
Atualmente, segundo os dados apresentados no estudo, Manaus possui cerca de 2 milhões de habitantes e cobertura de abastecimento de água de 97%. A demanda hídrica total do município é estimada em aproximadamente 21 metros cúbicos por segundo (m³/s), sendo a maior parcela associada ao setor de termoeletricidade, seguida pelo consumo humano, pelo uso industrial e por outras finalidades.
A matriz de abastecimento é formada principalmente por água superficial. Cerca de 84% da água utilizada vem do Rio Negro, captada por quatro sistemas principais de tratamento, enquanto os outros 16% têm origem subterrânea, obtida por meio de 50 poços operados pelo sistema público.
A dependência do Rio Negro torna os períodos de estiagem especialmente relevantes para a segurança hídrica da cidade. O material analisado cita a seca de 2024, quando o nível do rio atingiu o menor patamar em mais de 120 anos, como exemplo de evento extremo capaz de comprometer temporariamente a captação de água para o abastecimento e para atividades industriais.
Nas reservas subterrâneas, o estudo aponta outro fator de pressão: a existência de milhares de poços particulares. A estimativa apresentada é de mais de 27 mil poços particulares em operação em Manaus, enquanto pouco mais de 5 mil estavam formalmente registrados até 2022.
O levantamento também relaciona a expansão urbana à capacidade de reposição dessas reservas. Quase 70% do território de Manaus teria passado por processos de antropização, como pavimentação e construção, e a impermeabilização do solo reduz a quantidade de água da chuva que consegue penetrar no terreno e contribuir para a recarga dos aquíferos.
Segundo o material, os poços públicos têm profundidade média de aproximadamente 200 metros, em uma região cujo solo é predominantemente argiloso e profundo. A redução da recarga subterrânea, combinada com a retirada de água por poços, pode levar ao rebaixamento contínuo dos níveis de água subterrânea.

Demanda deve crescer até 2040
O cenário projetado para as próximas décadas também é marcado pelo aumento da necessidade de água. De acordo com os dados oficiais utilizados pelo estudo, as retiradas totais no município deverão crescer 7% até 2040, enquanto alguns setores apresentarão expansão significativamente maior.
A demanda de água da indústria deverá aumentar 43% no período, segundo a projeção. Para o abastecimento humano, o crescimento estimado é de 23%, o que amplia a pressão sobre os mananciais em uma cidade que já enfrenta períodos de estiagem extrema.
A termoeletricidade aparece atualmente como o principal componente da demanda hídrica de Manaus. O estudo destaca que a geração de energia térmica utiliza água em processos relacionados ao resfriamento e à vaporização, fazendo com que a atividade tenha peso relevante no consumo total do município.
O efeito da escassez, portanto, não se restringe ao abastecimento doméstico. Uma redução significativa da disponibilidade de água no Rio Negro pode afetar também atividades industriais e outros setores que dependem da captação de água, com possíveis impactos sobre o funcionamento das linhas de produção do Polo Industrial de Manaus.
O estudo também aponta que a vulnerabilidade não é distribuída de maneira uniforme pela cidade. Mais da metade da população de Manaus vive em áreas classificadas como de alta vulnerabilidade social, onde problemas relacionados à infraestrutura de saneamento, ao acesso à água e à poluição dos igarapés urbanos podem ampliar os efeitos de períodos de escassez.
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