Territórios

Amazônia tem apagão de dados sobre crimes ambientais, aponta estudo

Pará registrou 7.530 inquéritos policiais de crimes ambientais, enquanto o Amazonas informou apenas 171; Amapá, Maranhão e Mato Grosso sequer conseguiram fornecer os dados de seus inquéritos policiais

Manaus, 25 de agosto de 2026 — A dimensão dos crimes ambientais na Amazônia Legal é muito maior do que mostram as estatísticas oficiais. O estudo Esforços estaduais no combate aos crimes ambientais na Amazônia Legal (2026), elaborado pelo Instituto Igarapé em parceria com o Consórcio Interestadual Amazônia Legal (CAL), mostra que, entre janeiro de 2023 e julho de 2025, as polícias estaduais trabalharam com sistemas diferentes e deixaram lacunas importantes sobre a apuração de crimes como desmatamento, garimpo ilegal e incêndios florestais. Segundo o levantamento, os Estados ainda enfrentam dificuldades para registrar, investigar e comparar as ocorrências de forma padronizada.

O problema aparece na própria quantidade de investigações informadas pelos Estados. O Pará registrou 7.530 inquéritos policiais de crimes ambientais, enquanto o Amazonas informou apenas 171; Amapá, Maranhão e Mato Grosso sequer conseguiram fornecer os dados de seus inquéritos policiais para o levantamento. A diferença, portanto, não permite afirmar que um Estado tenha muito mais crimes ambientais do que outro ou que uma floresta esteja mais protegida: ela também pode refletir subnotificação, diferenças nos sistemas de registro e capacidade desigual de investigação.

O Pará concentrou quase 90% dos inquéritos ambientais informados no diagnóstico elaborado pelo Instituto Igarapé e pelo CAL (Reprodução / Instituto Igarapé)

A estrutura disponível ajuda a explicar por que parte dos crimes pode não chegar às estatísticas policiais. Na Amazônia Legal, cada policial militar precisa cobrir, em média, 91 km², mais de quatro vezes a média registrada no restante do País, de 21 km²; entre policiais civis, a área média chega a 339 km² por agente, em uma região onde grandes áreas rurais e florestais ficam distantes dos centros urbanos e dos serviços públicos.

Quando o crime não chega à estatística

O diagnóstico mostra que os registros policiais também são influenciados pela facilidade de acesso às ocorrências. Infrações como caça irregular e maus-tratos a animais domésticos tendem a acontecer próximas aos centros urbanos e podem ser identificadas por flagrantes ou denúncias, enquanto grandes desmatamentos, queimadas criminosas e garimpos ilegais frequentemente acontecem em áreas remotas, onde a presença policial é limitada.

Essa diferença aparece nas chamadas para o 190 analisadas pelo estudo. 82% dos registros correspondem a ocorrências consideradas de menor impacto, enquanto 18% estão relacionados a crimes como desmatamento e garimpo; esses números, porém, não representam necessariamente a proporção real dos crimes existentes, porque atividades ilegais em áreas isoladas podem não ser denunciadas ou sequer chegar ao conhecimento das autoridades.

O próprio canal de emergência revela essa limitação. Moradores de regiões dominadas por atividades ilegais podem não denunciar por medo de represálias ou por depender economicamente dessas atividades, enquanto crimes praticados longe das cidades têm menor possibilidade de serem percebidos por policiais ou pela população. Assim, o que aparece nos registros pode representar apenas uma parcela do que efetivamente ocorre na floresta.

A estrutura policial disponível também restringe a capacidade de transformar uma ocorrência em investigação. Toda a Amazônia Legal dispõe de 11 delegacias especializadas em meio ambiente, uma delegacia fluvial, 19 aviões e 24 helicópteros para os nove Estados: Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.

Amazônia Legal dispõe de apenas 11 delegacias especializadas em meio ambiente para os nove Estados da região (Reprodução)

No caso da Polícia Civil, cada agente responde, em média, por 339 km². Uma investigação ambiental pode exigir deslocamentos por grandes distâncias, acesso por rios ou estradas precárias e permanência em locais isolados, enquanto ocorrências menores próximas aos centros urbanos podem ser registradas e apuradas com menor necessidade de estrutura especializada.

O resultado aparece também nos dados sobre incêndios. No Pará, Estado que concentra grande parte das ocorrências e investigações ambientais informadas no levantamento, somente 5% das investigações sobre incêndios florestais foram concluídas, segundo o diagnóstico; o número evidencia a distância entre a existência de uma ocorrência, seu registro formal e a capacidade de chegar à identificação dos responsáveis e à conclusão da investigação.

Um apagão de dados sobre a floresta

Outro obstáculo apontado pelo levantamento é a ausência de uma metodologia única para registrar crimes ambientais. As secretarias estaduais de segurança pública utilizam sistemas e critérios próprios, o que dificulta a comparação entre os Estados e faz com que números aparentemente muito diferentes possam esconder realidades distintas de registro, investigação e capacidade institucional.

Os números disponíveis mostram essa disparidade. O Pará registrou 7.530 inquéritos policiais de crimes ambientais, enquanto o Amazonas registrou apenas 171 no período analisado. A diferença é expressiva, mas o relatório ressalta que ela não significa que a floresta amazonense esteja mais protegida, já que a baixa quantidade de registros pode estar relacionada à subnotificação, à falta de estrutura e à ausência de sistemas capazes de capturar adequadamente os crimes.

A concentração fica ainda mais evidente quando considerados os 8.769 inquéritos informados no levantamento. Os 7.530 registrados pelo Pará representam quase 90% do total, enquanto Estados como Amapá, Maranhão e Mato Grosso não conseguiram fornecer os dados de seus inquéritos policiais para o diagnóstico, deixando uma parte relevante da realidade regional fora da base analisada.

Isso significa que o número oficial de investigações não pode ser lido automaticamente como uma medida da quantidade de crimes cometidos. Um Estado que registra poucos inquéritos pode ter menos ocorrências, mas também pode enfrentar dificuldades para receber denúncias, registrar casos, abrir investigações, deslocar equipes ou manter sistemas capazes de acompanhar crimes ambientais.

O mesmo problema aparece na diferença entre ocorrência e investigação. Uma chamada ao 190 pode não gerar uma investigação formal, assim como um crime ocorrido em uma região isolada pode não gerar sequer uma denúncia; quando os sistemas estaduais não utilizam critérios comuns, essas etapas deixam de formar uma fotografia uniforme da pressão criminosa sobre a floresta.

Chamadas para o 190 registram principalmente ocorrências de menor impacto, enquanto crimes ambientais graves podem não ser denunciados (Reprodução)
Ecossistema criminal

O diagnóstico também relaciona essa dificuldade de mensuração a um ecossistema criminal mais amplo. Desmatamento, mineração e ocupação ilegal de áreas podem estar associados, segundo o levantamento, a fraudes documentais, lavagem de dinheiro, tráfico internacional de drogas, contrabando de armas e violência física, inclusive assassinatos.

Nesse contexto, a ausência de registros completos não afeta apenas a dimensão estatística do problema. Os crimes ambientais de maior impacto podem envolver estruturas organizadas, diferentes fontes de financiamento, documentos fraudulentos, logística e conexões com outras atividades ilegais, exigindo investigações que ultrapassem o flagrante e identifiquem os responsáveis e as relações entre os envolvidos.

A dimensão ambiental amplia ainda mais o impacto desse cenário. O diagnóstico informa que o desmatamento acumulado da Amazônia se aproxima de 20% a 25% do bioma, faixa próxima do limite de transformação da floresta apontado por cientistas, e registra que mais de 40% das emissões de gases poluentes do Brasil estão diretamente ligadas a crimes ambientais na floresta.

A destruição da cobertura vegetal também afeta a circulação de umidade transportada pela atmosfera, os chamados “rios voadores”, que contribuem para a distribuição de chuvas em áreas do Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. O diagnóstico relaciona esse processo ao abastecimento de água, à produção de alimentos e à geração de energia em outras regiões do País.


Descubra mais sobre Vocativo

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

1 comentário

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.