Territórios

Estudo coloca Manaus entre as 10 cidades mais hostis do planeta ao corpo humano

Estudo publicado em 2026 avaliou 205 cidades com mais de 1 milhão de habitantes e colocou Manaus em 9º lugar no indicador de exposição ao perigo, com 0,96. A pesquisa também considera vulnerabilidade social, vegetação, energia, ar-condicionado e capacidade de enfrentamento

Manaus, 13 de agosto de 2026 – Manaus aparece entre as cidades com maior exposição ao perigo do calor no mundo, segundo o estudo científico “Moving beyond exposure: a globally comparable framework for heat risk assessment in cities”, publicado em 2026 na revista Sustainable Cities and Society. Na pesquisa, que avaliou 205 grandes cidades com mais de 1 milhão de habitantes, a capital do Amazonas ocupa a 9ª posição no indicador de Exposição ao Perigo (Hazard Exposure), com pontuação de 0,96, em uma escala de zero a um.

O resultado coloca Manaus entre os dez centros urbanos analisados mais submetidos às condições físicas associadas ao estresse térmico. O estudo, porém, não classifica a capital como a 9ª cidade de maior risco geral, porque seu método diferencia o calor físico, a vulnerabilidade da população e a capacidade disponível para enfrentar seus efeitos.

Manaus aparece em 9º lugar no indicador global de exposição ao perigo do calor (Reprodução)
Estudo mede calor, vulnerabilidade e capacidade de enfrentamento

O trabalho propõe um modelo global para medir o risco térmico urbano que vai além da temperatura registrada pelos termômetros. A metodologia considera três dimensões: Exposição ao Perigo, que representa as condições físicas de calor; Vulnerabilidade, relacionada às características da população; e Falta de Capacidade de Enfrentamento, associada aos recursos disponíveis para reduzir os impactos.

No indicador de exposição, Manaus alcançou 0,96, ficando na 9ª colocação entre as 205 cidades estudadas. Para chegar a esse resultado, o trabalho utiliza variáveis relacionadas ao estresse térmico, incluindo o UTCI (Universal Thermal Climate Index), que considera temperatura do ar, umidade, velocidade do vento e radiação térmica, além de indicadores como os Cooling Degree Days (CDD).

O resultado muda quando os três componentes são combinados. No Índice de Risco Composto, Manaus aparece na 26ª posição, com pontuação de 0,66, abaixo de cidades que apresentam uma combinação mais severa entre calor, vulnerabilidade social e ausência de recursos para enfrentar temperaturas elevadas.

O estudo aponta que mais de 95% das cidades classificadas em situação crítica, acima do percentil 90 de risco, estão no chamado Sul Global, especialmente no Sul e Sudeste da Ásia e na África Subsaariana. Entre os países que concentram cidades com níveis elevados de risco estão Índia, Paquistão, Nigéria e Gana, onde o calor se combina com condições socioeconômicas e estruturais que ampliam a exposição da população.

A pesquisa também chama atenção para a capacidade de enfrentamento baseada em infraestrutura. Entre os fatores considerados estão cobertura vegetal, disponibilidade de energia e penetração de aparelhos de ar-condicionado, elementos que podem reduzir a exposição imediata das pessoas ao calor, mas que apresentam limitações quando considerados como solução isolada.

Os autores tratam a dependência excessiva do ar-condicionado como uma possível forma de mal-adaptação. O aumento do uso desses aparelhos eleva a demanda por eletricidade, pode ampliar emissões de gases de efeito estufa e libera calor residual no ambiente urbano, enquanto estratégias de resfriamento passivo, como arborização, sombra e ventilação natural, podem reduzir a necessidade de refrigeração mecânica.

Modelo global considera calor, vulnerabilidade e capacidade de enfrentamento urbano (Reprodução)
Dados de Manaus mostram pressão térmica em 2026

O quadro identificado pelo estudo global é contextualizado, na documentação analisada pela reportagem, por registros meteorológicos recentes de Manaus. Dados horários da estação A101 do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) referentes a 2023, 2025 e aos primeiros sete meses de 2026 foram confrontados com as Normais Climatológicas do Brasil de 1991-2020 e com estudos acadêmicos sobre o clima e o microclima da capital.

Um dos registros destacados ocorreu em 6 de agosto de 2026, quando a estação de Manaus registrou 27,5°C como temperatura mínima. A medição foi realizada às 12h UTC, equivalente a 8h no horário local, e foi utilizada na análise para demonstrar a dificuldade de resfriamento da cidade durante o período noturno.

Segundo os dados apresentados no relatório, a temperatura mínima registrada naquela ocasião ficou acima da temperatura média anual histórica de 27,4°C utilizada como referência. A comparação, entretanto, envolve grandezas diferentes — uma mínima diária e uma média anual — e serve como indicador da intensidade térmica observada, não como equivalência entre os dois parâmetros.

No mesmo contexto, um registro de 29,2°C e 66% de umidade relativa do ar, feito pela estação meteorológica no período da manhã, foi utilizado para avaliar as condições de umidade de Manaus. A combinação entre temperatura elevada e umidade reduz a eficiência da evaporação do suor e aumenta o estresse térmico sobre o organismo.

Capital amazonense registrou índice de 0,96 na dimensão de exposição ao perigo. Foto: Fred Santana

O ponto de orvalho é uma das variáveis utilizadas para avaliar essa condição. Quanto mais alta a temperatura de ponto de orvalho, maior é a quantidade de vapor de água presente no ar e menor tende a ser a eficiência da evaporação do suor, mecanismo fundamental para o resfriamento do corpo humano.

Mapas de anomalias térmicas produzidos a partir de dados do INMET também foram utilizados na documentação analisada para comparar maio, junho e julho entre 2023 e 2026. Segundo o material, o mapa de julho de 2026 mostra áreas extensas da Amazônia e de outras regiões do País com anomalias positivas de temperatura entre 2°C e 3°C em relação à referência histórica utilizada.

A evolução também é observada em séries históricas analisadas em estudo da UFOPA, que utilizou dados de 2001 a 2024 e o teste estatístico de Mann-Kendall. Na análise apresentada, Manaus registrou tendência de aumento de 0,043°C por ano na temperatura máxima e de 0,044°C por ano na temperatura média, indicando uma tendência de aquecimento ao longo da série estudada.

Outro estudo, realizado por pesquisadores da UFAM, analisou diferenças de temperatura dentro de Manaus e identificou contrastes entre áreas densamente urbanizadas e regiões com cobertura florestal. No bairro do Coroado, os registros citados no relatório apontam diferença de até 6,5°C no mesmo horário entre áreas de maior ocupação urbana e locais associados à floresta da Universidade Federal do Amazonas.

O estudo sobre microclima também é utilizado para mostrar como uma média municipal pode esconder diferenças importantes entre áreas da mesma cidade. A presença de vegetação, o tipo de ocupação do solo, materiais construtivos e características da infraestrutura urbana interferem na temperatura registrada em diferentes pontos de Manaus.

Cobertura vegetal, energia e acesso ao ar-condicionado entram na avaliação do risco (Fred Santana)
Fontes diferentes, mesma direção

Os dados sobre mortalidade reforçam a dimensão de saúde pública abordada pelo trabalho. O documento cita estimativas referentes a uma onda de calor que atingiu cidades europeias em 2025, com 2.305 mortes em excesso em 12 cidades, das quais 80% ocorreram entre pessoas com mais de 65 anos, evidenciando a maior vulnerabilidade de determinados grupos diante de episódios extremos de calor.

Entre as medidas destacadas no contexto da pesquisa estão os sistemas de alerta precoce, especialmente para grupos mais vulneráveis, como idosos e crianças. A capacidade de enfrentar o calor, segundo a estrutura analisada, não depende apenas da existência de equipamentos de refrigeração, mas também das condições urbanas, ambientais, econômicas e sociais que determinam quem consegue efetivamente se proteger.


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