Manaus, 25 de junho de 2026 – Motoristas de aplicativos no Brasil enfrentam custos mensais que variam entre R$ 5.566 e R$ 5.706, segundo análise do Tribunal Superior do Trabalho (TST) divulgada nesta segunda-feira, 22. Cruzamento com dados da PNAD Contínua do IBGE de outubro de 2025 feito pela Revista CENARIUM mostra que a renda média do setor é de R$ 2.996, abaixo do nível necessário para cobrir essas despesas. Essa disparidade acontece em contexto de expansão do trabalho mediado por plataformas digitais que já atinge 1,7 milhão de trabalhadores no país.
Os cálculos do TST consideram motoristas com jornada de 22 dias mensais, operando cerca de oito horas por dia em ambiente urbano. As despesas incluem combustível, manutenção, depreciação do veículo, seguros, tributos, internet móvel, alimentação e multas, compondo um custo estrutural que permanece integralmente sob responsabilidade dos trabalhadores, enquanto as plataformas atuam como intermediadoras do serviço.

A divulgação do estudo ocorre em meio à consolidação do trabalho por aplicativos no Brasil, que cresceu 25,4% desde 2022, segundo dados do IBGE. A concentração do setor segue predominante na Região Sudeste, que reúne 53,7% dos trabalhadores plataformizados, enquanto regiões como Norte e Centro-Oeste registram as maiores taxas de expansão recente.
Custos acima da renda e retenção de parte dos ganhos
O ponto central da análise é o descompasso entre custos operacionais e renda efetiva. Além das despesas mensais superiores a R$ 5 mil, o estudo indica que as plataformas retêm entre 20% e 30% dos ganhos dos trabalhadores, sem transparência completa sobre os critérios de cálculo ou distribuição dos valores.
O cruzamento com a PNAD Contínua do IBGE reforça o cenário de desequilíbrio. Embora o rendimento mensal médio dos trabalhadores de aplicativos seja de R$ 2.996, o valor por hora trabalhada é de R$ 15,40, abaixo dos R$ 16,80 registrados entre trabalhadores fora das plataformas. A diferença ocorre porque os plataformizados cumprem jornadas médias de 44,8 horas semanais, contra 39,3 horas dos demais ocupados.
Essa dinâmica foi descrita pelos pesquisadores como um “paradoxo da renda”, no qual o ganho mensal só se mantém mais alto devido ao aumento da carga de trabalho. Segundo o IBGE, a diferença de jornada chega a 5,5 horas semanais a mais, o que amplia o volume de trabalho sem equivalência proporcional na remuneração.
O levantamento também aponta que a estrutura de remuneração é influenciada por mecanismos de incentivo e controle. Mais de 55% dos motoristas e 50% dos entregadores relatam que bônus e promoções alteram diretamente sua jornada, enquanto mais de 30% afirmam sofrer bloqueios ou punições que impactam o acesso ao trabalho.
Controle algorítmico, informalidade e risco financeiro
Os dados da PNAD Contínua mostram que 71,1% dos trabalhadores de plataformas estão na informalidade, índice que ultrapassa 83% entre motoristas e motociclistas. Mais de 60% não possuem cobertura previdenciária, o que os deixa sem proteção em casos de doença, acidente ou aposentadoria.
A análise também destaca o alto grau de controle das plataformas sobre a atividade. Segundo o IBGE, 91,2% dos motoristas não definem o valor das corridas, enquanto 76,7% não escolhem os clientes atendidos, evidenciando baixa autonomia operacional dentro do modelo de trabalho.
Outro ponto abordado no relatório é o risco de endividamento associado à instabilidade de renda. A Lei do Consignado (Lei 15.179/2025) autoriza empréstimos vinculados às plataformas, com descontos diretos na remuneração que podem chegar a 30% dos ganhos das corridas, ampliando a pressão financeira sobre os trabalhadores.
Em junho, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) aprovou a Convenção Internacional 193 sobre trabalho decente na economia de plataforma, que estabelece diretrizes para liberdade sindical, negociação coletiva e proteção social mínima aos trabalhadores do setor, em meio ao avanço global do modelo de trabalho mediado por aplicativos.

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