Humanidades

No Norte, 38% acreditam que terceiros não devem intervir em conflitos de casal

Pesquisa Datafolha revela que 38% dos entrevistados da Região Norte concordam com a frase “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”. Cerca de 63% dos entrevistados não consideram violência o controle das roupas da parceira por parte do companheiro

Manaus, 18 de junho de 2026 – Quase quatro em cada dez moradores da Região Norte ainda concordam que “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”, segundo pesquisa realizada pelo Datafolha para o Movimento Mulher 360 entre os dias 6 e 11 de abril de 2026. O levantamento identificou que 38% dos entrevistados nortistas concordam total ou parcialmente com a frase. Além disso, 63% dos entrevistados não consideram violência homem controlar roupa da parceira.

O dado chama atenção porque surge em um cenário no qual a violência contra a mulher já é percebida como uma das maiores preocupações sociais do país. Entre os entrevistados da Região Norte, 55% apontaram esse tipo de violência como a forma mais grave de violência existente atualmente, evidenciando uma contradição entre o reconhecimento da gravidade do problema e a permanência de crenças que desencorajam intervenções externas.

A pesquisa ouviu 2.004 pessoas em todo o Brasil, sendo 168 na Região Norte. O estudo integra o relatório “Violência Contra a Mulher e a Sociedade”, elaborado pelo Movimento Mulher 360 em parceria com o Datafolha, e utilizou questionários estruturados e módulos de autopreenchimento para ampliar a privacidade das respostas e reduzir a subnotificação de experiências de violência.

Pesquisa mostra que quase 40% dos entrevistados no Norte concordam com frase ligada à omissão diante da violência doméstica. Ilustração: Reprodução
O silêncio que dificulta interromper a violência

Os resultados apontam que a violência contra a mulher deixou de ser percebida apenas como uma questão privada e passou a ocupar posição central no debate público. Em âmbito nacional, 61% dos brasileiros consideram a violência contra mulheres o crime mais grave do país, superando temas tradicionalmente associados à segurança pública, como tráfico de drogas e assaltos à mão armada.

Apesar disso, a pesquisa mostra que ainda persistem visões que dificultam a atuação de familiares, vizinhos, amigos e da própria comunidade diante de situações de risco. O levantamento identificou que 34% dos brasileiros concordam com a frase “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, índice que alcança 38% entre os entrevistados da Região Norte.

A diretora-executiva do Movimento Mulher 360, Margareth Goldenberg, afirma que a pesquisa revela lacunas importantes na forma como a sociedade compreende a violência de gênero. “A pesquisa ajuda a mostrar que existe um vazio de reconhecimento justamente nas etapas anteriores à violência física, que são fundamentais para interromper o ciclo antes que ele se agrave”, afirma.

Segundo ela, a dificuldade de identificar sinais iniciais de violência acaba prolongando situações abusivas e retardando a busca por apoio. Margareth explica que muitos comportamentos coercitivos permanecem normalizados, fazendo com que inúmeras mulheres reconheçam a violência apenas quando ela já alcançou níveis mais graves.

Esse cenário se reflete em outro dado do levantamento. Quando questionados sobre um homem controlar as roupas usadas pela parceira em um jantar, 63% dos entrevistados do Norte não classificaram a atitude como violência contra a mulher. Entre eles, 42% consideraram o comportamento inadequado, mas não violento, enquanto 21% afirmaram enxergar a situação como normal dentro de um relacionamento.

Estudo reforça a importância da identificação precoce dos sinais de abuso. Ilustração: Reprodução
Violência invisível e desconfiança institucional

Os dados nacionais revelam que a violência contra mulheres está presente de forma ampla na sociedade brasileira. Entre as mulheres que responderam ao módulo de autopreenchimento, 74% relataram já ter sofrido algum tipo de violência ao longo da vida, percentual que expõe uma realidade muitas vezes distante dos registros oficiais.

As situações mais relatadas foram insultos e xingamentos, citados por 59% das entrevistadas. Em seguida aparecem ameaças de agressão física, mencionadas por 45%, e perseguição ou intimidação, registradas por 38%. O levantamento aponta ainda que as vítimas costumam sofrer diferentes formas de abuso simultaneamente, com média de 3,2 tipos distintos de violência por mulher.

A pesquisa também reforça a percepção de que o ambiente doméstico representa um dos principais espaços de risco para as mulheres. Nacionalmente, 71% dos entrevistados concordam que elas correm mais perigo dentro de casa do que fora dela, evidenciando a dimensão do problema nas relações familiares e afetivas.

Mesmo diante desse cenário, muitas vítimas permanecem sem procurar ajuda. Entre as mulheres que sofreram a agressão mais grave nos últimos 12 meses, 37% não tomaram qualquer providência após o episódio. Entre as mulheres com mais de 45 anos, esse percentual chega a 45%.

Dados mostram que muitas situações de violência permanecem fora dos registros oficiais. Ilustração: Reprodução

Quando decidem buscar apoio, as vítimas recorrem principalmente à rede informal. Familiares foram procurados por 27% das mulheres e amigos por 21%, enquanto as Delegacias da Mulher foram acionadas por 19% e a Polícia Militar por 8%.

A baixa confiança nas instituições aparece como um dos fatores associados a esse comportamento. Apenas 19% das mulheres afirmaram confiar muito na polícia para protegê-las, enquanto somente 10% disseram confiar muito na Justiça.

Margareth Goldenberg avalia que o enfrentamento da violência contra mulheres exige mobilização ampla da sociedade. “Os dados mostram que a pauta sobre violência contra a mulher deixou de ser percebida como um tema privado ou exclusivamente feminino. Ela se tornou uma questão central de segurança pública e social”, afirma.

A diretora-executiva destaca que a transformação desse cenário depende da participação conjunta de diferentes setores. “Por isso, acreditamos que transformar esse cenário exige conscientização e o comprometimento de atores públicos, privados e da sociedade”, acrescenta.

O levantamento identificou ainda um dos poucos consensos expressivos em torno do tema. Segundo a pesquisa, 89% dos brasileiros defendem que as escolas ensinem obrigatoriamente que homens e mulheres possuem os mesmos direitos e orientem estudantes a identificar situações de violência doméstica, indicando amplo apoio a ações preventivas voltadas à educação.


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