Manaus, 17 de junho de 2026 — Manaus registra temperaturas mais altas que as áreas de floresta ao seu redor e viu as ondas de calor se tornarem mais frequentes nas últimas décadas, apontam estudos científicos. O cenário ganha relevância diante do diagnóstico Beat the Heat Brasil, divulgado nesta segunda-feira, 15, que identificou baixa capacidade de resposta das cidades brasileiras ao calor extremo, apesar do reconhecimento crescente dos riscos climáticos.
A capital amazonense está entre as cidades incluídas na iniciativa internacional Beat the Heat (Mutirão Contra o Calor Extremo), lançada pela Presidência da COP30 em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). O programa busca apoiar municípios na criação de estratégias para reduzir os impactos das altas temperaturas, fenômeno que já afeta milhões de pessoas em diferentes regiões do país.
O diagnóstico ouviu 53 cidades brasileiras e identificou que 93% dos municípios consideram o calor extremo um risco relevante, enquanto 68% o colocam entre os três principais desafios climáticos locais. Apesar disso, a maioria ainda está nos estágios iniciais de planejamento e enfrenta dificuldades para transformar diagnósticos em medidas concretas.
Em Manaus, a preocupação é reforçada por um histórico de aquecimento urbano que vem sendo documentado por pesquisadores há mais de duas décadas. Estudos mostram que a cidade é, em média, 1,74°C mais quente que a floresta ao redor, podendo registrar diferenças de até 3°C nas temperaturas máximas anuais.

Cidade retém calor mesmo após o pôr do sol
O fenômeno é conhecido como Ilha de Calor Urbano e ocorre quando áreas verdes são substituídas por asfalto, concreto e edificações. Esses materiais absorvem grandes quantidades de energia solar durante o dia e liberam o calor lentamente ao longo da noite, mantendo a temperatura elevada mesmo após o pôr do sol.
Além do aumento da temperatura, os estudos identificaram mudanças na umidade do ar. Manaus apresenta níveis de umidade inferiores aos registrados em áreas de floresta preservada, cenário que contribui para ampliar a sensação de desconforto térmico em diferentes regiões da cidade.
Os pesquisadores também observaram um comportamento incomum da temperatura ao longo do dia. Enquanto áreas florestais apresentam um padrão mais estável, Manaus registra dois períodos de maior intensidade térmica: um nas primeiras horas da manhã e outro durante a tarde, quando o calor acumulado pelas superfícies urbanas atinge seu pico.
O avanço das ondas de calor acompanha esse processo de transformação da paisagem urbana. Segundo o estudo Avaliação de Tendência nas Ondas de Calor Registradas em Manaus/AM, Brasil, baseado em uma série histórica de 1970 a 2019, foram identificados 225 episódios de ondas de calor na capital amazonense. Desse total, 87,8% ocorreram entre 2000 e 2019, indicando uma intensificação desses eventos nas últimas décadas.
O ano de 2015 aparece entre os mais críticos da série histórica. Naquele período, a cidade permaneceu 121 dias sob condições de onda de calor, o equivalente a cerca de um terço do ano. Atualmente, os registros mostram que eventos de calor extremo ocorrem em todas as estações.

Falta planejamento e recursos
Enquanto o calor avança, o diagnóstico nacional aponta dificuldades na preparação dos municípios. Segundo o levantamento, 66% das cidades ainda não iniciaram ou estão apenas começando seus planos de ação, e 75% não utilizam dados de forma estruturada para orientar decisões relacionadas ao calor extremo.
A falta de recursos também aparece como um dos principais entraves. O estudo aponta que 85% dos municípios dependem de financiamento externo para implementar ações de adaptação, situação que limita a capacidade de resposta diante de eventos climáticos cada vez mais frequentes.
Entre as medidas já adotadas pelas cidades estão ações de arborização, criação de áreas sombreadas e recuperação de espaços verdes. Essas iniciativas aparecem em 77% dos municípios participantes, mas o levantamento destaca que ainda são raras as intervenções voltadas ao resfriamento de edificações e espaços públicos.
Soluções como ventilação natural, materiais refletivos, tintas térmicas e adaptações em prédios públicos ainda são pouco utilizadas. Programas de modernização de escolas, hospitais e outras estruturas urbanas aparecem em uma parcela reduzida das cidades analisadas.
O diagnóstico também chama atenção para os grupos mais expostos aos impactos das altas temperaturas. Moradores de áreas vulneráveis e trabalhadores que passam longos períodos ao ar livre estão entre as populações que enfrentam maior risco durante eventos de calor extremo.
A preocupação cresce diante das previsões do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), que apontam a possibilidade de formação de um Super El Niño na segunda metade de 2026. Segundo o órgão, o fenômeno pode intensificar secas, incêndios e ondas de calor em diferentes regiões do Brasil, incluindo a Amazônia.
Descubra mais sobre Vocativo
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

