Humanidades

Escaka 6×1 limita ascensão social de trabalhadores negros no Brasil, mostra estudo

Pesquisa baseada em dados da RAIS de 2023 mostra que hotelaria, bares, restaurantes e comércio concentram maioria de trabalhadores negros submetidos à escala 6x1. Relatório aponta impactos na saúde, qualificação profissional e mobilidade social da população negra.

Manaus, 22 de maio de 2026 – O 1º Anuário da População Negra no Brasil (2026) aponta que trabalhadores pretos e pardos concentram a maior parte dos empregos submetidos à escala 6×1 nos setores de hotelaria, bares, restaurantes e comércio. O estudo, elaborado a partir de dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2023, identifica que o regime de seis dias consecutivos de trabalho para um de descanso afeta principalmente ocupações de baixa remuneração e menor acesso à qualificação profissional.

A pesquisa integra o capítulo “Escala 6×1: uma armadilha da desigualdade racial”, assinado pelos economistas Daniel Duque, Michael França e Milena Mendonça. O levantamento utiliza cruzamentos estatísticos e análise qualitativa para demonstrar que a jornada de seis dias consecutivos de trabalho para um de descanso opera, na prática, como um mecanismo de manutenção das desigualdades estruturais brasileiras.

Segundo os dados apresentados no anuário, o setor de hotelaria possui 54,5% de trabalhadores negros sob esse regime de jornada. Em bares e restaurantes, o índice chega a 53,5%, enquanto o comércio registra 50,5%. Os pesquisadores afirmam que a concentração não ocorre de forma aleatória, mas acompanha a distribuição histórica da população negra em atividades de menor remuneração e baixa perspectiva de ascensão profissional.

Os autores descrevem o fenômeno como uma “armadilha de capital humano”, conceito utilizado para explicar como jornadas extensas reduzem as possibilidades de qualificação profissional e mobilidade social. A análise sustenta que o trabalhador submetido ao regime 6×1 possui menos tempo disponível para estudar, buscar formação complementar ou desenvolver habilidades que permitam disputar vagas em setores mais valorizados da economia.

Trabalhadores negros são maioria em setores com alta incidência da escala 6×1. Foto: Fred Santana
Jornada extensa e impactos sociais

O estudo também aponta efeitos diretos da escala 6×1 sobre o convívio familiar e a organização da vida cotidiana. De acordo com os pesquisadores, a limitação do tempo livre afeta não apenas o trabalhador individualmente, mas contribui para a reprodução intergeracional da pobreza, especialmente entre famílias negras que já enfrentam barreiras históricas de acesso à renda, educação e oportunidades.

A análise destaca ainda consequências relacionadas à saúde pública e ao bem-estar. Entre os principais impactos associados ao modelo de jornada aparecem níveis elevados de estresse crônico, transtornos mentais e distúrbios do sono. A literatura técnica utilizada no relatório indica que trabalhadores submetidos a cargas extensas apresentam maior dificuldade para acessar serviços preventivos de saúde, justamente pela ausência de controle sobre o próprio tempo.

Os pesquisadores afirmam que a redução da jornada pode produzir efeitos positivos na qualidade do sono, na satisfação com a vida e na produtividade a longo prazo. O relatório menciona evidências empíricas internacionais e experiências anteriores no Brasil para argumentar que jornadas menores não resultam, necessariamente, em destruição de empregos.

Nesse contexto, o debate sobre o fim da escala 6×1 avançou também no Congresso Nacional. Em 25 de fevereiro de 2025, a deputada Erika Hilton protocolou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que propõe mudanças no regime de jornada e abre espaço para modelos como a semana de quatro dias de trabalho.

Na Câmara dos Deputados, a proposta está em análise em uma comissão especial presidida pelo deputado Alencar Santana (PT-SP) e relatada pelo deputado Leo Prates (Republicanos-BA). Nesta semana, o colegiado realizou novas audiências públicas para discutir os impactos econômicos e trabalhistas da medida, enquanto o relator avançou na elaboração do parecer final da PEC, que deve tratar da redução da jornada semanal para 40 horas, do fim da escala 6×1 e da manutenção dos salários. A expectativa apresentada por parlamentares envolvidos na tramitação é de que o texto seja votado na comissão especial até o fim de maio, antes de seguir para análise no plenário da Câmara.

A tramitação da PEC ocorre em meio à ampliação da mobilização popular em torno do tema. Segundo os dados citados no relatório, petições online relacionadas ao fim da escala 6×1 já ultrapassaram dois milhões de assinaturas. O movimento reúne trabalhadores, sindicatos e organizações sociais que defendem mudanças na legislação trabalhista e associam a discussão à pauta de justiça racial.

Fim da escala 6×1 segue em debate no Congresso. Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados
Debate econômico e modernização do trabalho

O anuário também confronta argumentos de setores econômicos que apontam riscos de desemprego em caso de redução da jornada. Os pesquisadores citam experiências europeias e a própria reforma constitucional brasileira de 1988, quando a carga horária semanal foi reduzida de 48 para 44 horas sem impacto significativo sobre os níveis gerais de emprego.

A análise sugere que a manutenção de jornadas extensas funciona como um mecanismo de preservação de mão de obra barata, reduzindo o incentivo para investimentos em tecnologia, inovação e reorganização produtiva. Nesse cenário, a superexploração do trabalho seria economicamente mais vantajosa para determinados segmentos empresariais do que a modernização estrutural do setor produtivo.

Outro ponto destacado no estudo é o papel da heteroclassificação, prática em que a raça ou cor do trabalhador é atribuída por terceiros, como departamentos de recursos humanos. Os pesquisadores observam que esse mecanismo pode influenciar distorções estatísticas e reproduzir padrões históricos de invisibilização racial no mercado formal.

O relatório também resgata o debate em torno da chamada doutrina da democracia racial, conceito utilizado historicamente para sustentar a ideia de que o Brasil não possuiria conflitos raciais estruturais devido à miscigenação. Para os autores, a permanência da população negra nos postos mais vulneráveis do mercado de trabalho evidencia que desigualdades raciais continuam presentes nas relações econômicas e sociais do país.


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