Manaus, 22 de maio de 2026 – O 1º Anuário da População Negra no Brasil (2026) aponta que trabalhadores pretos e pardos concentram a maior parte dos empregos submetidos à escala 6×1 nos setores de hotelaria, bares, restaurantes e comércio. O estudo, elaborado a partir de dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2023, identifica que o regime de seis dias consecutivos de trabalho para um de descanso afeta principalmente ocupações de baixa remuneração e menor acesso à qualificação profissional.
A pesquisa integra o capítulo “Escala 6×1: uma armadilha da desigualdade racial”, assinado pelos economistas Daniel Duque, Michael França e Milena Mendonça. O levantamento utiliza cruzamentos estatísticos e análise qualitativa para demonstrar que a jornada de seis dias consecutivos de trabalho para um de descanso opera, na prática, como um mecanismo de manutenção das desigualdades estruturais brasileiras.
Segundo os dados apresentados no anuário, o setor de hotelaria possui 54,5% de trabalhadores negros sob esse regime de jornada. Em bares e restaurantes, o índice chega a 53,5%, enquanto o comércio registra 50,5%. Os pesquisadores afirmam que a concentração não ocorre de forma aleatória, mas acompanha a distribuição histórica da população negra em atividades de menor remuneração e baixa perspectiva de ascensão profissional.
Os autores descrevem o fenômeno como uma “armadilha de capital humano”, conceito utilizado para explicar como jornadas extensas reduzem as possibilidades de qualificação profissional e mobilidade social. A análise sustenta que o trabalhador submetido ao regime 6×1 possui menos tempo disponível para estudar, buscar formação complementar ou desenvolver habilidades que permitam disputar vagas em setores mais valorizados da economia.

Jornada extensa e impactos sociais
O estudo também aponta efeitos diretos da escala 6×1 sobre o convívio familiar e a organização da vida cotidiana. De acordo com os pesquisadores, a limitação do tempo livre afeta não apenas o trabalhador individualmente, mas contribui para a reprodução intergeracional da pobreza, especialmente entre famílias negras que já enfrentam barreiras históricas de acesso à renda, educação e oportunidades.
A análise destaca ainda consequências relacionadas à saúde pública e ao bem-estar. Entre os principais impactos associados ao modelo de jornada aparecem níveis elevados de estresse crônico, transtornos mentais e distúrbios do sono. A literatura técnica utilizada no relatório indica que trabalhadores submetidos a cargas extensas apresentam maior dificuldade para acessar serviços preventivos de saúde, justamente pela ausência de controle sobre o próprio tempo.
Os pesquisadores afirmam que a redução da jornada pode produzir efeitos positivos na qualidade do sono, na satisfação com a vida e na produtividade a longo prazo. O relatório menciona evidências empíricas internacionais e experiências anteriores no Brasil para argumentar que jornadas menores não resultam, necessariamente, em destruição de empregos.
Nesse contexto, o debate sobre o fim da escala 6×1 avançou também no Congresso Nacional. Em 25 de fevereiro de 2025, a deputada Erika Hilton protocolou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que propõe mudanças no regime de jornada e abre espaço para modelos como a semana de quatro dias de trabalho.
Na Câmara dos Deputados, a proposta está em análise em uma comissão especial presidida pelo deputado Alencar Santana (PT-SP) e relatada pelo deputado Leo Prates (Republicanos-BA). Nesta semana, o colegiado realizou novas audiências públicas para discutir os impactos econômicos e trabalhistas da medida, enquanto o relator avançou na elaboração do parecer final da PEC, que deve tratar da redução da jornada semanal para 40 horas, do fim da escala 6×1 e da manutenção dos salários. A expectativa apresentada por parlamentares envolvidos na tramitação é de que o texto seja votado na comissão especial até o fim de maio, antes de seguir para análise no plenário da Câmara.
A tramitação da PEC ocorre em meio à ampliação da mobilização popular em torno do tema. Segundo os dados citados no relatório, petições online relacionadas ao fim da escala 6×1 já ultrapassaram dois milhões de assinaturas. O movimento reúne trabalhadores, sindicatos e organizações sociais que defendem mudanças na legislação trabalhista e associam a discussão à pauta de justiça racial.

Debate econômico e modernização do trabalho
O anuário também confronta argumentos de setores econômicos que apontam riscos de desemprego em caso de redução da jornada. Os pesquisadores citam experiências europeias e a própria reforma constitucional brasileira de 1988, quando a carga horária semanal foi reduzida de 48 para 44 horas sem impacto significativo sobre os níveis gerais de emprego.
A análise sugere que a manutenção de jornadas extensas funciona como um mecanismo de preservação de mão de obra barata, reduzindo o incentivo para investimentos em tecnologia, inovação e reorganização produtiva. Nesse cenário, a superexploração do trabalho seria economicamente mais vantajosa para determinados segmentos empresariais do que a modernização estrutural do setor produtivo.
Outro ponto destacado no estudo é o papel da heteroclassificação, prática em que a raça ou cor do trabalhador é atribuída por terceiros, como departamentos de recursos humanos. Os pesquisadores observam que esse mecanismo pode influenciar distorções estatísticas e reproduzir padrões históricos de invisibilização racial no mercado formal.
O relatório também resgata o debate em torno da chamada doutrina da democracia racial, conceito utilizado historicamente para sustentar a ideia de que o Brasil não possuiria conflitos raciais estruturais devido à miscigenação. Para os autores, a permanência da população negra nos postos mais vulneráveis do mercado de trabalho evidencia que desigualdades raciais continuam presentes nas relações econômicas e sociais do país.
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