Manaus, 05 de julho de 2026 – A Mineração Taboca S.A. é alvo de uma investigação do Ministério Público Federal (MPF) após ser acusada pelo povo Waimiri Atroari (Kinja) de contaminar, com metais pesados e rejeitos industriais, os rios que abastecem a Terra Indígena da etnia, no Amazonas. Segundo as denúncias reunidas no inquérito civil e os documentos analisados pelo MPF, a atividade minerária teria provocado um quadro de degradação ambiental com impactos sobre a qualidade da água, a pesca e a saúde das comunidades indígenas. Diante dos elementos apurados, o órgão recomendou que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) assuma o licenciamento da Mina de Pitinga e que a Agência Nacional de Mineração (ANM) impeça a expansão da lavra até a adoção de medidas para conter e reparar os danos ambientais.

Os relatos dos fiscais ambientais da etnia Kinja indicam que os episódios de derramamento de sedimentos pela Mineração Taboca S.A. ocorrem desde março de 2021. As vistorias de campo realizadas pelos indígenas logo no início da crise identificaram que cinco barragens da empresa apresentavam rompimentos em suas estruturas laterais. Naquela oportunidade, especificamente em 12 de maio de 2021, o fluxo de lama industrial atingiu diretamente a Aldeia Arykawa, inviabilizando por completo o acesso à água potável de consumo. Para apurar essa contaminação e o impacto ambiental, o Ministério Público Federal (MPF) assumiu o protagonismo das investigações na esfera federal e instaurou o Inquérito Civil nº 1.13.000.001050/2021-33.
Apesar da gravidade das denúncias e das vistorias, em 6 de junho de 2024, o próprio Ministério Público Federal (MPF) arquivou o inquérito inicial. A decisão de arquivamento tomada pelo órgão ministerial baseou-se estritamente em pareceres técnicos emitidos pela Agência Nacional de Mineração (ANM) e pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM) — órgão estadual responsável pelo licenciamento da atividade —, que atribuíram de forma exclusiva os danos na bacia hidrográfica a “chuvas extraordinárias” e não a falhas operacionais ou estruturais da mineradora. Contudo, a persistência dos danos e o surgimento de novos laudos químicos forçaram as autoridades federais a reabrir as apurações em 2025 sob o Inquérito Civil nº 1.13.000.002675/2025-46.
Os Waimiri Atroari sustentam que a conduta da Mineração Taboca quebrou de forma profunda o modo de vida tradicional das comunidades do município de Presidente Figueiredo. A poluição gerada pela atividade industrial gerou uma grave insegurança alimentar, uma vez que a pesca tornou-se totalmente inviável nos rios atingidos. O contato diário com os recursos hídricos afetados provocou surtos de coceira intensa na pele e casos frequentes de adoecimento de crianças. Fiscais do povo Kinja relatam ainda fortes odores exalados pela água, presença de espumas escuras e quadros severos de ardência respiratória.
Embora a Terra Indígena Waimiri Atroari mantenha essa denominação oficial, o povo que vive no território se autodenomina Kinja. O termo “Waimiri Atroari” é a designação historicamente adotada pelo Estado brasileiro e permanece em documentos oficiais, enquanto “Kinja” é o nome pelo qual o próprio povo se identifica.

Contestações técnicas e indícios de crime ambiental
A estratégia técnica da Mineração Taboca, estruturada em laudos que apontam causas naturais e recordes de chuvas para a turbidez, sofre severas contestações científicas. Especialistas da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) demonstraram que a atividade de lavra da empresa é a responsável direta por ativar processos químicos nocivos no solo.
O trabalho contínuo das máquinas da mineradora mexe profundamente com a terra e agita o fundo dos rios. Essa agitação faz com que o mercúrio e outros metais tóxicos, que antes estavam enterrados e quietos na lama sem fazer mal, se espalhem e se misturem novamente com a água. Uma vez solto, esse mercúrio é facilmente absorvido pelos seres vivos.
O grande perigo é que ele entra na cadeia alimentar e vai se acumulando nos peixes ao longo do tempo. Como os peixes carnívoros se alimentam de outros peixes menores, eles acabam concentrando uma quantidade enorme desse metal no corpo, ultrapassando de longe os limites de segurança para o consumo humano definidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Estudos independentes adicionaram dados ao processo, expondo que os níveis de alumínio chegam a atingir 3,720 miligramas por litro na área de influência da Mineração Taboca. Detalhe: o limite de segurança das resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente para águas doces devem chegar no máximo de 0,1 miligrama por litro. A conduta da mineradora também passou a ser monitorada por ferramentas de alta precisão do Ibama. Uma informação técnica da autarquia ambiental, elaborada por análise de satélite, comprovou que as escavações da empresa atingiram o limite físico da reserva e extrapolaram as áreas delimitadas autorizadas.
Os indígenas acusam ainda a Mineração Taboca de tentar manipular os dados de controle ambiental e mascarar a extensão real dos danos nos rios da bacia. As lideranças Kinja afirmam que as coletas de amostras de água promovidas unilateralmente pela empresa concentram-se em posições geográficas totalmente distantes dos pontos críticos afetados. Por essa razão, as comunidades exigem o direito de acompanhar presencialmente todas as vistorias técnicas oficiais promovidas pelos órgãos fiscalizadores federais.

Acordo sob suspeita e expansão
O Ministério Público Federal também investiga um movimento financeiro suspeito realizado pela Mineração Taboca junto às comunidades indígenas afetadas. A mineradora firmou de forma direta o Termo de Cooperação nº 01/2026, com o repasse de R$ 12,3 milhões para a Associação Comunidade Waimiri Atroari (ACWA). A transação ocorreu de maneira reservada e sem qualquer tipo de participação, anuência ou mediação institucional dos procuradores federais da República. Os investigadores veem o acordo com preocupação, visto que a assinatura ocorreu apenas dois dias depois de as lideranças manifestarem desconfiança total contra a empresa.
Outra preocupação diz respeito à mudança na composição societária e no comando administrativo da Mineração Taboca. A empresa passou a ser controlada pela holding de investimentos chinesa China Nonferrous Metal Mining, que estabeleceu metas agressivas para a região. A nova gestão anunciou o aporte de US$ 100 milhões para ampliar as operações industriais e quadruplicar a produção de estanho até o ano de 2035. Os planos da controladora preveem ainda o início da lavra de novos compostos químicos perigosos, como nióbio, tântalo e minerais de terras raras.
Para o MPF, o plano de expansão da Mineração Taboca vai multiplicar os estragos ambientais e sociais na região. Os procuradores afirmam que, se a empresa já não consegue dar conta dos problemas que causou até agora, acelerar a produção vai levar a um desastre completo. A insistência da mineradora em abrir novas áreas de exploração sem resolver a poluição do passado foi classificada na investigação como racismo socioambiental. A acusação se baseia no fato de a empresa expor continuamente uma comunidade vulnerável a riscos graves de saúde e contaminação.

Reações jurídicas e o silêncio da mineradora
A escalada de acusações e de evidências de degradação motivou o Ministério Público Federal a adotar medidas drásticas contra a Mineração Taboca. Os procuradores requisitaram formalmente à Polícia Federal a abertura de um procedimento criminal para apurar a conduta da empresa e de seus gestores. O foco da investigação policial está centrado na prática continuada de crimes ambientais e no crime de envenenamento de água potável. A gravidade das denúncias de mortandade de botos e destruição de matas ciliares fundamenta a necessidade de uma intervenção policial imediata no complexo.
O órgão expediu ainda a Recomendação nº 7, exigindo que o Ibama assuma imediatamente a responsabilidade pelo licenciamento da Mina de Pitinga. A peça jurídica sustenta que o órgão estadual do Amazonasnão detém competência legal para licenciar atividades com impactos diretos sobre bens da União. O Ministério Público Federal também determinou que a Agência Nacional de Mineração aplique sanções administrativas contra a Mineração Taboca. A orientação explícita repassada à autarquia mineral determina o bloqueio integral de novas concessões de lavra até a restauração ambiental dos rios.
A Revista CENARIUM entrou em contato com a Mineração Taboca S.A. para solicitar posicionamento oficial sobre as informações constantes. O veículo questionou a empresa sobre os apontamentos de contaminação de rios por metais pesados, as medidas de monitoramento e mitigação adotadas e a posição da companhia diante das recomendações de suspensão das atividades e revisão do licenciamento ambiental. Até o momento da publicação, não houve retorno da empre
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