Manaus, 15 de junho de 2026 – A possibilidade de um novo evento intenso de El Niño entre 2026 e 2027, combinada às decisões políticas que serão tomadas nas eleições deste ano, pode influenciar diretamente o futuro de milhões de hectares de florestas públicas da Amazônia. O alerta está no 4º Boletim do Observatório de Florestas Públicas, divulgado em junho de 2026 pela iniciativa Amazônia de Pé em parceria com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). O documento aponta que as Florestas Públicas Não Destinadas (FPNDs) permanecem entre os territórios mais vulneráveis ao desmatamento, às queimadas e à grilagem de terras no país.
A publicação relaciona a proteção dessas áreas ao cenário eleitoral de 2026 e ao agravamento da crise climática global. Segundo os autores, a combinação entre eventos extremos mais frequentes e escolhas políticas que afetam a governança ambiental poderá determinar o nível de proteção dessas florestas nos próximos anos.
O estudo destaca que as FPNDs são áreas públicas que ainda aguardam uma definição oficial de uso e gestão pelo Estado. Sem destinação para conservação, uso sustentável ou reconhecimento territorial, esses territórios tornam-se alvos preferenciais para invasões, ocupações ilegais e avanço do desmatamento.
Pesquisadores envolvidos na elaboração do boletim alertam que a Amazônia poderá enfrentar um novo período de forte pressão ambiental caso se confirme a formação de um novo El Niño. O fenômeno esteve associado às secas severas e aos incêndios que atingiram a região nos últimos anos, especialmente durante a crise climática observada entre 2023 e 2024.

Novo El Niño preocupa especialistas
A principal preocupação apresentada pelo documento é a possibilidade de repetição dos impactos registrados durante o último ciclo intenso do fenômeno climático. A série histórica da Rede MapBiomas Fogo mostra que 2024 concentrou aproximadamente um terço de toda a área queimada em FPNDs entre 2019 e 2025, tornando-se o ano mais crítico do período analisado.
Embora tenha sido observada uma redução das queimadas em 2025, o boletim ressalta que o cenário foi favorecido pela transição para condições associadas ao fenômeno La Niña e pelo fortalecimento de políticas públicas de prevenção e combate ao fogo. Os autores afirmam que essa redução não elimina o risco de novos episódios extremos nos próximos anos.
A pesquisadora do IPAM, Rebecca Maranhão, afirma que a destinação dessas áreas representa uma das principais estratégias para reduzir os efeitos dos eventos climáticos extremos sobre a floresta. “Destinar essas florestas para criação de áreas protegidas, como já é previsto por lei, é uma das principais estratégias para reduzir os impactos dos eventos climáticos extremos, especialmente em anos de El Niño” disse.
A pesquisadora defende que a definição formal do uso dessas áreas amplia a presença do Estado em regiões vulneráveis e fortalece mecanismos permanentes de proteção territorial. O boletim sustenta que a ausência de destinação favorece a expansão de atividades ilegais e reduz a capacidade de resposta diante de períodos prolongados de seca.

Ano eleitoral entra no centro do debate ambiental
O relatório aponta que as eleições de 2026 poderão influenciar diretamente a continuidade de políticas voltadas à conservação da Amazônia. Entre as preocupações destacadas estão eventuais enfraquecimentos institucionais, dificuldades na implementação de programas ambientais e redução da capacidade de fiscalização em áreas públicas.
Para os autores, a manutenção de iniciativas como o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) e a implementação da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF) serão decisivas para reduzir a vulnerabilidade das florestas diante dos impactos climáticos previstos para os próximos anos.
A co-diretora executiva da Amazônia de Pé, Catarina Nefertari, afirma que o período eleitoral representa uma oportunidade para ampliar a participação social no debate sobre mudanças climáticas e proteção territorial. “Em 2026, as eleições devem coincidir com um intenso El Niño. Enquanto os governantes precisam correr para adaptar as cidades, as organizações da sociedade civil têm o papel de informar as pessoas e cobrar políticas públicas de combate à crise climática”, declarou.
Nefertari lembrou ainda a oportunidade trazida pelas eleições. “Muitas vezes nos sentimos reféns de decisões tomadas a portas fechadas pelos nossos representantes políticos. Em período eleitoral, esse poder está com a sociedade. Nessas eleições, não podemos aceitar candidaturas que ignorem as mudanças climáticas e o impacto delas nas nossas vidas”, afirmou.
Amazonas lidera desmatamento e queimadas
Os dados mais recentes mostram que a pressão sobre as FPNDs permanece elevada. Entre janeiro de 2025 e abril de 2026, essas áreas concentraram aproximadamente 83,3 mil hectares desmatados, correspondendo a 20,6% do total registrado entre as categorias fundiárias analisadas pelo boletim.
O Amazonas, estado que reúne a maior extensão de FPNDs do país, aparece como o principal foco de preocupação. Entre 2024 e 2026, as florestas públicas não destinadas localizadas no estado responderam por 45% da área desmatada e 40% da área queimada registradas nessa categoria fundiária.
A publicação destaca que a pressão territorial está concentrada principalmente em áreas próximas a corredores de infraestrutura e frentes de expansão econômica. Rodovias como a BR-319, no sul do Amazonas, a BR-163, no Pará, a BR-174, em Roraima, e trechos da Transamazônica são apontadas como eixos de forte vulnerabilidade para as florestas públicas.
Os pesquisadores observam que a expansão dessas pressões facilita a ocupação irregular e amplia a presença de atividades ilegais em regiões ainda sem definição formal de uso. Segundo o boletim, a destinação dessas áreas é considerada uma das principais ferramentas para reduzir conflitos fundiários e fortalecer a governança territorial.
“É uma oportunidade para o Estado brasileiro combater o desmatamento e outras atividades ilegais crescentes na Amazônia, ao mesmo tempo em que promove a garantia de direitos com economias sustentáveis baseadas na floresta e cultura amazônida”, sugere Rebecca Maranhão.

CAR irregular amplia risco de grilagem
Entre os dados mais alarmantes apresentados pelo estudo está a sobreposição de registros do Cadastro Ambiental Rural (CAR) sobre áreas de florestas públicas. Atualmente, cerca de 31 milhões de hectares cadastrados no sistema incidem sobre FPNDs, situação apontada pelos autores como um dos principais fatores de estímulo à especulação fundiária.
Dentro dessas áreas registradas, aproximadamente 2,1 milhões de hectares já foram desmatados, reforçando a preocupação com o uso indevido do cadastro como instrumento para legitimar ocupações irregulares em terras públicas.
O documento defende a adoção de medidas voltadas ao cancelamento desses registros considerados irregulares. Os autores argumentam que a permanência dessas inscrições contribui para o avanço da grilagem e dificulta a implementação de políticas de ordenamento territorial.
A análise também mostra que a destruição das florestas segue um padrão econômico definido. Cerca de 78% das áreas desmatadas em FPNDs são convertidas em pastagens, enquanto pelo menos 22% evoluem para vegetação secundária, normalmente mais degradada e suscetível à ocorrência de novos incêndios.
O boletim ainda alerta para propostas legislativas que alteram regras de licenciamento ambiental, modificam mecanismos de regularização fundiária ou restringem instrumentos de fiscalização, como os embargos remotos realizados pelo Ibama com base em imagens de satélite. Segundo os autores, mudanças dessa natureza podem reduzir a capacidade de monitoramento e combate a atividades ilegais em terras públicas, ampliando as pressões sobre a floresta em um momento considerado decisivo para o futuro da Amazônia.
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