Manaus, 15 de maio de 2026 – A revisão do Plano Plurianual (PPA) 2024-2027 publicada no Diário Oficial da União (DOU) desta quinta-feira, 14, revela que o governo federal projeta investir mais de R$ 2 bilhões na reconstrução e adequação da BR-319, rodovia que liga Manaus à divisa entre Amazonas e Rondônia. Os novos dados oficiais surgem em um contexto de retomada acelerada dos aportes públicos na estrada, ao mesmo tempo em que estudos técnicos anteriores apontam riscos econômicos, ambientais e financeiros associados ao empreendimento.
Os documentos analisados mostram que a obra possui custo global estimado em R$ 2.045.094.560,00, dentro da ação orçamentária 1248 do programa federal de transporte rodoviário. O cronograma oficial estabelece conclusão até 31 de dezembro de 2028, encerrando um ciclo de 25 anos desde o registro inicial do projeto, em 2003. A previsão atual do PPA reserva R$ 345,4 milhões entre 2024 e 2027 apenas para essa etapa de execução.
Os valores previstos indicam uma escalada progressiva de investimentos ao longo do atual mandato presidencial. Em 2024, a previsão foi de R$ 9,7 milhões, seguida por R$ 81,8 milhões em 2025 e R$ 53,9 milhões em 2026. O maior salto aparece em 2027, quando o governo projeta desembolsar R$ 200 milhões, sinalizando uma possível intensificação das obras de pavimentação e infraestrutura pesada no chamado “Trecho do Meio”.

Estudo técnico aponta desequilíbrio econômico
Enquanto o governo amplia as previsões orçamentárias para a BR-319, um estudo técnico intitulado Eficiência econômica, riscos e custos ambientais da reconstrução da rodovia BR-319, publicado pela organização Conservação Estratégica (CSF), em maio de 2009, concluiu que a reconstrução do trecho intermediário da rodovia apresenta forte desequilíbrio econômico sob a ótica da análise custo-benefício.
Segundo o levantamento, mesmo considerando apenas custos e benefícios diretos de transporte, o projeto registraria prejuízo líquido de R$ 316 milhões, em valores corrigidos para 2007. A pesquisa utilizou simulações probabilísticas com 10 mil iterações e concluiu que a probabilidade estatística de viabilidade econômica da obra seria “zero”.
O estudo calculou uma relação benefício-custo de R$ 0,33, indicando que, para cada R$ 1 investido pelo poder público, o retorno social projetado seria de apenas R$ 0,33. Os pesquisadores afirmaram ainda que, mesmo sob uma taxa de desconto social reduzida, o empreendimento permaneceria economicamente deficitário.
Quando as externalidades ambientais foram incorporadas aos cálculos, os impactos financeiros cresceram significativamente. O documento estimou que o desmatamento induzido pela reconstrução da rodovia poderia gerar perdas sociais de aproximadamente R$ 1,9 bilhão, elevando o prejuízo total para cerca de R$ 2,2 bilhões.

Impactos ambientais
Entre os principais fatores apontados está o impacto das emissões de carbono associadas ao avanço do desmatamento na região amazônica. O estudo calculou em R$ 1,4 bilhão o custo relacionado às mudanças climáticas, valor que supera em quase dez vezes os benefícios brutos estimados para a estrada.
Os pesquisadores também destacaram os custos adicionais necessários para conter os impactos ambientais da obra. A proteção e implementação básica de 29 Unidades de Conservação no entorno da BR-319 demandariam cerca de R$ 469 milhões, segundo a estimativa técnica apresentada no relatório.
Além dos dados econômicos, o documento apontou fragilidades institucionais no histórico da reconstrução da rodovia. Entre elas, a ausência de estudos oficiais de viabilidade econômica no momento da inclusão do projeto no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), além da paralisação das obras em 2007 após denúncias de corrupção envolvendo a construtora responsável pela licitação inicial.
O relatório também descreveu a transferência de parte das obras para o Exército Brasileiro, por meio do Batalhão de Engenharia de Construção (BEC), após o avanço das investigações. Segundo o documento, a medida foi adotada para evitar novos atrasos em um empreendimento considerado estratégico sob forte pressão política.
Outro ponto levantado pela pesquisa envolve a eficiência logística da BR-319 para o escoamento da produção da Zona Franca de Manaus. De acordo com a análise técnica, o transporte rodoviário pela estrada apresentaria custo global de frete 66% superior ao modal de cabotagem, considerado pelos pesquisadores como alternativa economicamente mais eficiente para a região amazônica.
Apesar das divergências sobre os impactos econômicos e ambientais do projeto, o governo federal mantém a BR-319 entre os principais investimentos de infraestrutura previstos para o Amazonas até o fim da década. O Programa 3106, voltado ao transporte rodoviário, prevê metas de manutenção e pavimentação na Região Norte, incluindo a entrega acumulada de 298,84 quilômetros de rodovias pavimentadas ou adequadas até 2027.
Os documentos oficiais também estabelecem como meta elevar para 70% o Índice de Condição da Manutenção (ICM) das rodovias da Região Norte até o final do atual ciclo do PPA. A extensão específica da participação da BR-319 nesse total de quilômetros previstos não foi detalhada nos anexos analisados.

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